Autor: admin

  • A Fliporto foi um sucesso

    A Fliporto foi um sucesso

    Ruy Castro e eu participamos na semana passada da Fliporto, a feira de livros pernambucana, que antigamente era em Porto de Galinhas, mas agora acontece em Olinda. O homenageado deste ano era Nelson Rodrigues, cujo centenário está sendo comemorado, e nós dois participamos de uma mesa ao lado de Geneton de Moraes. Ficamos muito bem impressionados com a organização da festa e, principalmente, com o interesse das pessoas e seu nível de informação. Depois da palestra, participamos de uma noite de autógrafos e assinamos dezenas de livros, conversando com leitores muito atentos, cheios de observações interessantes a fazer. Foi um sucesso.

    Aproveitamos nossa ida a Pernambuco para visitar a Oficina de Francisco Brennand e o Instituto Ricardo Brennand, ambos em Recife. O primeiro, infelizmente, estava fechado por causa do feriado de quinta-feira, dia 15 de novembro, e só pudemos passear pelo lado de fora (já deu para ver que beleza que é). Mas o segundo, o Instituto Brennand, estava aberto e nós pudemos conhecer, por dentro e por fora, esse lugar único e sensacional, que merece ser reconhecido internacionalmente. A beleza das construções e dos jardins, a quantidade de obras de arte, a coleção de armas brancas, as tapeçarias, tudo é espetacular. No momento, está acontecendo uma exposição com as pinturas de Frans Post (Brennand tem a maior coleção particular do pintor holandês no mundo), que é uma beleza. Mas tem também Rugendas, Facchinetti, Botero, Antonio Parreiras, Eliseu Visconti, a lista não tem fim. A única coisa que infelizmente não tem é, na lojinha do museu, um catálogo do acervo permanente. Coisas do Brasil.

  • Cadernos de viagem

    Cadernos de viagem

    Remexendo nas estantes de uma livraria, meus olhos pousaram sobre dois livros pequenos, de capa dura — um azul, outro amarelo. Tinham uma delicadeza antiga, a começar pelo título ostentado por cada um: Caderno de viagem. E isso foi o que primeiro me atraiu. Quem, hoje em dia, faz cadernos de viagem? Eu faço. Faço pequenos diários sobre os lugares por onde passo e é uma delícia um dia, anos depois, ler as anotações. Mas o que estava ali diante de mim, naquela livraria, era coisa muito diversa.

    Eram dois cadernos de viagem (da editora Bei), um sobre o Rio, outro sobre Paraty, escritos e desenhados por Pablo de la Riestra, argentino radicado na Alemanha, desenhista e historiador de arquitetura (como li na última página). Como eu estava para ir à feira literária de Paraty — e guardava ainda na memória, de visitas anteriores, a beleza homogênea, quase perfeita, daquele casario colonial sob o sol ou sob a lua cheia, com a maré alta formando canais venezianos nas ruas –, decidi comprar os livros e levá-los na bagagem.

    Paraty, como todos sabem, é um deslumbramento a cada esquina. A harmonia do casario em seu centro histórico — que, por ser pequeno e plano, pode facilmente ser percorrido a pé — é perfeita. Eu já estivera lá muitas vezes, desde o tempo em que não havia estrada direito, no início dos anos 1970. Mas, desta vez, foi um prazer especial visitar suas ruas e olhar para os detalhes das casas, tendo nas mãos o livro de Pablo de la Riestra.

    Antes mesmo de chegar a Paraty, li o livro inteiro (são apenas 84 páginas) e me encantei com os detalhes históricos sobre a ocupação da região, alternando períodos de apogeu e decadência, desde o nascimento da pequena aldeia à beira do rio Perequê-Açu, tornada oficialmente uma vila com a construção de seu pelourinho, em 1660, até o novo ciclo de prosperidade e turismo vivido agora.

    Mas, como arquiteta vocacional que sou, nada me encantou mais no livro de Riestra do que seus desenhos e explicações sobre os detalhes arquitetônicos do casario. Foi assim que fiquei conhecendo os diferentes tipos de telhados, em duas, três ou quatro águas, com ou sem camarinha, com ou sem água-furtada, essa nomenclatura que me soa tão portuguesa, tão romântica, tão ancestral. Foi também através de seus desenhos e explicações que percebi os diferentes balcões, portais e janelas e o significado dos desenhos nas quinas dos casarões — as chamadas pilastras. E me deparei, encantada, com nomes e expressões como cornija, arquitrave, tondo, entablamento, beiral, platibanda, cimalha, verga, florões. E até mesmo uma “unha chinesa”, vejam só, que é o nome que se dá àquela telha que fica na pontinha do telhado, meio virada para cima, e que dá a muitas casas coloniais um toque de pagode oriental.

    Ao chegar à cidade, saí com meu livro nas mãos. Pablo de la Riestra deu-se ao trabalho de desenhar, com detalhismo e precisão incríveis, quarteirões inteiros de Paraty, que são reproduzidos em páginas triplas, desdobráveis. Lá estão também as principais igrejas do centro histórico — Nossa Senhora dos Remédios, Nossa Senhora das Dores, Santa Rita (sempre nos cartões postais) e a do Rosário. E ainda casarões como aquele onde hoje funciona a Casa de Cultura e o que pertence à Família Real (detalhe que Riestra teve a delicadeza de ocultar, referindo-se à casa apenas como “Sobrado da rua Fresca”), em cujos jardins dom João de Orleans de Bragança costuma dar recepções.

    Mas talvez o que mais me encantou foi a reprodução daquela que é considerada por muitos a mais bela esquina do centro histórico de Paraty: o ponto em que a rua da Praia encontra a rua da Ferraria. Nessa esquina, há dois sobrados, um diante do outro, e é difícil dizer qual o mais bonito. O livro traz desenhos dos dois, com explicações interessantíssimas sobre seus detalhes. Com a publicação nas mãos, podemos observar os desenhos geométricos das pilastras (que alguns interpretam como sendo símbolos da maçonaria — mas Riestra não acredita nisso), as lâmpadas com adornos em forma de abacaxi, os balcões de ferro trabalhado e, no caso do casarão que fica do lado oeste, os fabulosos canos em forma de corneta, para escoar a água da chuva. E foi através de Riestra que fiquei sabendo que esses dispositivos para escoamento d’água sempre são chamados de “gárgulas”, não importa o formato que tenham. Eu achava que só recebiam esse nome quando tinham cara de monstros, como aqueles da Catedral de Notre Dame, em Paris, ou do edifício da Chrysler, em Nova York.

    E assim, com meu livrinho de capa azul nas mãos, o Caderno de viagem que em Paraty foi meu companheiro inseparável, nunca a linda cidadezinha fluminense me pareceu tão atraente, tão interessante. Agora, de volta ao Rio, já estou lendo o outro livro, o de capa amarela: nele, Pablo de la Riestra desenha e detalha as principais construções coloniais do Centro da cidade, como o Mosteiro de São Bento, o Paço Imperial, a Casa França-Brasil, a Candelária, o Convento de Santo Antônio, os Arcos, e também algumas de estilo eclético ou clássico, como o Municipal, o Albamar e a Biblioteca Nacional. Nele, já me deparei com um glossário com palavras lindas, como mísula, mainel, contraforte, coruchéu e tímpano do frontão. Maravilha! Em breve, sairei em campo com meu livro nas mãos. Afinal, apesar de nascida e crescida aqui, sempre gostei de fazer turismo no Rio.

     

    Artigo do último número da revista Florense, disponível para assinantes e nas Lojas de Móveis Florense.

  • Aula de história no morro

    Aula de história no morro

    Conheço cariocas da gema que jamais foram ao Pão de Açúcar e ao Corcovado. Não chego a tanto, mas trazia no meu currículo uma falha: nunca ter subido o morro da Conceição. Essa lacuna foi preenchida outro dia com a ajuda de dois amigos, Manoel Mattos Filho, da Livraria Elizart (simpaticíssimo sebo da avenida Marechal Floriano), e Belmiro Fernandes, professor e pesquisador que conhece a história de cada uma das pedras seculares da Conceição. Foi uma aula de Rio Antigo.

    A chuvinha fina que caía na hora do passeio não nos intimidou. Nem mesmo quando, olhando as ladeiras íngremes, cujo calçamento de pedra brilhava de umidade, ouvimos Belmiro contar, rindo, que a Rua do Escorrega não tinha esse nome em vão e que antes se chamava Ladeira do Quebra-bunda. Mas ele garantiu: era só pisar com cuidado que ninguém ia escorregar. Segundo Belmiro, antigamente era muito pior, porque as lavadeiras botavam as roupas para quarar nas pedras do calçamento e isso as tornava um verdadeiro sabão. E assim, sem medo de quebrar o que quer que fosse, lá fomos nós, ladeira acima, na companhia dos nossos mestres.

    O morro da Conceição fica no bairro da Saúde, na região portuária que vai ser revitalizada. Dos quatro morros ocupados durante a fundação da cidade, restam apenas dois, o da Conceição e o de São Bento, onde fica o Mosteiro (os outros dois, do Castelo e de Santo Antônio, foram arrasados). Daí a importância de conhecer esse local histórico. Passear por ele, um emaranhado de vielas e escadarias (inclusive aquela escavada na rocha, que vai dar lá embaixo, a Pedra do Sal), é uma viagem não só no tempo, mas também no espaço. Temos a sensação de recuar séculos, só que não no Rio, mas em uma cidadezinha portuguesa. Os nomes pitorescos das ruas contribuem para reforçar a sensação: Beco das Escadinhas da Conceição, Rua do Escorrega, Rua do Jogo da Bola (não se refere a futebol, mas a uma espécie de bocha que se jogava no Rio no século 17), Ladeira do João Homem, Travessa do Sereno. Sem falar na paisagem, cheia de casinhas com portais de pedra, fachadas de azulejos e beirais de louça (embora muitas estejam precisando de restauração urgente).

    No morro da Conceição, todo mundo se conhece e o nível de violência é zero, até porque a região é ocupada pelo Exército (no alto do morro ficam a Fortaleza da Conceição, o Museu Cartográfico e o Observatório do Valongo). Tivemos a sorte de entrar no forte e no museu (em geral, é preciso agendar), além de visitar vários ateliês do bairro, porque naquele dia se realizava o Projeto Mauá, semelhante ao Santa Teresa de Portas Abertas. O Museu Cartográfico fica no antigo Palácio Episcopal, construção belíssima inaugurada em 1674, no lugar da ainda mais velha capelinha de Nossa Senhora da Conceição, que deu nome ao morro (erguida em 1590 por um casal de portugueses devotos). O forte, que é de 1743, também está cheio de recantos pitorescos: caminhos de pedra, casamatas com vista espetacular para a baía e a masmorra onde ficaram presos três inconfidentes, inclusive Tomás Antônio Gonzaga. Há ainda, dentro do forte, o que se acredita ser um resquício da muralha original que protegeu a cidade em sua fundação, em 1565, mas o local ainda não está aberto a visitação.

    Tudo isso meus amigos me contaram. Enfim, um grande passeio e, como eu disse, uma aula de história. Que acabou num cafezinho passado na hora, na própria casa do Belmiro (ele mora no morro da Conceição desde criança). Que tal?

     

     

    Matéria feita em 2010 para a revista Serafina, da Folha de S. Paulo. Hoje, dedico o texto ao querido Manel, que morreu no início do ano.

     

  • Lúcio Cardoso – cem anos

    Aproveitei o centenário de Lúcio Cardoso, celebrado mês passado, para reler seu “Diário completo”. A edição que tenho é antiga, da José Olympio, comprada no querido sebo Berinjela, da avenida Rio Branco. Meu livro está cheio de trechos sublinhados. Um deles é este  aqui:

    “Envelheço como as tempestades — encaminhando-me sem ressentimento para as cores alvas da bonança. Perco os meus relâmpagos e as minhas violências — entrego-me à luz que nasce, humilde e de cabeça baixa. Mas dos céus revoltos por onde andei, conservo o segredo de uma melodia que não é feita somente de paz, mas que na sua última aquiescência, relembra ainda o amontoado negro das paisagens devastadas.”

     

     

  • Janela carioca

    Janela carioca

    A noite já quase caía e eu ia passando pela praia de Ipanema em direção a Copacabana quando o motorista de táxi que me levava soltou uma exclamação. Inclinei-me para frente, sem entender bem o que ele dizia, só tendo percebido que a frase acabara com a expressão “tudo dourado”. Já ia pedir que ele repetisse o comentário quando meus olhos viram, através do vidro da frente do carro, a imagem à qual sem dúvida o rapaz se referia. Na altura do Castelinho e indo até a ponta do Arpoador, os prédios, a areia, a pedra, tudo estava cor de ouro – e brilhava, brilhava como um enfeite de Natal.

    O motorista diminuiu a marcha, ou talvez tenha sido um sinal de trânsito que, num ajuste perfeito e providencial, acabava de fechar. O fato é que ficamos os dois ali, em silêncio, olhando, observando o cenário tão conhecido, mas que naquele instante ganhava uma tonalidade incomum.

    Quando o carro recomeçou a andar, olhei para trás. O sol, que já quase se punha atrás do morro do Vidigal, surgira de repente – depois de tantos dias de chuva – e ao vencer as nuvens se mostrava como uma bola de fogo, cujos raios se despejavam diretamente sobre a ponta do Arpoador, formando à nossa frente aquela pequena cidade de ouro, como se saída de um conto das mil e uma noites.

    Mas não foi só isso. Havia naquele fim de tarde algo mais.

    Mal me recuperara da surpresa e olhei na direção do mar. E ali, muito além das ilhas, emergindo das brumas que suavizavam o horizonte, estava o pé de um arco-íris, de um colorido perfeito, subindo e desaparecendo no céu lilás do começo de noite, antes de completar o arco. Há muito tempo não via um arco-íris tão nítido, de cores tão bonitas. Mostrei-o ao motorista de táxi que, como eu, parecia não saber mais o que dizer.

    Entramos pela Rua Francisco Otaviano, com pena de deixar aquela paisagem para trás. Mas quando desembocamos no Posto Seis, o arco-íris, fugidio e mágico como qualquer arco-íris, estava lá, só que agora inteiro, surgindo de trás do Marimbás, cobrindo com seu arco toda a curva do mar de Copacabana e indo desaparecer além do Morro do Leme, lá pelas bandas do Pão de Açúcar. Suas cores eram menos nítidas, talvez porque a noite caía depressa, ou porque em Copacabana anoitece primeiro. Mas, de toda forma, era lindo.

    E eu me deixei recostar no banco do carro, pensando no fascínio desta cidade, capaz às vezes de nos agredir tanto, com violência, sujeira, miséria, e ao mesmo tempo nos dar tanta beleza. E guardei nas retinas aquelas visões – todas as cores do arco-íris, o pôr-do-sol mais dourado – como se fossem presentes dela para mim.

     

     

    A imagem da Lagoa que ilustra o site é um quadro a óleo de Leonel Brayner, que está no nosso livro Rio, pena e pincel. O texto acima também está no livro.

  • O lugar escuro

    O lugar escuro

    Em 2011, adaptei para o teatro meu livro sobre o Alzheimer, “O lugar escuro”. A peça teve leitura dramática no Centro Cultural Midrash, no Rio, com direção de João Fonseca e a participação de Fernanda Montenegro, Clarice Niskier e Laila Zaid. Agora, a peça foi selecionada no edital da Eletrobras e será montada no início do ano que vem. “O lugar escuro” tem estreia marcada para janeiro de 2013 no Teatro do SESC de Copacabana, com as atrizes Camilla Amado, Clarice Niskier e Laila Zaid, sob a direção de André Paes Leme. Os ensaios começam agora em outubro.

    O espetáculo será no teatro principal do SESC, de arena, e as atrizes ficarão em cena o tempo todo. A cenografia ficará a cargo de Carlos Alberto Nunes, a iluminação será de Renato Machado e o figurino de Kika Lopes. A produção do evento é da Tema Produções Artísticas, de Maria Angela e Amanda Menezes.

  • Duas paixões

    Duas paixões

    Elas entraram em minha vida assim, de repente. Quando abri os olhos, tinham chegado. As duas, ao mesmo tempo – sem aviso. Por um curioso acaso (para quem acredita no acaso), as duas vieram juntas, no mesmo ano, na mesma época. Começava a última década do século vinte e eu estava às portas de fazer 40 anos. Chegaram e mudaram tudo – minha vida, minha casa, meu mundo. Seus efeitos sobre mim foram igualmente definitivos, avassaladores, absolutos.

    Você pensa que sabe do que estou falando, não é?

    Duas gatas, deve ter imaginado. Mas não, não é bem isso. Bem, digamos que é isso, sim – mas apenas em parte. São duas coisas. Uma delas – somente uma – é de fato uma gata.

    Ela, a gata, chegou em 1991. Recebeu o nome de Pia. Foi no outono que nasceu, embora só tenha vindo para perto de mim em julho, mês do meu aniversário. Chegou como uma bolinha de pêlo, preta e branca, com as manchas formando desenhos perfeitos, simétricos, e um rosto curto onde brilhavam olhos amarelos, sempre muito abertos. Claro que me encantou logo. É difícil para uma pessoa não se envolver por um animalzinho ainda bebê, com sua vivacidade e esperteza, as corridas pela casa, as brincadeiras de caçar a própria cauda. Mas isso foi apenas o começo. Só passado algum tempo foi que percebi a verdadeira dimensão, o real significado de ter um gato em minha vida. E esse despertar se deu através de uma quase tragédia.

    Era um fim de tarde de verão e as janelas estavam entreabertas, embora eu – morando em andar alto – tivesse o cuidado de mantê-las fechadas a maior parte do tempo, temendo algum acidente com minha gatinha. Fazia isso apesar de minha pouca experiência no assunto, no fundo achando que estava sendo exagerada e que ela não corria o risco de cair dali. Mas naquele dia foi justamente o que aconteceu.

    De repente, a gatinha já não estava em lugar algum. Procuramos e procuramos, por toda a casa – e nada. Descemos as escadas, já com o coração apertado, enquanto a noite caía. Nem sinal. Perguntamos ao porteiro, vasculhamos os jardins do prédio, rezando para não encontrar nada, pois sabíamos que não havia esperança de ver ali mais do que um corpo inerte. Mas não havia. Subimos. Ligamos, pelo interfone, para todos os apartamentos do prédio, perguntando às pessoas se não tinham visto a gatinha, na esperança de que, numa distração nossa, ela tivesse escapulido pela porta. Nada.

    Foi uma noite triste. Acordei cedo no dia seguinte para trabalhar e, ao sair, deixei na portaria uma fotografia da gatinha desaparecida. Menos de meia hora depois, uma vizinha, do segundo andar, telefonava: estava vendo uma gatinha, parecida com a da foto, num galho de árvore, a poucos metros de sua janela. Minha mãe foi até lá, torcendo – mas no fundo achando que era algum engano. Mas não era. Lá estava nossa gata, os olhos amarelos mais arregalados do que nunca, deitada sobre um galho de árvore com uma expressão muito assustada. Só então o porteiro veio nos dizer que ouvira o barulho da queda, mas não tivera coragem de nos dizer. Como não acháramos nada no jardim, ele pensara ter-se enganado. Mas não. Era verdade. Ela caíra mesmo. Com seu corpinho leve, descera flanando por nada menos que quatorze andares – quatorze! – e caíra por entre as folhas da árvore, que amortecera a queda. Em choque, ficara agarrada ao galho, sem saber o que fazer – para ser descoberta apenas no dia seguinte, mais de doze horas depois. Levada ao veterinário, descobrimos que só tinha quebrado uma unha. Mais nada. Como podia ser? Como podia haver um animal tão forte, um animal que, sendo apenas um filhote, fosse tão obstinado e especial a ponto de sobreviver a uma queda daquelas e a permanecer imóvel por uma noite inteira, à espera de ser resgatado? Parecia um milagre.

    E foi assim, através desse milagre, que eu descobri com o que estava lidando. Não com um simples animal, mas com um ser de uma raça especial – mágica, desconhecida e bela.

    Anos depois, eu me pergunto: e se ela tivesse morrido, será que eu voltaria a ter gatos? Ou será que, traumatizada, teria encerrado ali minha convivência com os felinos? Não sei. Mas gosto de pensar que foi aquela demonstração de força, de poder quase sobrenatural de uma gatinha que era pouco mais que um bebê, que me fez começar a entender realmente o mundo dos gatos – para nunca mais me afastar dele.

    Mas – e a outra coisa? A outra coisa, você já se pergunta, de que falei no início e que também entrou em minha vida na mesma época que a gata? O que será?

    Vou contar. A outra coisa, aquilo que justifica o título, também chegou em 1991. Na mesma época do ano. E sem dúvida também trouxe consigo um enorme poder transformador. Engraçado que eu só tenha me dado conta da coincidência agora, tantos anos depois. Mas foi isso mesmo. Ela, essa outra paixão, me deu a sensação de conhecer de repente o sentido da vida, o motivo de ter nascido. Ela, essa outra paixão – igualmente forte e eterna – é a literatura. Porque foi naquele mesmo ano – o ano da gata – que eu comecei a escrever.