Categoria: Novos Contos Mínimos

  • Outono

    Outono

    Finalmente parece que o outono chegou, pensou a mulher enquanto olhava para a vitrine. Ainda fazia calor, é verdade. Um calor úmido, pegajoso. Mas já não sufocava como antes, como durante todos aqueles meses de secura e brasa, em que as pessoas já clamavam aos céus por uma enxurrada, por piores que fossem as conseqüências. Sim, o outono estava ali, acima de tudo naquela loja, cuja vitrine apreciava agora, com seus blazers elegantes, suas botas, seus tons de ferrugem e o chão coalhado de folhas secas de mentira. Estava bonito. Era uma loja de rua. A mulher só gostava de lojas de rua, nunca de shoppings, porque sentia como se só na rua vivesse a vida real. Para ela, estar dentro de um shopping era como estar num universo paralelo, virtual – onde todas as cidades de todos os países do mundo são iguais. E mesmo aqueles a céu aberto, que pretendiam parecer quarteirões de verdade, lhe pareciam semelhantes a cenários de televisão.

    Pensou em comprar uma das malhas que estavam na vitrine, aquela blusa marinho, de gola rolê, muito parecida com uma que tivera nos anos 70. Mas acabou desistindo. Tinha uma preguiça horrível de comprar roupa. Melhor seria sentar-se em frente à praça, logo ali ao lado, para tomar um café. Foi.

    Sentou-se numa das mesinhas de ferro do lado de fora e pediu café com creme, uma extravagância que raramente se permitia. A garçonete trouxe e ela bebeu bem devagar, olhando para as folhas filigranadas das árvores da praça. Alguns galhos já estavam ralos e havia folhas amareladas espalhadas pelo chão. Poucas, é verdade. Mas isso não tinha importância. Com a tarde quase terminando, as árvores estavam banhadas por um sol fraco, enviezado, que mais parecia um sol europeu. Finalmente, parece que o outono chegou, convenceu-se.

    Depois do café, a mulher decidiu ir caminhando para casa, para aproveitar a brisa da noite que começava a cair. Ao fim da caminhada, quando atravessou o canal – com passos rápidos, pois ali era perigoso à noite – sentiu o vento do mar chegando e chegou a ter um arrepio de frio. Achou ótimo. Ah, era o outono, sem dúvida.

    Chegou em casa e ainda espiou da janela, para ver os últimos sinais de luz no céu, acima dos telhados, a luminosidade agonizante do crepúsculo, com seus matizes lilases. Mas depois virou-se e deu com a própria imagem no espelho sobre a cômoda, ao lado do abajur, que acendera ao entrar. E aproximou-se.

    Olhou a própria imagem, detidamente, debruçando-se sobre o móvel embaixo do espelho para se ver melhor. E tocou com a ponta dos dedos os cantos dos olhos, onde, mesmo à meia-luz, as rugas já eram visíveis. E pensou, com um suspiro: finalmente parece que o outono chegou.

  • Sonho

    Vestida de colombina – era como minha mãe estava no sonho. Uma colombina tardia, o carnaval já longe, mas foi assim que ela me surgiu. Com aquela colombina de um ombro só, o busto apertado por penses, a cintura justa que se abria de repente numa saia muito ampla. Uma colombina vermelha e branca que conheci muito bem, em que os vermelhos da saia eram tiras soltas, em ponta, terminando em pompons.

    Há anos não pensava nela, que conheci primeiro numa fotografia. Há anos, também, não pensava em pompons. Mas agora lembro de como fazê-los, foi minha mãe quem me ensinou. Lembro de suas mãos ágeis segurando a tesoura proibida, aquela que as crianças não podiam tocar para que não ficasse cega – a tesoura de costura. Lembro de minha mãe com ela nas mãos, cortando o pedaço de papelão depois de marcá-lo com um copo. A roda recebia então um novo corte, interno, também em círculo, e o que restava era um anel de papelão, no qual devíamos enrolar a lã, enrolar e enrolar e enrolar. Quando tínhamos pronto aquele novelo bem apertado, mamãe tomava-o de nossas mãos e fazia alguma coisa com a tesoura, alguma coisa que nunca conseguíamos discernir direito. Eram cortes rápidos, nas pontas da lã, e de repente, num passe de mágica, lá estava o pompom – pronto.

    Terá sido ela própria quem fez os pompons da colombina?

    Há anos não a via em sonhos, aquela fantasia, já nem lembrava que um dia existira, sua saia rodada, o corpete de um ombro só, o vermelho e o branco, as anáguas. Por onde estariam, em que misterioso baú se tinham trancado sem que eu me desse conta? E por que minha mãe me surgiu vestida assim, no meio da noite? O rosto pintado, os olhos com traços, o batom vivo. O cabelo arrumado em ondas largas, a pinta num canto da boca. As pernas bem-feitas, saindo de sob a saia, os pés calçados em sapatilhas. Seriam vermelhas, também, como os pompons?

    Não sei.

    Mas sei, sim, que aquela colombina me pertenceu. Um dia, minha mãe, de mãos sempre hábeis, tirou-a da caixa e anunciou que seria minha fantasia naquele carnaval. Eu não gostei. Queria alguma coisa nova, alguma coisa só minha, uma bailarina cor-de-rosa, toda de lantejoulas, mas ela insistiu. E quando me olhei no espelho, na primeira prova, o que vi? A colombina vermelha e branca, a colombina de um ombro só, tinha murchado em torno do meu corpo de menina. O corpete perdera as penses, já não havia seios que as justificassem. A saia ficara sem roda e tinha sobrado pouco espaço para as tiras vermelhas, que escorriam juntas, os pompons quase se tocando. Faltava o recheio que eu vira na fotografia, de um corpo de mulher. Lembro que chorei – de raiva e inveja.

    E voltei a chorar hoje, revendo em pensamento a colombina tardia, a colombina vermelha e branca dos pompons, costurada com esse tecido etéreo e impalpável – mistério tão próximo da morte – que é o tecido dos sonhos.

  • Diário alienígena

    Continuo sem entender muito bem. Hoje passou por mim um ser de sexo indefinido, que me deixou ainda mais confuso. Seu aspecto era muito estranho. Tinha um rosto delicado, um nariz pequeno, os lábios bem delineados, mas não muito grossos, formando, no conjunto, o que aqui se chama de mulher bonita. Os cabelos, muito escuros e lisos, eram também femininos, compridos, bem tratados e lustrosos. Mas, assim que se fechava em ponta a linha do queixo, dava-se a transformação: o pescoço, largo e musculoso, era estriado de veias, parecendo inflado a ponto de rebentar. O tronco, imenso e forte, abria-se para os lados em braços espetaculares, rígidos, com gigantescos nós de músculos sobrepondo-se uns aos outros e formando uma curva um pouco semelhante à que encontramos em certos primatas. As pernas eram igualmente brutais, levemente arqueadas devido ao volume dos músculos, dando ao andar uma cadência que em tudo se parecia com o dos seres do outro sexo.

    Já havia visto algumas criaturas um tanto indefinidas por aqui, mas esta me pareceu um exemplo extremo. Não pude classificá-la.

    Aliás, tenho tido grande dificuldade para fazer as classificações. Tudo me parece de difícil compreensão. Esse pequeno território que nos serve de amostragem traz incoerências que me deixam atônito. Para dizer a verdade, as contradições são muitas, infinitas, não tendo havido ainda um registro lógico capaz de explicar tantas coisas de que já lhe falei, como as discrepâncias na ocupação do espaço, para dar apenas um exemplo.

    Mas a verdade é que, de todos os absurdos a que tenho assistido nesse primeiro contato, nenhum me deixou mais espantado do que o seguinte: como civilização razoavelmente evoluída em termos tecnológicos, eles parecem ter centrado boa parte de sua pesquisa científica na busca do conforto. Inventaram pequenos aparelhos, bastante engenhosos, que lhes facilitam a vida, tornando-os cada vez mais ociosos e aos quais dão nomes variados, como automóveis, computadores, celulares, controle-remoto etc. Tudo parece ter sido inventado com um único objetivo: o de levá-los a fazer menos esforço físico. Pois muito bem: você acredita que, nas chamadas horas de lazer, eles correm pelas ruas feito loucos, de um lado para o outro, suando em bicas, sem parecer querer chegar a lugar algum? E mais: concentram-se também em locais que chamam de academias e lá se dedicam, sozinhos ou em grupos, às tarefas mais extenuantes e inúteis, muitas vezes atados a aparelhos de tortura, os quais parecem buscar por livre vontade, e não forçados, como já vimos acontecer com outros povos bárbaros. Chegam a caminhar sobre esteiras, sem sair do lugar! Não lhe parece o maior dos absurdos?

    Bem, continuarei observando e tentando entender. Espero estar de volta em breve, na paz de nossa querida Andrômeda – e longe deste planeta louco.

  • Apenas um menino

    Desde pequeno, ele gostava de colecionar coisas. Guardava, dentro de caixas e pastas, recortes de jornais sobre os mais diversos assuntos, com a sensação de que um dia precisaria pesquisar as informações ali armazenadas. Tinha também especial prazer em observar o comportamento dos mais velhos, dos muito velhos. Ainda muito criança, costumava sentar-se à porta da loja do pai e ali ficava, horas e horas, conversando com os fregueses que apareciam, todos homens feitos. Mas seu interesse maior recaía sobre um amigo da família, um senhor de 80 anos a quem chamava de avô. Dele, ouvia histórias sobre o Rio Antigo, sobre os fascínios e as malandragens da Lapa clássica, as festas nos salões e nas gafieiras, os primeiros banhos de mar nas praias quase desertas de Copacabana e Ipanema.

    Adolescente, começou a colecionar objetos. Livros, discos, fotografias, folhetos. Tinha um faro instintivo para o valor das coisas antigas, um respeito visceral pelas lembranças do passado – sem que jamais tivesse sido ensinado a agir assim. Colecionava coisas antigas como se fossem brinquedos.

    Adulto, tornou-se um pesquisador. Era capaz de ficar horas e horas dentro de uma biblioteca, um sebo ou um museu, ou mesmo passeando pelas ruas de casario antigo, no Centro da cidade, onde até o arredondado das pedras do calçamento o deixava comovido, por saber que por ali haviam pisado milhões de pés que não existiam mais. Assim como acontecera quando era criança, seus melhores amigos continuaram sendo homens mais velhos, com quem conversava de igual para igual, com os quais trocava experiências e ideias. E a quem ajudava, sempre que dele precisavam. Tinha um respeito enorme por aquelas pessoas que a sociedade parecia desprezar. Os velhos eram, para ele, a personificação da memória cultural e estética do homem. Deviam ser cultuados – nunca esquecidos.

    E assim os anos se passaram. Até que ele próprio começou a envelhecer. Mas apenas externamente. Por paradoxal que fosse, sua convivência – pela vida inteira – com coisas e pessoas do passado parecia deixá-lo cada vez mais jovem, cada vez mais menino. Tornou a fazer coleções que fizera na infância – lápis, de caixas de fósforos, de álbuns de figurinhas –, redescobrindo prazeres que estavam esquecidos.

    E um dia viu, numa fotografia, uma placa pregada na porta do quarto de Frank Sinatra (então, já muito velho), que virou seu lema definitivo. Dizia: “Aquele que morrer com mais brinquedos, ganha”.

     


  • Papel em branco

    No mistério do papel em branco – da tela em branco – com o qual se depara pela primeira vez, a mulher reflete. Pensa no fluxo primeiro, o jorro, a sangria que lhe aflorou à pele, o veio de ouro e prata, a veia de sangue e dor, tudo o que brotou da terra e da carne e se transmutou em palavras. Um dia, um menininho holandês ia passando junto a um dique e encontrou um pequeno orifício. Achou que precisava fazer alguma coisa. Se colocasse ali o dedo, evitaria que o buraco se alargasse mais e o dique viesse abaixo. Ficou quieto, esperando, até que alguém passasse. Virou herói. Com ela, com a mulher, se dera o contrário: um dia, sem saber por quê, ela tirara o dedo e deixara correr a enxurrada, irrefreável. Palavras, palavras, letras, um amontoado de letras.

    E agora aquele silêncio enorme.

    A mulher passeia de um lado a outro da sala, como uma fera. Letras, letras. De repente seus olhos se prendem à lombada de um livro. Um livro entre os muitos livros de sua estante pessoal, aquela onde estão os títulos que lhe são mais caros, que fazem parte de sua vida e de sua história. A lombada que lhe chamou atenção contém uma palavra que agora há pouco lhe rondava a cabeça: “letra”.

    “A letra escarlate”, de Nathaniel Hawthorne.

    Por isso, só por isso, tira o livro da estante e começa a folheá-lo, até parar diante de um trecho sublinhado:

    “O brilho mortiço do carvão em brasa é essencial para produzir um efeito que tentarei descrever. Ele lança por toda a sala uma leve tintura, de um vermelho pálido que se derrama por paredes e teto, cintilando também no reflexo da mobília polida. Essa luminosidade morna se funde à espiritualidade fria dos raios de luar, assim dando vida, coração e sensibilidades de uma ternura humana às formas que parecem surgir à nossa volta. Ela converte as imagens de gelo em homens e mulheres. Olhando através do espelho – perscrutando suas profundezas assombradas –, vislumbramos o brilho bruxuleante do carvão que se extingue e os raios de luar sobre o assoalho, com uma repetição de cintilação e sombra que está um grau além da realidade, quase tocando a imaginação. Se então, numa hora como essa, e tendo tal cena diante de si, um homem sentado sozinho não tiver sonhos estranhos, nem puder transmutá-los de forma a parecerem reais – então ele não deve jamais tentar escrever romances.”

    Palavras, letras – encanto. E a mulher se sente de repente cheia de coragem, assaltada por uma vontade enorme de escrever.

  • Sonho assombrado

    Sonho assombrado

    Primeiro, eu o conheci através de um livro. Ia passeando por entre as estantes de uma livraria quando dei com dois exemplares colocados de pé, lado a lado, um mostrando a capa, o outro a contracapa. E foi justamente esta última que me fez parar. Porque ali estava, diante de mim, o rosto da boneca de biscuit da minha infância, virado de cabeça para baixo, olhando-me com seus olhos muito abertos – que pareciam mortos. Aqueles olhos de cristal, as pestanas pintadas na louça, a boca vermelha entreaberta deixando entrever os dentes pequeninos (que sempre me pareceram feitos da mesma substância dos botões). Tudo ali me fez voltar no tempo, enchendo meu coração de horror e fascínio. Só depois de alguns segundos, tirei o livro da estante e comecei a folheá-lo. E descobri um universo inteiro, feito de retalhos, de restos, reflexo distorcido da nossa própria vida, do cotidiano pequeno e insignificante pelo qual tanto lutamos – inutilmente.

    Estou falando de Farnese de Andrade, esse grande artista da estranheza.

    Pois ele agora me reapareceu, tornando a me assombrar. Sonhei com ele. Ou melhor, sonhei com seu mundo feito de pedaços, de fragmentos, de bonecas de olhos mortos. Um lugar lindo e assustador. Estranho que no sonho, como na vida, fosse Carnaval. Um Carnaval feito só de clóvis, de mascarados terríveis, os mesmos que sempre me horrorizaram.

    Farnese de Andrade. A estranheza do nome se estende à pessoa, que afinal conheci em um documentário sobre ele, tempos depois de ter visto o livro. O filme me mostrou seu rosto e sua voz, a personalidade deslocada. No filme, Farnese confessa que gosta de gatos, mas não de gente e que jamais se imaginaria tendo filhos, o que me fez pensar imediatamente em Machado de Assis: Não transmiti a nenhuma criatura o legado da minha miséria.

    Farnese está morto e, como Brás Cubas, não deixou descendentes. Mas deixou, sim, como legado suas obras ímpares, únicas, composições reunindo gamelas, armários, cadeiras, caixas, vidros, mas reunindo sobretudo restos, memórias, fragmentos de vidas. São obras que nos deixam marcas. E fazem sonhar.

    Em meio a conchas, imagens de santos e pedaços de ossos, cada boneca de olhar perdido ou corpo calcinado, cada rosto que nos mira dos retratos desbotados parece nos gritar sempre a mesma e angustiada pergunta. A pergunta que um clóvis, virando-se com seus olhos vazados, me fez, do fundo do meu estranho sonho de Carnaval: por que estamos aqui?

     

     

  • É hoje

    É hoje

    Quando era criança, eu não gostava de Carnaval. Não é que não gostasse – eu tinha medo. Pavor. Carnaval para mim significava ganhar uma fantasia e ir passear, de mãos dadas com minha mãe, no Largo da Taquara (tínhamos um sítio em Jacarepaguá) ou no Centro da cidade. Nos dois casos, o que mais havia eram clóvis e mascarados de todos os tipos, muitos armados de ampolas de lança-perfume, algo que para mim se assemelhava a uma arma, pois havia sempre o risco de receber aquele líquido gelado no olho. Eu tinha pavor aos mascarados.

    Afora essas idas à Taquara e à Cinelândia, o programa era ficar sentada no alto do muro do nosso sítio, fantasiada, com um saquinho de confete e outro de serpentina, à espera de que passasse alguém. Mas não passava ninguém. Nosso sítio ficava numa rua de terra, com pouquíssimo movimento, perto da Colônia Juliano Moreira, para doentes mentais. Era um deserto. Era melancólico.

    Mas, assim que cresci um pouquinho, começaram os bailes. E, aí sim, passei a adorar Carnaval. Ia a bailes de clubes, primeiro AABB (Associação Atlética Banco do Brasil) e depois Sírio-Libanês, e me esbaldava. Sabia todas aquelas marchinhas de cor. Adorava. Lamentei muito quando os bailes se tornaram antros de baixaria, proibidos a “meninas de família” como eu. Mas aí, nessa mesma época, eu começava a prestar atenção às escolas de samba.

    Já tinha ouvido o samba da Mangueira em homenagem ao Monteiro Lobato, que é de 1967, mas foi somente no Carnaval de 1969 que me apaixonei pelo desfile das escolas. Naquele ano, eu tinha ido ao baile do Sírio-Libanês e minha mãe ficara em casa, sozinha, para assistir às escolas pela televisão. Quando começou o desfile do Salgueiro, cantando “Bahia, os meus olhos tão brilhando, meu coração palpitando de tanta felicidade…”, ela começou a chorar. Tudo isso ela me contaria no dia seguinte: chorou de saudade de sua terra, a Bahia, de sua juventude, de seus pais, de quem se separou muito jovem, para se casar (vindo morar no Rio). Sentiu um aperto no peito. “Pensei muito em minha mãe”, disse, “porque ela sempre adorou Carnaval”.

    Pois naquela mesma manhã de segunda-feira, o telefone tocou. Era da Bahia. Estavam tentando ligar havia horas (nesse tempo, fazer um interurbano era muito difícil). Era minha tia, para dizer que minha avó Guiomar, mãe de minha mãe, tinha morrido naquela madrugada.

    No meu egoísmo juvenil, pensei imediatamente: “Pronto. Acabou meu Carnaval”. Mas não. Minha mãe, que era uma mulher moderna, de comportamento arrojado, mandou que eu fosse ao baile de noite. “Sua avó ia gostar”, disse. E eu fui. E a partir daí descobri que os desfiles das escolas – por mais que tenham mudado ao longo dos anos – têm uma mágica, uma beleza única. Guardam uma centelha de emoção que de repente dispara, fazendo o riso chorar.

  • Ecos de Poe

    Ecos de Poe

    Tomou um susto quando olhou o calendário. Tinha esquecido o próprio aniversário de casamento. O marido não se lembrava nunca dessas coisas, mas ela, sim. Dessa vez, justamente dessa vez, era uma data redonda: dez anos. E ela esquecera. Que pena. Podiam ter saído para jantar, feito alguma coisa.

    A mulher sentou-se no sofá. Dez anos. De repente, veio-lhe à mente uma frase que seu médico repetia sempre, para fazê-la prestar atenção ao próprio corpo: “Você nunca teve 40 anos. Nem nunca mais vai ter”. A mulher sentia um arrepio ao ouvir isso, embora não entendesse muito bem por quê. E agora a frase lhe voltava, com uma nova roupagem: “Vocês nunca mais vão fazer dez anos de casados. Nunca mais”. Sim, isso é que era assustador, esse “nunca mais”. A sensação de que tinha perdido alguma coisa – de maneira irrevogável.

    Nunca mais.

    E não era a primeira vez que isso lhe acontecia. Antes, fora ainda pior. Muito mais do que um simples aniversário de casamento. Tinha acontecido durante uma viagem de trabalho a um país distante, com uma enorme diferença de fuso-horário. Chegara lá na véspera do seu aniversário de 33 anos. Mas, na agitação da chegada, em meio aos preparativos para a grande conferência de que participaria, ela se esqueceu do próprio aniversário! Quando se lembrou, já era o dia seguinte. Ficou estarrecida. E sentiu a pontada lá no fundo, que como o corvo no poema de Poe repetia – “Nunca mais”.

    Continuou sentada no sofá, recordando. Pensou em outro momento que lhe causara uma sensação parecida, este muito antes, quando ainda era mocinha. Seria sua primeira festa de réveillon. Iam a um clube, ela e vários amigos, todos adolescentes, levados por uma tia. Mandou fazer um vestido, lembrava-se ainda, era de chiffon azul. Imaginava-se em um cenário como os de cinema, em que, quando batesse a meia-noite, as bolas de gás caíssem do teto, as serpentinas atiradas fizessem um trançado no salão, enquanto as pessoas se abraçavam, rindo e chorando. Era isso que queria, era por isso que ansiava naquela noite. O clube onde seria a festa era em Laranjeiras e, como a turma era grande, foram todos de ônibus. Em Copacabana, ficaram presos em um engarrafamento gigantesco. E passaram a meia-noite no ônibus. As lágrimas rolavam pelo rosto da menina, pingavam no vestido de chiffon azul. Teria outras oportunidades, muitos réveillons pela frente, dissera a tia. Mas ela, mesmo tão jovem, já sabia: aquele réveillon – precisamente aquele –, nunca mais.

    Ora, que bobagem, pensou de repente. Levantou-se do sofá, com um gesto de impaciência. Eu aqui, com tanto a fazer, e lembrando de coisas que já aconteceram, que não têm mais jeito, são passado.

    Passado.

    E então parou. Com uma sensação de susto, pensou: esses últimos minutos aqui no sofá, eu os passei com a mente longe, sem prestar atenção enquanto eles escoavam. Esses minutos que – como todos os outros, como as horas e os dias dessa coisa louca que é o tempo – não poderão ser vividos de novo. Outros minutos parecidos, sim. Mas não os mesmos minutos. Esses não. Nunca mais.

  • Mais humanos

    Em uma esquina de Ipanema, daquelas bem arborizadas, já a caminho da Lagoa, paro e observo dois prédios, um ao lado do outro. São edifícios pequenos, de três andares, com detalhes art-decô e varandas inúteis mas simpáticas, mínimas, pouco mais do que sacadas. Nem um nem outro tem porteiro. Os muros são baixos. Nada de grades, vidros com filme escuro, alarmes. E muito menos aquelas tabuletas – pavorosa mania – avisando que o lugar é guardado por um sistema de segurança.

    Gosto desses prédios pequenos, talvez porque nasci em uma construção assim. No Jardim Botânico, na rua Faro, quase ao lado do Bar Joia. Saí de lá aos 7 anos e dele só tenho uma lembrança mais vívida porque ali voltei a morar mais tarde, já casada. Esse prédio ainda existe. Tem três andares (um deles abaixo do nível da rua, por causa do desnível do terreno) e uma característica comum a quase todas essas construções pequenas: nome de gente. Os prédios antigamente, quando não tinham nome de santo ou lugar, se chamavam como as pessoas, Alexandre, Adalberto, Aparecida. Coisa simples, terna, evocando alguma homenagem familiar, talvez um carinho para com uma criança.

    Hoje é diferente. Os prédios têm nomes pomposos, tolos, têm títulos fingidos, de uma nobreza falsa. E já nem são mais edifícios, são solares, residências, townhouses, maisons. São frios, muitas vezes com o primeiro andar ficando na altura do que era antigamente o quinto, e isso por causa das garagens e play-grounds. Há uns, com portarias de pé-direito altíssimo, que, de tão austeros, têm cara de Ministério da Indústria e do Comércio.

    Estava refletindo assim, diante daqueles prédios pequenos de Ipanema, quando uma mocinha parou na calçada diante de um deles e gritou pela avó. Logo, uma senhora apareceu na varanda e, para meu deleite, fez descer alguma coisa dentro de uma cestinha pendurada em uma corda. A menina pegou (era uma chave!), abriu a portaria e desapareceu. Pensei então em um amigo que reclama dos prédios novos, dizendo que eles não têm mais a dimensão do homem. E tornei a olhar com ternura para aquelas construções de Ipanema.

    Alexandre, Adalberto, Aparecida. Prédios pequenos, antigos, com suas varandas tão próximas – ao alcance da voz. Testemunhas de outros tempos, quando até os prédios eram mais humanos.

     

  • Girando no caos

    A mulher tirou da estante o livro velho, de lombada gasta, e com ele nas mãos foi se sentar em um tamborete vermelho, que contrastava com o chão de ladrilho hidráulico, preto e branco. Ela estava em um sebo de livros no Catete, escondida num canto da casa onde ninguém podia vê-la, lá atrás. Havia no ar um cheiro de mofo e umidade, mas isso ela achava bom. Estar entre livros velhos, em um recanto sombrio e silencioso como aquele, dava-lhe sempre uma sensação de acolhimento. Estava entre os seus – embora, é claro, cercada de fantasmas.

    As livrarias antigas, os sebos e bibliotecas, são sempre lugares assombrados. Mas bem assombrados. Há presenças ali, disso não se pode duvidar. Embora sempre presenças benignas. Não há nada a temer, pensou a mulher. Nesse mesmo instante ouviu um som atrás de si. Isso sempre acontece. Virou-se devagar. Era uma gata cinza, de olhos azuis, com uma pinta de formato estranho no nariz. Observou a mulher com seus olhinhos vesgos e depois desapareceu por trás de uma pilha de livros. Fantasmas.

    A mulher sorriu. No fundo, sabia que sua inquietação não vinha de coisas simples como fantasmas. Vinha de percepções mais amplas, indagações profundas, perguntas que a perseguiam desde pequena, e que, às vezes, ardiam no peito. Havia dias em que acordava assim – e hoje era um deles. Não tinha jeito. Ia carregar, pela tarde e pela noite, o tempo todo, aquela sensação colada na alma.

    Baixou os olhos e observou o livro que acabara de retirar da estante. O cego de Ipanema. Paulo Mendes Campos. O sol amarelo no alto da capa, contrastando com a parte de baixo, toda preta. Luz e escuridão. Infinito. Perguntas. Talvez naquele livro encontrasse, se não respostas, ao menos alívio, uma digressão qualquer que a ajudasse a fugir de suas inquietações tão antigas. Foi o que pensou. Mas estava enganada.

    Abriu o exemplar ao acaso, sem escolher a página (como gostava de fazer), e deu com o parágrafo final do conto-título. Leu:

    “O cego de Ipanema representava naquele momento todas as alegorias da noite escura da alma, que é a nossa vida sobre a Terra. A poesia se servia dele para manifestar-se aos que passavam. Todos os cálculos do cego se desfaziam na turbulência do álcool. Com esforço, despregava-se da parede, mas então já não encontrava o mundo. Tornava-se um homem trêmulo e desamparado como qualquer um de nós. A agressividade que lhe empresta segurança desaparecera. A cegueira não mais o iluminava com o seu sol opaco e furioso. Naquele instante ele era só um pobre cego. Seu corpo gingava para um lado, para o outro, a bengala espetava o chão, evitando a queda. Voltava assustado à certeza da parede, para recomeçar momentos depois a tentativa desesperadora de desprender-se da embriaguez e da Terra, que é um globo cego girando no caos.”