O silêncio de Yellow

O silêncio de Yellow

Ela era uma gata silenciosa. Tinha um miado baixinho, curto — quase a dublagem de um miado. Quando me olhava nos olhos, soltava aquele seu ruído, que às vezes me parecia uma reclamação. No mais, quase não falava. Sua maneira de se comunicar era corporal, esfregando-se nos móveis, esparramando-se de barriga para cima ao sol, subindo no sofá e deitando-se ao meu lado para pedir carinho. E pedia assim: em silêncio. Depois de subir no sofá, me olhava com um olhar significativo e se acomodava ao meu lado, de costas para mim, expondo o dorso como a me dizer que era ali que queria receber o afago. Se por acaso eu estava distraída e não a acariciava, ela virava a cabecinha e me olhava, como quem diz: “E aí?” Mas tudo sem emitir qualquer...

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Duas paixões

Duas paixões

Elas entraram em minha vida assim, de repente. Quando abri os olhos, tinham chegado. As duas, ao mesmo tempo – sem aviso. Por um curioso acaso (para quem acredita no acaso), as duas vieram juntas, no mesmo ano, na mesma época. Começava a última década do século vinte e eu estava às portas de fazer 40 anos. Chegaram e mudaram tudo – minha vida, minha casa, meu mundo. Seus efeitos sobre mim foram igualmente definitivos, avassaladores, absolutos. Você pensa que sabe do que estou falando, não é? Duas gatas, deve ter imaginado. Mas não, não é bem isso. Bem, digamos que é isso, sim – mas apenas em parte. São duas coisas. Uma delas – somente uma – é de fato uma gata. Ela, a gata, chegou em 1991. Recebeu o nome de Pia. Foi no outono que nasceu,...

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