Sonho assombrado

Sonho assombrado

Primeiro, eu o conheci através de um livro. Ia passeando por entre as estantes de uma livraria quando dei com dois exemplares colocados de pé, lado a lado, um mostrando a capa, o outro a contracapa. E foi justamente esta última que me fez parar. Porque ali estava, diante de mim, o rosto da boneca de biscuit da minha infância, virado de cabeça para baixo, olhando-me com seus olhos muito abertos – que pareciam mortos. Aqueles olhos de cristal, as pestanas pintadas na louça, a boca vermelha entreaberta deixando entrever os dentes pequeninos (que sempre me pareceram feitos da mesma substância dos botões). Tudo ali me fez voltar no tempo, enchendo meu coração de horror e fascínio. Só depois de alguns segundos, tirei o livro da estante e comecei a...

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É hoje

É hoje

Quando era criança, eu não gostava de Carnaval. Não é que não gostasse – eu tinha medo. Pavor. Carnaval para mim significava ganhar uma fantasia e ir passear, de mãos dadas com minha mãe, no Largo da Taquara (tínhamos um sítio em Jacarepaguá) ou no Centro da cidade. Nos dois casos, o que mais havia eram clóvis e mascarados de todos os tipos, muitos armados de ampolas de lança-perfume, algo que para mim se assemelhava a uma arma, pois havia sempre o risco de receber aquele líquido gelado no olho. Eu tinha pavor aos mascarados. Afora essas idas à Taquara e à Cinelândia, o programa era ficar sentada no alto do muro do nosso sítio, fantasiada, com um saquinho de confete e outro de serpentina, à espera de que passasse alguém. Mas não passava...

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Ecos de Poe

Ecos de Poe

Tomou um susto quando olhou o calendário. Tinha esquecido o próprio aniversário de casamento. O marido não se lembrava nunca dessas coisas, mas ela, sim. Dessa vez, justamente dessa vez, era uma data redonda: dez anos. E ela esquecera. Que pena. Podiam ter saído para jantar, feito alguma coisa. A mulher sentou-se no sofá. Dez anos. De repente, veio-lhe à mente uma frase que seu médico repetia sempre, para fazê-la prestar atenção ao próprio corpo: “Você nunca teve 40 anos. Nem nunca mais vai ter”. A mulher sentia um arrepio ao ouvir isso, embora não entendesse muito bem por quê. E agora a frase lhe voltava, com uma nova roupagem: “Vocês nunca mais vão fazer dez anos de casados. Nunca mais”. Sim, isso é que era assustador,...

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Mais humanos

Em uma esquina de Ipanema, daquelas bem arborizadas, já a caminho da Lagoa, paro e observo dois prédios, um ao lado do outro. São edifícios pequenos, de três andares, com detalhes art-decô e varandas inúteis mas simpáticas, mínimas, pouco mais do que sacadas. Nem um nem outro tem porteiro. Os muros são baixos. Nada de grades, vidros com filme escuro, alarmes. E muito menos aquelas tabuletas – pavorosa mania – avisando que o lugar é guardado por um sistema de segurança. Gosto desses prédios pequenos, talvez porque nasci em uma construção assim. No Jardim Botânico, na rua Faro, quase ao lado do Bar Joia. Saí de lá aos 7 anos e dele só tenho uma lembrança mais vívida porque ali voltei a morar mais tarde, já casada. Esse prédio ainda existe....

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Girando no caos

A mulher tirou da estante o livro velho, de lombada gasta, e com ele nas mãos foi se sentar em um tamborete vermelho, que contrastava com o chão de ladrilho hidráulico, preto e branco. Ela estava em um sebo de livros no Catete, escondida num canto da casa onde ninguém podia vê-la, lá atrás. Havia no ar um cheiro de mofo e umidade, mas isso ela achava bom. Estar entre livros velhos, em um recanto sombrio e silencioso como aquele, dava-lhe sempre uma sensação de acolhimento. Estava entre os seus – embora, é claro, cercada de fantasmas. As livrarias antigas, os sebos e bibliotecas, são sempre lugares assombrados. Mas bem assombrados. Há presenças ali, disso não se pode duvidar. Embora sempre presenças benignas. Não há nada a temer, pensou a mulher....

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Papel picado

Papel picado

No início, era por causa do papel picado. Achávamos uma beleza aquele céu de verão que aparecia por entre os prédios, cheio de pedacinhos de papel esvoaçando, e também o chão coalhado de branco, numa espécie de Carnaval purificado. Havia uma beleza quase triste naquela chuva de papel fora de validade. Era uma beleza de fim, de despedida. De adeus — mas, ainda assim, uma beleza. Por isso, para ver a chuva de papel, íamos à Cidade todo último dia útil do ano, 30 de dezembro. E aproveitávamos para visitar sebos e livrarias do Centro. Mas — coisa curiosa — sempre nos atínhamos a um dos lados da avenida Rio Branco, a região que chamamos de Margem Direita, ou Rive Droite (o lado do Theatro Municipal, porque a numeração começa na...

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