Dilema no escuro

Os dedos da mulher tremeram quando ela passou o ferrolho, trancando-se no banheiro. Não acendeu a luz. Não precisava. Os celulares, esses pequenos instrumentos do demônio, têm luz própria. Apertou com força o aparelhinho na mão, sentindo a superfície lisa e fria. Era ali dentro que estava a resposta. Sim ou não? Seria verdade? Não é possível, não posso acreditar. Sentou-se no banco junto ao boxe, encostando-se ao toalheiro. Seus gestos eram lentos, medidos, fazia tudo como se estivesse debaixo d’água, ou na lua, ou em outra dimensão. Seu corpo se movimentava quase à sua revelia, as mãos trêmulas agarradas ao celular, sem querer largar. Não podia fazer nenhum ruído, o marido podia acordar. O banheiro era no fim do corredor, longe do...

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Outono

Outono

Finalmente parece que o outono chegou, pensou a mulher enquanto olhava para a vitrine. Ainda fazia calor, é verdade. Um calor úmido, pegajoso. Mas já não sufocava como antes, como durante todos aqueles meses de secura e brasa, em que as pessoas já clamavam aos céus por uma enxurrada, por piores que fossem as conseqüências. Sim, o outono estava ali, acima de tudo naquela loja, cuja vitrine apreciava agora, com seus blazers elegantes, suas botas, seus tons de ferrugem e o chão coalhado de folhas secas de mentira. Estava bonito. Era uma loja de rua. A mulher só gostava de lojas de rua, nunca de shoppings, porque sentia como se só na rua vivesse a vida real. Para ela, estar dentro de um shopping era como estar num universo paralelo, virtual – onde todas...

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Sonho

Vestida de colombina – era como minha mãe estava no sonho. Uma colombina tardia, o carnaval já longe, mas foi assim que ela me surgiu. Com aquela colombina de um ombro só, o busto apertado por penses, a cintura justa que se abria de repente numa saia muito ampla. Uma colombina vermelha e branca que conheci muito bem, em que os vermelhos da saia eram tiras soltas, em ponta, terminando em pompons. Há anos não pensava nela, que conheci primeiro numa fotografia. Há anos, também, não pensava em pompons. Mas agora lembro de como fazê-los, foi minha mãe quem me ensinou. Lembro de suas mãos ágeis segurando a tesoura proibida, aquela que as crianças não podiam tocar para que não ficasse cega – a tesoura de costura. Lembro de minha mãe com ela nas mãos,...

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Diário alienígena

Continuo sem entender muito bem. Hoje passou por mim um ser de sexo indefinido, que me deixou ainda mais confuso. Seu aspecto era muito estranho. Tinha um rosto delicado, um nariz pequeno, os lábios bem delineados, mas não muito grossos, formando, no conjunto, o que aqui se chama de mulher bonita. Os cabelos, muito escuros e lisos, eram também femininos, compridos, bem tratados e lustrosos. Mas, assim que se fechava em ponta a linha do queixo, dava-se a transformação: o pescoço, largo e musculoso, era estriado de veias, parecendo inflado a ponto de rebentar. O tronco, imenso e forte, abria-se para os lados em braços espetaculares, rígidos, com gigantescos nós de músculos sobrepondo-se uns aos outros e formando uma curva um pouco semelhante à que...

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Apenas um menino

Desde pequeno, ele gostava de colecionar coisas. Guardava, dentro de caixas e pastas, recortes de jornais sobre os mais diversos assuntos, com a sensação de que um dia precisaria pesquisar as informações ali armazenadas. Tinha também especial prazer em observar o comportamento dos mais velhos, dos muito velhos. Ainda muito criança, costumava sentar-se à porta da loja do pai e ali ficava, horas e horas, conversando com os fregueses que apareciam, todos homens feitos. Mas seu interesse maior recaía sobre um amigo da família, um senhor de 80 anos a quem chamava de avô. Dele, ouvia histórias sobre o Rio Antigo, sobre os fascínios e as malandragens da Lapa clássica, as festas nos salões e nas gafieiras, os primeiros banhos de mar nas praias quase desertas...

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Papel em branco

No mistério do papel em branco – da tela em branco – com o qual se depara pela primeira vez, a mulher reflete. Pensa no fluxo primeiro, o jorro, a sangria que lhe aflorou à pele, o veio de ouro e prata, a veia de sangue e dor, tudo o que brotou da terra e da carne e se transmutou em palavras. Um dia, um menininho holandês ia passando junto a um dique e encontrou um pequeno orifício. Achou que precisava fazer alguma coisa. Se colocasse ali o dedo, evitaria que o buraco se alargasse mais e o dique viesse abaixo. Ficou quieto, esperando, até que alguém passasse. Virou herói. Com ela, com a mulher, se dera o contrário: um dia, sem saber por quê, ela tirara o dedo e deixara correr a enxurrada, irrefreável. Palavras, palavras, letras, um amontoado de...

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