Dilema no escuro

Os dedos da mulher tremeram quando ela passou o ferrolho, trancando-se no banheiro. Não acendeu a luz. Não precisava. Os celulares, esses pequenos instrumentos do demônio, têm luz própria. Apertou com força o aparelhinho na mão, sentindo a superfície lisa e fria. Era ali dentro que estava a resposta. Sim ou não? Seria verdade? Não é possível, não posso acreditar.
Sentou-se no banco junto ao boxe, encostando-se ao toalheiro. Seus gestos eram lentos, medidos, fazia tudo como se estivesse debaixo d’água, ou na lua, ou em outra dimensão. Seu corpo se movimentava quase à sua revelia, as mãos trêmulas agarradas ao celular, sem querer largar. Não podia fazer nenhum ruído, o marido podia acordar. O banheiro era no fim do corredor, longe do quarto, mas era arriscado.
Respirou fundo. Tinha recebido a carta de manhã. Alguém botara embaixo da porta. A carta que denunciava tudo, dava detalhes. Muitos detalhes. E dizia que, se ela tivesse dúvida, que procurasse as mensagens no celular dele. A mulher olhou para o aparelho que tinha nas mãos. O celular do marido. Seus olhos se acostumavam à penumbra, ela já podia ver o brilho do vidro, a moldura de metal. Não é possível, tornou a pensar. Ele nunca me escondeu nada, ele sabe que eu tenho a senha. Essa é a maior prova de que é tudo mentira, uma intriga de alguém que inveja nossa felicidade.
Mas… e se fosse verdade? Se não fosse uma intriga?
Precisava saber. Tomar coragem, ligar o pequeno botão, ver a tela se iluminar, procurar as mensagens. Ler. E pronto. Tudo estaria esclarecido. Era simples, não precisaria nem comentar com ele, nada, nada. Amanhã seria outro dia, tudo estaria esquecido. A carta. A maldita carta. Os detalhes. Muitos detalhes. Mas era intriga, tinha certeza, só podia ser. Tinha de ser.
Logo ele, um homem tão digno, tão ético. Sempre tão correto em tudo. Os maridos das amigas eram diferentes. Deles, ela esperaria qualquer coisa. Mas o seu era diferente. Sua vida inteira fora calcada naquela crença, na certeza de que seu marido era um homem franco, verdadeiro, fiel. Ele não. Nunca!
Desde jovens, quando se conheceram, ela o admirava. Juntos, tinham sonhado por um mundo melhor, por grandes ideais. Seu marido era um homem especial. Ele jamais faria isso, uma traição tão grande.
E se fizesse? A carta dava detalhes, muitos detalhes, uma coisa sórdida. Tornou a olhar para o celular, ele agora parecia quente em sua mão, queimava a palma. Ficou de pé, a outra mão amparada à parede. Sentia-se tonta, nauseada. Ergueu a tampa do vaso. Observou o chão de ladrilhos. No escuro, os desenhos do piso hidráulico formavam olhos, as figuras geométricas ondulavam, todo o chão parecia fugir de sob seus pés. Não podia ser verdade. Se fosse, teria que jogar fora uma vida inteira de sonhos, de certezas. Não podia ser! Não deixaria que fosse. E, num impulso, abriu os dedos. O celular caiu dentro do vaso com estrondo, a água respingando para todo lado.