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  • Silêncio cúmplice

    Recebi o telefonema de um amigo da TV Bandeirantes, muito abalado com a morte do cinegrafista Santiago Andrade, atingido por um morteiro disparado pelos black-blocs na manifestação do dia 6 de fevereiro. Claro que todos nós – a sociedade civil e especialmente nós, jornalistas – estamos chocados com a história. Mas uma frase de meu amigo me chamou a atenção:

    “Fico me perguntando se não devíamos ter sido mais duros desde o início, se não devíamos ter denunciado com mais vigor esses vândalos”, disse ele.

    Aí está: talvez haja, nessa morte, mais do que a sensação de perplexidade e revolta que sentimos quando ficamos sabendo, por exemplo, da morte de alguém vítima de bala perdida. Os comentários que tenho ouvido me passam a impressão de que, de alguma maneira, nos sentimos culpados.

    Desde que começaram os movimentos de junho do ano passado, temos assistido à crescente violência nas manifestações. Essa escalada de violência tem sido atribuída quase sempre à maneira truculenta de agir por parte dos policiais. Mas, por maior que seja o despreparo do aparato policial, há vândalos agindo livremente nas ruas durante esses atos, saindo com o objetivo puro e simples de destruir, sem qualquer reivindicação a movê-los. Não vejo muita diferença entre esses manifestantes violentos e os integrantes de torcidas organizadas que vão aos estádios, nitidamente, não para assistir aos jogos, mas para brigar pelo prazer da briga.

    Jovens advogados, políticos progressistas, instituições que sempre defenderam os direitos humanos, todos têm saído em defesa dos manifestantes, na presunção de que, entre perseguidos e policiais, os primeiros têm sempre razão. Mas os black-blocs, ou seja lá que nome tenham, vinham dando sinais nos quais devíamos ter prestado mais atenção: havia tintas neonazistas no comportamento deles, inclusive na hostilidade à imprensa. Há poucos dias, em uma tentativa de “rolezinho” no Leblon, um repórter de televisão foi xingado e por pouco não chegou a ser agredido pelos manifestantes. Isso tem acontecido o tempo todo, desde as manifestações de junho. Por que nós, jornalistas, não denunciamos isso com mais energia?

    Talvez porque parecesse retrógrado, uma coisa velha, de direita (como se dizia antigamente), ser contra os manifestantes. Poucos de nós, na imprensa, tivemos coragem de escrever contra eles com a força necessária. Afinal, como defender policiais e governos suspeitos, logo nós, que já trabalhamos sob censura e combatemos a ditadura? Melhor ficarmos quietos, em nome da democracia. Em nome do direito à livre manifestação – mesmo com bombas e pedras.

    E agora estamos assim, como o meu amigo da Bandeirantes. Com esse nó na garganta, essa pergunta presa no peito: será que nosso silêncio constrangido nos faz cúmplices na morte de Santiago?

     

    Artigo de Heloisa Seixas publicado no jornal ‘O Globo’ em 12/02/2014

     

  • Somos um povo fútil?

    “No Brasil, tudo vira moda. Até manifestação de rua”.

    Ouvi essa frase de um motorista de táxi durante os acontecimentos de junho, e achei um exagero. Rebati, dizendo que o povo nas ruas tinha um significado imenso e ia propiciar a mudança de várias leis. Ele me olhou pelo retrovisor e respondeu que era verdade, mas que via muitos jovens, a caminho das manifestações, agindo como se estivessem indo para um bloco de Carnaval. “É a onda do momento”, insistiu. “Daqui a pouco passa”.

    Em poucas semanas, as manifestações começaram a esvaziar. Os motivos eram muitos: a ação dos “black blocks”, as depredações, a violência da polícia, as denúncias de interesses escusos por parte de políticos, milicianos, traficantes. Mas não pude deixar de pensar nas palavras do motorista de táxi.

    Tornei a pensar nelas há algumas semanas, ao voltar de uma viagem de quase um mês à Alemanha. Ao desembarcar no Brasil, fui tomada pela sensação de que somos mesmo um país de modismos. Um povo fútil. Sei que é um clichê essa história de ir à Europa e voltar falando de “um banho de civilização”. Sempre fui contra isso. Mas, dessa vez – depois de visitar onze museus, duas exposições, de ir a um concerto de música clássica e de visitar uma gigantesca feira de livros – alguma coisa aconteceu comigo.

    Acho que uma das razões dessa sensação foi a leitura, durante a viagem, do livro de Mario Vargas Llosa, “A civilização do espetáculo”. Embora em alguns pontos eu discorde do escritor, o livro me chamou a atenção para a destruição da cultura no mundo moderno, em favor do entretenimento. Esse conceito me deixou pensando no Brasil — nesse país que não lê livros, mas onde quase todo mundo tem celular. Onde se veem, nos bairros pobres, antenas parabólicas sobre casas miseráveis, onde há mais televisores do que geladeiras, e onde, em vez de bibliotecas, temos lan-houses. País que parece ter passado, em massa, do analfabetismo funcional para o facebook – sem escalas.

    Outro fator que contribuiu para a minha sensação, ao voltar, foi essa lamentável discussão sobre as biografias. Muito me entristeceu ver biógrafos e historiadores serem tratados como se fossem caçadores de fofocas, quando o que está em jogo, com essa distorção no Código Civil, é a memória – e a História – de nosso país. Lamentei ver artistas que sempre lutaram pela liberdade defendendo posições indefensáveis. Não pude deixar de comparar o que estava acontecendo aqui com a atitude dos alemães em relação ao seu próprio passado (e que passado!). Eles não escondem nada. Não são um país sem memória. Tinham todos os motivos para ser, mas não são.

    Nós somos. Descuidamos de nossos museus, nosso patrimônio, nossos arquivos. Deixamos cair aos pedaços a Biblioteca Nacional. Mas adoramos automóveis. E televisores gigantes, com telas de LED. Não podemos ficar um segundo sem falar ao celular, nem mesmo quando almoçamos (na Alemanha, os trens têm vagões em que é proibido ligar celulares e computadores, porque os bips incomodam). Quando viajamos – refiro-me à nossa classe média –, o que mais gostamos é de fazer compras. Já somos até conhecidos nas lojas de Nova York e Miami, onde os lojistas contratam vendedores que saibam falar português. E somos vaidosos. Queremos espetar botox no rosto e botar silicone nos seios. Já há meninas de 14, 15 anos, pedindo às mães que as deixem fazer isto. Nas ruas da Europa, não se vê essa quantidade de seios artificiais que temos por aqui. Estamos entre os campeões mundiais em número de cirurgias plásticas. Em cidades como Rio e São Paulo, há quase uma academia de ginástica em cada quarteirão. Precisamos malhar. E emagrecer. E não envelhecer nunca. E comprar tênis novos. Mas podemos passar um ano inteiro sem ler um único livro. Temos péssimos resultados em matéria de educação – em todos os sentidos.

    Voltei da viagem com essa sensação de que somos mesmo fúteis, superficiais, e me lembrei do motorista do táxi.

    Texto de Heloisa Seixas publicado no jornal O Globo em 14/12/2013

  • Prêmio culinário internacional

    Prêmio culinário internacional

    Meu livro “Uns cheios, outros em vão – Receitas que contam histórias” (Casa da Palavra) foi escolhido o melhor livro de culinária do Brasil pela Gourmand World Cookbook Awards, que premia livros de culinária do mundo todo. Foi uma surpresa enorme, porque, como eu própria anuncio no começo do livro, sempre fui uma negação como cozinheira!

    A Gourmand Awards partiu de uma lista de 10 mil livros sobre culinária publicados em 83 países em 2013. O prêmio é promovido pela Feira de Culinária de Paris, que se realiza anualmente, mas a finalíssima do concurso desta vez será em Beijing, na China, em maio de 2014.

     “Uns cheios, outros em vão” reúne as receitas culinárias da minha mãe, Maria Angélica, e também várias receitas de família, assim como muitas histórias que me vieram à lembrança quando eu estava organizando o livro. Eu considero esse livro uma espécie de contraponto de “O lugar escuro”, o livro sobre a doença de Alzheimer da minha mãe, porque traz apenas histórias luminosas, engraçadas.

     

  • Reestreia de ‘O lugar escuro’

    Reestreia de ‘O lugar escuro’

    Depois de uma curta, mas bem sucedida, temporada no início do ano, no Espaço Sesc, em Copacabana, a peça “O lugar escuro”, sobre a doença de Alzheimer, vai reestrear em breve. A peça, uma adaptação do livro homônimo que eu escrevi em 2007 (editora Objetiva), foi selecionada em dois editais de cultura. Pelo Programa de Fomento à Cultura, da Prefeitura do Rio, e pelo programa Caixa Cultural, um dos mais disputados do Brasil.

    Graças ao apoio da Prefeitura, “O lugar escuro” fará 12 apresentações em seis lonas e arenas culturais do Rio, em datas ainda a serem estabelecidas. Ainda não sabemos em que arenas ou lonas exatamente serão as apresentações, mas isso será divulgado em breve. Já o edital da Caixa Cultural prevê duas temporadas curtas nas cidades de Fortaleza (em novembro do ano que vem) e Curitiba (em fevereiro de 2015).

    “O lugar escuro”, com direção de André Paes Leme, conta com o talento de três grandes atrizes — Camilla Amado, Clarice Niskier e Laila Zaid –, que já estão acertando suas agendas para as novas temporadas. Por seu trabalho na peça, Camilla Amado foi indicada para o Prêmio Shell de Melhor Atriz em 2013.

  • A casa de Lady Dark

    Há muito tempo que aquela casa de telhado normando, cercada de vegetação e muros de pedra, me chamava atenção. Parecia uma casa particular, reminiscente dos tempos em que o entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas tinha mais casarões do que prédios, mas eu sabia muito bem que não, que ali na verdade funcionava um museu, um centro de cultura: a Fundação Eva Klabin. Só que, por um motivo ou por outro, ainda não tinha ido lá. Até que a hora chegou.

    Foi em grande estilo. Era noite de lua cheia e haveria um sarau nos jardins. Sob um friozinho outonal (nunca é inverno no Rio) e um céu limpo de julho, percorri o caminho de pedras que beira o lago de carpas. Em volta, uma vegetação densa, exuberante, exótica, na qual se percebe de imediato as mãos de um mestre: o jardim da casa, embora não tenha sido originalmente concebido por ele, recebeu muitas plantas por sugestão de Burle Marx, que era grande amigo de Eva Klabin. É um jardim pequeno, mas tem um efeito surpreendente, que é o de nos transportar de imediato para um ambiente de silêncio e calma. Alguma coisa na disposição daquelas plantas faz o barulho do trânsito, ali do lado, desaparecer como por encanto.

    Sob um toldo retrátil, mesinhas tinham sido espalhadas para receber os convidados, que assistiriam à apresentação do conjunto vocal Os Cariocas, cantando, com sua afinação impecável, os clássicos da bossa nova. Tudo perfeito. Mas da casa em si, que àquela hora da noite não estava aberta à visitação, pude apenas vislumbrar alguns ambientes através das vidraças. E decidi voltar durante o dia para conhecer o museu.

    É uma surpresa. Dentro daquela casa comparativamente modesta, desconhecida de muitos cariocas, há um acervo extraordinário, cobrindo mais de três mil anos de história da arte. É bastante variado, incluindo arte oriental, ocidental, greco-romana, egípcia. Dentro desta última há peças impressionantes, como um rosto de esquife da Oitava Dinastia. Em madeira incrustada de marfim e ébano, o rosto de olhos negros e expressivos parece querer nos comunicar alguma coisa, pensamento que emana do fundo dos tempos: a peça tem três mil e quinhentos anos.

    Um retrato feito por Tintoretto, a Madona atribuída inicialmente a Boticelli (mas que estudos posteriores mostraram pertencer a um de seus colaboradores, provavelmente Filippino Lippi), o cartão para tapeçaria de Giovanni Romanelli (de 1639) que cobre toda uma parede, quadros de Lasar Segall (inclusive um retrato de Eva Klabin quando criança) e de Camille Pissarro (único impressionista exposto) são alguns dos destaques do acervo. Há também belas esculturas, como as tânagras gregas, a Madona de marfim (França, século Quatorze) e a dramática Santa Teresa de Ávila em madeira (Áustria, século Dezoito). Em meio a um acervo tão clássico, o visitante se depara de repente com uma instalação de ampolas emanando luz, enquanto o ambiente é envolvido por vozes, que não se sabe bem de onde vêm. É o projeto Respiração, de Daniela Thomas e Lilian Zaremba, uma intervenção de arte contemporânea que certamente agradaria a Eva Klabin.

    Eva Klabin (1903-1991) era mulher sem preconceitos, que gostava de tudo em matéria de arte. A personalidade dela é um dos destaques do lugar, pois todos os cômodos da casa estão como eram quando ela vivia lá. Na introdução do livro “A coleção Eva Klabin”, o curador Marcio Doctors faz uma observação interessante: diz que, apesar de estar à beira da Lagoa, lugar tão luminoso, dentro da casa parece ser sempre noite. Perfeito para uma mulher que sempre foi notívaga (seus jantares às 3h da manhã ficaram famosos) e era apaixonada por literatura policial. Verdadeira Lady Dark.

     

    Matéria feita para a revista Serafina, da Folha de S. Paulo, em agosto de 2010.

  • O Baixo Bandeira

    “Baixo: área de intensa vida noturna, com grande concentração de bares e restaurantes, frequentada especialmente por jovens.”

    É o que está escrito no dicionário Houaiss, na vigésima sétima acepção da palavra, caracterizada como informal e oriunda do Rio. Por causa dos cariocas, “baixo” virou sinônimo de aglomeração festeira. Tudo começou com o Baixo Leblon (em contraposição à região acima da Ataulfo de Paiva, que é chamada de Alto Leblon), depois vieram os quiosques Baixo Bebê, Baixo Vovô e aí não parou mais. Agora, temos o Baixo Bandeira.

    Na melhor tradição do antigo Triângulo das Bermudas – a esquina do Baixo Leblon que juntava os restaurantes Real Astória (extinto), Diagonal e Pizzaria Guanabara (ainda firmes) –, três bares movimentam um recanto da rua Barão de Iguatemi, na Praça da Bandeira, região da Grande Tijuca geralmente só associada a calor e enchentes. Aconchego Carioca, Bar da Frente e Petit Paulette ficam no mesmo trecho da Iguatemi, ruazinha arborizada, cheia de casarões centenários e vilas com portões de ferro que parecem saídos das memórias de Nelson Rodrigues.

    Pode ser uma surpresa para quem acha que o Rio é só Zona Sul, mas a Praça da Bandeira sempre foi uma região aprazível, de casas de classe média. Ali junto à Barão de Iguatemi, na rua do Matoso, moraram nos anos 1950 três rapazes que um dia seriam muito conhecidos: Erasmo Carlos, Tim Maia e Jorge Benjor. A calma das ruazinhas permanece, mas no trecho dos três bares o burburinho é total. Estive lá num fim de tarde tranquilo, no meio da semana, mas tenho amigos que já ficaram mais de duas horas à espera de mesa nos dias de mais movimento.

    As três casas têm personalidades diferentes. Com paredes coloridas e redes penduradas no teto (sempre foi sua marca), o Aconchego Carioca é a mais sofisticada das três e funciona agora num belo casarão cor de salmão com toldos verdes, depois de ter ocupado o espaço menor, do outro lado da rua, que foi herdado pelo Bar da Frente (daí o nome). Aqui e ali, detalhes como os bonecos de Lampião e Maria Bonita na porta dos banheiros (limpíssimos) ou as bolachas de chope feitas de chita florida fazem a alegria de quem reconhece os méritos do chamado botequim pé-limpo. Dos três, o Petit Paulette é o que tem a decoração mais simples, mas é simpático e espaçoso. E os três restaurantes têm algo em comum: neles, a chamada baixa gastronomia carioca alcança níveis de altíssimo refinamento. O Baixo Bandeira é um lugar para quem gosta de comer e beber. Mas, como disse um amigo meu, “não é para um bebum qualquer, é para o bebum gourmet”.

    No Aconchego Carioca, só a carta de cervejas tem quase duzentas marcas (mais de cinquenta brasileiras), incluindo produtos da Inglaterra, Holanda, Alemanha, Austrália, Espanha, República Tcheca, Argentina e do Canadá. No Bar da Frente, a carta é menor, mas também respeitável. E no Petit Paulette, o forte são as cachaças mineiras (mais de vinte marcas diferentes).

    Mas é na comida que os três restaurantes se destacam. Só os nomes dos pratos já dão uma ideia do colorido gastronômico local. Além do fabuloso bolinho de feijoada – inventado pela proprietária Kátia Barbosa –, o Aconchego Carioca tem, por exemplo, o bolinho de feijão branco com rabada e a costela de porco com molho de goiabada; o Bar da Frente tem a lingüiça pinguça (flambada na cachaça), o arroz de puta rica (com carne seca, palmito, frango e ovos) e o risoto de rabada; o Petit Paulette tem a costelinha a passarinho com farofa de jiló e o croquelete, que são rolinhos de queijo e carne seca empanados em torresmo macerado. Mas são mesmo só exemplos. Tem muito mais. Só não dá para pensar na dieta.

     

    Matéria feita para a revista Serafina, da Folha de S. Paulo, em outubro de 2010.

     

     

  • Mais uma indicação

    Nossa querida Camilla Amado foi indicada para mais um prêmio de Melhor Atriz por seu papel na peça “O lugar escuro”, encenada no início do ano no Espaço Sesc, em Copacabana. Depois da indicação do Prêmio Shell, de enorme importância, agora foi a vez do Prêmio Cesgranrio, criado este ano, mas já considerado um prêmio de grande prestígio. Aqui vão mais alguns detalhes sobre o Prêmio Cesgranrio, assim como a lista de indicados em outras categorias.

    PRÊMIO CESGRANRIO DE TEATRO:

    O Centro Cultural Fundação Cesgranrio, criado pela Fundação Cesgranrio e que tem como objetivo promover e difundir a cultura brasileira, lançou no final de 2012 o mais novo Prêmio de Teatro do Rio de Janeiro – o Prêmio Cesgranrio de Teatro. O corpo de jurados é formado por Barbara Heliodora, Tânia Brandão, Macksen Luiz, Lionel Fischer, Daniel Shenker, Mirna Rubim e Carolina Virguez.  O Prêmio traz ainda uma inovação: entre as 12 categorias a ser premiadas, três delas serão dedicadas ao teatro musical (Melhor Ator em Teatro Musical, Melhor Atriz em Teatro Musical, Melhor Direção Musical).

    As demais categorias são: Melhor Direção, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Espetáculo, Melhor Cenografia, Melhor Iluminação, Melhor Figurino, Melhor Texto Nacional Inédito, Categoria Especial.

     Cada categoria contará com uma premiação de R$ 25.000,00. Para a primeira edição do prêmio, serão contempladas produções que estrearam entre outubro de 2012 e dezembro de 2013. A cerimônia de entrega dos prêmios está prevista para o início de 2014.

    Indicados:

     

    Melhor direção

    Sérgio Modena – A arte da comédia

    Walter Lima Junior – Repetition

    Charles Moeller – Como vencer na vida sem fazer força

     

    Melhor ator

    Ricardo Blat – A arte da comédia

    Thelmo Fernandes – A arte da comédia

     

    Melhor atriz

    Camilla Amado – O lugar escuro

    Ana Kfouri – Moi lui

    Clarice Derziê Luz – À beira do abismo me cresceram asas

     

    Melhor espetáculo

    A arte da comédia

    Como vencer na vida sem fazer força

    Moi Lui

     

    Melhor cenografia

    Bia Junqueira – As mulheres de Grey Gardens

    Rui Cortez – Moi Lui

    Rogério Falcão – Como vencer na vida sem fazer força

     

    Melhor iluminação

    Thomas Ribas – Moi Lui

    Renato Machado – Vestido de noiva

    Luiz Paulo Nenen – As mulheres de Grey Gardens

     

    Melhor figurino

    Tanara Schornardie – Rock in Rio

    Marcelo Pies – Como vencer na vida sem fazer força

    Rita Murtinho – Emily

     

    Melhor texto nacional inédito

    Julia Spadaccini – Aos domingos

    Rodrigo Nogueira – O teatro é uma mulher

     

    Categoria especial

    José Dias – lançamento do livro “Os teatros do Rio”

    Lídia Kosovski – curadoria da exposição em homenagem de Luiz Carlos “A mão livre”

     

    Melhor direção musical

    Délia Fischer – Rock in Rio

    João Bittencourt – Na bagunça do seu coração

    Paulo Nogueira – Como vencer na vida sem fazer força

     

    Melhor ator em musical

    Ícaro Silva – Rock in Rio

    Gregório Duvivier – Como vencer na vida sem fazer força

    Andre Loddi – Como vencer na vida sem fazer força

     

    Melhor atriz em musical

    Adriana Garambone – Como vencer na vida sem fazer força

    Suely Franco – As mulheres de Grey Gardens

    Lucinha Lins – Rock in Rio

     

  • Saiu!

    Saiu!

    A editora Objetiva acaba de lançar o livro “Heloisa Seixas — Crônicas para ler na escola“, reunindo  textos escritos por mim nos últimos anos. São 64 textos, em sua maioria “contos mínimos” publicados na revista Domingo do Jornal do Brasil (entre 1999 e 2006) e também crônicas feitas para a revista Seleções. Uma pré-seleção foi feita por mim e pela Daniela Duarte e passada à organizadora, Regina Zilberman, que os agrupou por assunto, fazendo um trabalho muito bom. Muita gente está elogiando a minha foto na capa do livro, mas a explicação é uma só: ela foi feita por um fotógrafo competentíssimo, meu querido Bruno Veiga. A foto foi feita em novembro do ano passado.

    Aqui, reproduzo uma das crônicas do livro. Chama-se “Ausência” e é um texto que fiz para a Domingo quando da morte brutal do jornalista Tim Lopes, assassinado por traficantes há dez anos. Foi publicada em junho de 2002, mês que era para ser só de festa, mês em que o Brasil acabaria ganhando a Copa do Mundo. Mas aconteceu aquela tragédia com Tim. Na década de 80, tínhamos trabalhado juntos no jornal O Globo.

    Esse texto tem uma peculiaridade: com a exceção do último parágrafo, ele foi feito inteiro sem o uso de adjetivos.

    Eis a crônica:

     

    Ausência

     

    Ela queria fazer uma história de festa, uma história de céus e flores, de verões sem fim, uma história de areias, onde houvesse sempre luz e brisa e cheiros. Queria uma história de amor, de recordações, uma história, quem sabe, de criança ou velho, que alegrasse a manhã. Ou queria talvez uma história de noites, de passos e arrepios, de inquietações, mas desde que fossem sobressaltos sem sangue, onde até nos fantasmas dormisse alguma beleza, um fascínio qualquer.

    Mas ali, diante da tela, sentia um vazio, uma paralisia, cuja razão não podia alcançar. Era um impasse. Alguma coisa faltava, alguma coisa se fora. Não sabia o que era. E não tinha idéia de por onde enveredar para descobrir.

    Cismou e cismou, sem sair do lugar. Afinal, baixou os olhos das telas para as mãos que repousavam no teclado. Sentiu a perplexidade daqueles dedos, cuja inércia a surpreendia. Levantou-se, foi até a janela. Olhou a paisagem, buscando a resposta. Fechou os olhos, sentiu o sol, mas não encontrava em lugar algum aquilo que – sabia, sabia sem vacilar – dela se perdera.

    Voltou. Caminhou até a cozinha, sempre buscando, sempre sentindo falta, mas ainda acreditando. Olhou em torno, observou a casa. Não havia nada fora do lugar, nada que significasse uma pista, que lhe desse as respostas. E, com um gesto de ombros, acabou por desistir.

    Mas de repente, quando já nem esperava, descobriu.

    Descobriu o que faltava e por que suas mãos se tinham partido. Descobriu o que era aquela ausência, que enchera com sua presença a sala, a vida, tudo ao redor.

    Ela estava escrevendo de uma forma como jamais fizera em sua vida: sem adjetivos. Eles tinham desaparecido.

    Não estavam mais com ela, para onde teriam ido? Ela os perdera, isso era um fato. Ficou olhando as letras, palavras e frases, vendo nelas apenas uma pergunta. Por que a tinham deixado assim, como se cruzasse agora um leito de rio sem água, só feito de pedras? E de repente lhe vieram à mente as palavras do poeta João Cabral, sua secura, seu quase rancor, falando do sertão. “Lá não se aprende a pedra: lá a pedra, uma pedra de nascença, entranha a alma”. A beleza de uma poesia que guarda em cada verso um deserto. Sem adjetivos – porque a alma do sertão, de tanto sofrer, há muito se enrijeceu.

    E ela compreendeu afinal o que acontecera: os adjetivos se tinham endurecido. Pois que era hora, sim, de usá-los, mas não aqueles a que ela se acostumara. Nada de azul , marinho, sensual, suave. Nada de vaporoso, anelado, gentil, completo. Era hora de outros. E ela abriu a porta para que corressem, conspurcando o papel como se fora terra, plantando seu horror nos campos onde não mais crescia a relva: cruel, hediondo, pavoroso, assassino, traficante, sanguinário, revoltante, corrupto, intolerável, torpe. Era a ferida que latejava – por trás da festa.

     

     

     

  • Prêmio Shell

    Prêmio Shell

    Camilla Amado foi indicada para o Prêmio Shell de Melhor Atriz por seu papel na peça “O lugar escuro”, encenada no início do ano no Espaço Sesc, em Copacabana. Eu, que como autora da peça tive a oportunidade de acompanhar todo o processo de desenvolvimento dos personagens durante os ensaios, sempre me impressionei com a profundidade e a erudição dessa grande atriz que é Camilla. A indicação não foi surpresa para nós, da equipe de “O lugar escuro”. A peça contou com um elenco fantástico, muito bem entrosado, e as outras duas atrizes, Clarice Niskier e Laila Zaid, também tiveram grandes interpretações (para não falar na sensibilidade do diretor André Paes Leme). Mas Camilla se destacou, não só por suas falas e expressões, mas pelos momentos de silêncio, os momentos em que estava a um canto do palco, quase na penumbra, e que eram de uma força raramente vista.

    “O lugar escuro” teve uma temporada curta, mas a produção da peça, a Tema Eventos, está se esforçando para conseguirmos reestrear ainda este ano, o que espero aconteça em breve. Aqui abaixo, reproduzo o texto que escrevi para o programa da peça, e que resume bem o que me levou a transpor meu livro para os palcos:

    Por trás do lugar escuro, fiapos de luz
    “Queria te agradecer, Heloisa. Eu também sentia raiva, mas não conseguia confessar.”

    Ouvi essa frase de uma mulher desconhecida, ao final de uma palestra dada por mim, poucos dias depois do lançamento do meu livro “O lugar escuro”, em 2007. Desde então, não parei mais de ouvir frases semelhantes, de pessoas que se emocionaram com o livro e se identificaram com seu tema: a experiência de conviver com alguém que tivesse a doença de Alzheimer. A raiva mencionada era a revolta diante da doença, que às vezes se dirige contra o próprio doente.

    Outra coisa que me chamou atenção foi que as pessoas pareciam se identificar com o livro mesmo que não tivessem alguém com Alzheimer na família. “Eu tinha ciúmes do meu irmão, mas nunca admiti”, me disse outro leitor. Foi quando percebi que “O lugar escuro” não era exatamente sobre a senilidade. Era também sobre relações familiares, ciúmes entre irmãos, rancores secretos, medo de enlouquecer, medo de morrer, essas coisas que fazem parte da nossa vida. Por isso, as pessoas se viam no livro.

    Foi essa identificação que me motivou a transportar “O lugar escuro” para o teatro. Espero que as palavras, quando materializadas no palco e transformadas em carne e osso, possam tocar ainda mais fundo nessas questões tão delicadas, que são as relações familiares. Esses lugares escuros que, felizmente, de uma forma ou de outra, sempre escondem algum fiapo de luz.

     

    * A foto que ilustra este post, mostrando Camilla Amado e Clarice Niskier em um dos momentos mais emocionantes da peça, é de Leonardo Aversa.

     

     

     

  • Morrer de prazer

    Morrer de prazer

    Este é o título do novo livro de Ruy Castro, que será lançado esta semana (11 de junho): “Morrer de Prazer – Crônicas da vida por um fio”. O livro sai pela editora Foz. São textos em que Ruy nos traz a sua visão original de mundo – a juventude nos anos 60 e o jogar-se à vida, a paixão pelas mulheres, pelo cinema, pelo sorvete, a bebida e a coragem para se livrar dela, sua fome de viver. O lançamento de “Morrer de prazer” em São Paulo vai ser no dia 11 de junho, terça-feira, a partir das 18:30, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista 2073). No Rio, o lançamento acontece na quinta-feira, dia 13, na Cultura do Cine Vitória (Senador Dantas 45), de dia (12:30), como eram os lançamentos antigamente. Também como acontecia antigamente, o lançamento vai ter uma “madrinha” e a escolhida foi uma grande leitora de Ruy Castro: Quitéria Chagas. E o livro terá ainda uma noite de autógrafos em Porto Alegre, no dia 28 de junho, quinta, a partir das 18:30, na Cultura do Bourbon Shopping (Av. Túlio de Rose, 80). A foto da contracapa, tirada por Jorge Bispo, mostra Ruy fingindo comer um cacto espinhoso, uma das muitas plantas dessa espécie que ele coleciona em seu terraço, no Leblon.