Categoria: Rio

  • ‘A noite do meu bem’ no rádio

    ‘A noite do meu bem’ no rádio

    Já estão no ar (no site da Rádio MEC) todos os seis programas da série “A noite do meu bem”, sobre o samba-canção, com Ruy Castro. Os seis  programas foram ao ar uma vez por semana, sempre aos domingos, às 20h (Rádio MEC FM) e às 22h (MEC AM). Agora, serão reproduzidos por várias rádios por todo o Brasil. Os programas da série “A noite do meu bem” falam da noite carioca nos anos 50, dos cantores, da dor de cotovelo, das canções de temática positiva, de ícones da época, como Antonio Maria e Dolores Duran, e também da eternidade do samba-canção. Nos links abaixo, todos os programas. O roteiro da série foi escrito por mim, com base, claro, no livro “A noite do meu bem”, de Ruy Castro.

    http://radios.ebc.com.br/especiais-mec-fm/edicao/2016-09/radio-mec-estreia-programa-com-ruy-castro

    http://radios.ebc.com.br/especiais-mec-fm/edicao/2016-10/noite-do-meu-bem-ouca-aqui-o-segundo-programa

     http://radios.ebc.com.br/especiais-mec-fm/edicao/2016-10/noite-do-meu-bem-ouca-aqui-o-terceiro-programa

    http://radios.ebc.com.br/especiais-mec-fm/edicao/2016-10/a-noite-do-meu-bem-ouca-aqui-o-quarto-programa

    http://radios.ebc.com.br/especiais-mec-fm/edicao/2016-10/-a-noite-do-meu-bem-antonio-maria-e-dolores-duran-neste-domingo-23

    http://radios.ebc.com.br/especiais-mec-fm/edicao/2016-10/noite-do-meu-bem-ouca-aqui-o-ultimo-programa-da-serie

  • Prêmio Shell para ‘Bilac’

    Prêmio Shell para ‘Bilac’

    Nosso musical “Bilac vê estrelas” recebeu o Prêmio Shell de Melhor Música, pela sensacional trilha sonora original de Nei Lopes. O Prêmio Shell, um dos mais tradicionais do teatro brasileiro (criado há 28 anos), foi entregue em festa realizada no Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico do Rio, na noite de terça-feira, dia 15 de março. Durante a cerimônia, além da entrega dos prêmios, foi realizada uma homenagem à diva do teatro brasileiro, Fernanda Montenegro.

    O Prêmio Shell de Melhor Música para a trilha de “Bilac vê estrelas” é um reconhecimento ao talento de Nei Lopes, não apenas como sambista, mas como autor de grande porte, já que entre as 15 canções que fazem parte do musical não há um único samba (até porque em 1903, quando se passa a história, o samba ainda não havia nascido). Com letras geniais, perfeitamente integradas à narrativa, Nei Lopes compôs valsa, lundu, xote, quadrinha francesa, modinha, maxixe, fado, polca e muito mais, sempre com grande talento. Tivemos, Julia Romeu e eu, autoras do espetáculo, muito orgulho de fazer com Nei Lopes um trabalho integrado e harmônico, que contribuiu, creio, para o resultado final.

    Abaixo, as letras de duas das canções mais divertidas de “Bilac vê estrelas”, a apresentação da espiã portuguesa, Eduarda Bandeira; e a descrição do Rio de Janeiro francês, da Belle Époque carioca:

     SOLILÓQUIO DE EDUARDA

    (Fado)

    Flor amorosa e plangente

    De Camões e Gil Vicente

    De Camilo e de Pessoa!

    Venho do Douro e do Minho

    Trazendo amor e carinho

    A esta terra tão boa.

     

    Já tive muitos amores,

    Loucos, poetas, cantores

    Doutos na arte de amar

    Com Gabriele D’Annunzio

    Em breve e rápido curso

    Aprendi a “pompoar”.

     

    A quem não sabe o que é isso

    Só digo que é um feitiço

    Pra ser usado na cama

    No famoso “amor de bica”

    Aquele que bate e fica

    Na lembrança de quem ama.

     

    Hoje aqui neste outro meio

    Nutro apenas o anseio

    De conhecer os poetas

    Quero ver de que são feitos

    Seus alexandrinos perfeitos

    E como medem seus metros

     

    Apalpar suas cesuras

    Escandir-me na loucura

    Da poesia brasileira

    Nem que no inferno eu me arda

    Quero tudo o que me aguarda

    Eu, Eduarda Bandeira!

     

     

    TOUT LE RIÔ

    (Polca)

     

    O Rio de Janeiro

    Já não perde pra Paris

    Agora é lá e cá

    É tudo vis-à-vis.

    Lá na cidade-luz

    Comi croquete de siri,

    Então exijo aqui

    Moqueca de escargot

    Como dizia o grande

    Monsieur Victor Hugô

    C’est tout la même chose

    C’est tout le Riô!

     

    Qualquer confeitaria

    Tem champagne e champignon

    Cognac e anizette

    E um bom filé mignon

    E até casa de pasto

    Já se esforça nessa arte

    Tem menu a la carte

    Foie gras, petit gateau

    É a realidade

    Tout le monde já notou

    C’est tout la même chose

    C’est tout le Riô!

     

    Nas luzes da vitrine,

    Lingeries e negligées

    Rendas, popelines

    Cachecóis e cache-nez

    As calças e os culottes

    De crochê e de tricô

    O Rio civiliza-se

    Em voo d’oiseaux

    Mostrando a tout le monde

    O que Paris lhe ensinou.

    C’est tout la même chose

    C’est tout le Riô!

     

    Escrito no menu

    Asperges gratinées

    Entrées, glaces, desserts

    Dindon farci, poulets

    Aí, o freguês reclama:

    “Escute aqui, Ô seu Ioiô,

    Vatapá a la bahienne

    Ofende a tradição nagô”.

    O maître então faz pose

    E diz com ar de professor:

    C’est tout la même chose

    C’est tout la même chose

    C’est tout la même chose

    C’est tout le Riô!

     

     

  • Correndo contra o relógio

    Correndo contra o relógio

    A crise chegou às escolas de samba. Ao ouvir isso, pensei: Oba! Menos dinheiro significa menos patrocínios esdrúxulos e menos luxo, mas, quem sabe, mais criatividade. Ou seja, mais samba e menos espetáculo.

    Mas acho que me enganei. Mal me enchi de esperança e li uma nota (na coluna Gente Boa, do GLOBO) dizendo que a Liesa, por causa da falta de dinheiro, estuda reduzir o número de carros alegóricos obrigatórios, de seis para cinco (o que seria ótimo), e – aí é que vem o problema – o tempo dos desfiles das escolas, de 82 para 70 minutos. Ora, se as escolas já passam marchando, quase correndo, e se o ritmo alucinado dos últimos anos já vinha desfigurando completamente o gênero samba-enredo, o que será do desfile se tiver de acontecer com 12 minutos a menos?

    Por ironia, no mesmo dia da nota sobre essa infeliz ideia da Liesa, li também a matéria sobre a crescente dificuldade das baianas em acompanhar o ritmo dos novos tempos. As baianas são e devem continuar um patrimônio intocável das escolas de samba. Mas elas estão sofrendo. O número mínimo das alas de baianas, antes de cem componentes, já caiu para 70. Muitas senhoras deixaram de desfilar porque se tornaram evangélicas. E as que continuam têm de se desdobrar, com roupas cada vez mais pesadas, coreografias complexas e – o pior de tudo – uma correria desumana.

    Desfilei outro dia no alto de um caminhão de som de um bloco da Zona Sul. E fiquei observando um dos cantores do samba, um puxador (perdão, Jamelão) profissional, embora ainda muito jovem. Num dos intervalos do bloco, ele puxou alguns sambas-enredo históricos, para animar a rapaziada. Quando cantou “Aquarela brasileira”, de Silas de Oliveira, percebi que deu ao samba um andamento aceleradíssimo, como se estivesse na Sapucaí, com minutos preciosos escoando. E tudo ali era só brincadeira. Talvez ele, por ser jovem, só conheça o samba dessa forma, corrido a ponto de não se poder apreciar sua beleza.

    Não sou purista em matéria de samba, nem acho que só o de antigamente é que era bom. Como acompanho os desfiles desde o fim dos anos 1960, posso dizer sem vacilar que a espetacularização do desfile fez bem às escolas. Não por acaso, os três desfiles considerados os maiores de todos os tempos – o “Bum-bum paticumbum”, do Império Serrano, em 1982; o “Kizomba”, da Vila Isabel, em 1988; e o “Ratos e urubus”, de Joãosinho Trinta, pela Beija-Flor, em 1989 – todos aconteceram, como se vê, na década de 80. Sendo que os dois últimos já foram no Sambódromo.

    Mas o terreno pisado pelas escolas torna-se cada vez mais perigoso, distanciando-nos da essência do samba, que é, acima de tudo: ritmo, letra e melodia. Ou seja, a música, não o visual. É preciso encontrar um meio termo entre a tradição e o espetáculo – uma equação difícil, mas que pode ser alcançada. As escolas podem fazer modificações e abrir mão de muitas coisas, exceto do elemento fundamental, que é o próprio samba. E é o que ameaça acontecer: sai a beleza e entra de vez a corrida contra o relógio.

    Matéria minha publicada no GLOBO em 6 de fevereiro de 2016.       

     

  • Ruy Castro faz diferença

    Ruy Castro faz diferença

    Ruy Castro é um dos concorrentes ao Prêmio Faz Diferença 2015, concedido pelo jornal O Globo e pela Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro). O Faz Diferença, que está em sua 13a. edição, é concedido anualmente, em várias categorias. Ruy Castro concorre na categoria Segundo Caderno/Prosa (isto é, na área de literatura), juntamente com Nei Lopes (que este ano se destacou, entre outras coisas, pela autoria das canções do nosso musical “Bilac vê estrelas”) e com o editor Jacó Guinsburg, criador da editora Perspectiva. A escolha é feita por voto popular e a votação vai até o dia 10 de janeiro.

    Quem quiser votar, pode fazer sua escolha no site abaixo:

    http://eventos.oglobo.globo.com/faz-diferenca/2015/indicados/segundo-cadernoprosa/

  • ‘A noite do meu bem’ leva o prêmio APCA 2015

    ‘A noite do meu bem’ leva o prêmio APCA 2015

    Ruy Castro é um dos vencedores do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes) 2015, por seu livro “A noite do meu bem – A história e as histórias do samba-canção”. O livro de Ruy, lançado há poucas semanas, foi o vencedor na categoria Ensaio/Reportagem. Cinquenta críticos votaram nas categorias Arquitetura, Artes Visuais, Cinema, Literatura, Música Popular, Rádio, Teatro, Teatro Infantil,Televisão e, pela primeira vez, Moda.

    “Os vencedores deste ano refletem a agilidade da criação artística ao longo do ano nas suas mais variadas formas”, afirmou José Henrique Fabre Rolim, presidente da APCA. A cerimônia de entrega a todos os artistas contemplados neste Prêmio APCA acontecerá no primeiro quadrimestre de 2016, ano em que a entidade celebra seus 60 anos.

    Veja a lista completa de premiados no link abaixo.

    http://www.miguelarcanjoprado.com/2015/12/03/veja-lista-completa-dos-vencedores-do-premio-apca-em-2015/

  • Vem aí ‘A noite do meu bem’

    Vem aí ‘A noite do meu bem’

    O novo livro de Ruy Castro, “A noite do meu bem – A história e as histórias do samba-canção” (Companhia das Letras) chegará às livrarias daqui a duas semanas. É o primeiro grande livro de reconstituição histórica de Ruy em dez anos: o último foi “Carmen”, a biografia de Carmen Miranda, publicado em 2005. “A noite do meu bem” levou cerca de três anos para ser feito (apurado e escrito) e é, não tenho dúvida, um dos melhores — se não o melhor — livro de Ruy. É uma impressionante massa de informações, costurada de forma magistral, tecendo um panorama da noite do Rio entre 1946 e 1965. Mas não só da noite, das boates, dos cantores, músicos, compositores, mas também de tudo o que compunha o cenário social do Brasil daquela época — incluindo política, dinheiro, intrigas, poder.O livro tem cerca de 500 páginas e, como sempre acontece com os livros de Ruy, é preciso ser lido em feriados longos: porque, quando se começa, não se pode mais largar.

    Os lançamentos de “A noite do meu bem” serão:

    No Rio, no dia 24 de novembro, na Livraria Travessa de Ipanema.

    Em S. Paulo, no dia 30 de novembro, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na av. Paulista.

    Abaixo, um filmete sobre “A noite do meu bem”:

    https://www.youtube.com/watch?v=0Dwz3NaUfxE&app=desktop

     

  • Clube de Leitura na Penha

    Clube de Leitura na Penha

    Eu e Julia Romeu estivemos na Arena Carioca Dicró para participar de mais um encontro do Clube Augusto Boal de Leitura e Escrita, projeto desenvolvido desde o ano passado pela equipe do Observatório de Favelas, gestora desse fabuloso espaço na Penha. O objetivo do clube, como diz o nome, é fomentar a leitura e o nome de Boal foi escolhido por ele ter sido morador da Penha Circular.

    O encontro foi um sarau tendo por tema Carmen Miranda, com direito a leitura do nosso livro “Carmen – A grande Pequena Notável” (biografia de Carmen Miranda para crianças e jovens), música, dança e lanche de frutas tropicais. E o público era o mais animado possível: mais de quarenta idosos e idosas da Casa de Convivência Carmen Miranda, que funciona na UPA da Penha.

    Essa foi a minha quinta participação este ano no Clube de Leitura (para Julia, foi a primeira vez), sendo que no último encontro, em agosto, a reunião com os idosos foi na própria Casa de Convivência. Nos três encontros anteriores, as rodas de leitura foram para jovens da Escola Municipal Professor Souza Carneiro, sendo que com eles o tema era bem outro: terror. Fizemos leitura e contação de histórias de assombração e, no terceiro encontro os alunos apresentaram seus próprios contos, tendo sido realizado um concurso para os finais mais surpreendentes.

    Os gestores da Arena Dicró, Isabela Souza e toda a turma que trabalha com ela, são pessoas muito criativas e as atividades nesse espaço da Penha incluem cinema, teatro infantil e adulto, circo, dança de salão, oficinas de bonecos, aulas de música, canto coral e muito mais. Eu conheci o espaço durante uma apresentação da minha peça “O lugar escuro” (que em 2013 fez 12 apresentações em seis lonas e arenas culturais da Prefeitura), o que me motivou a escrever um texto para o jornal O Globo, sob o título de “Pontos de luz”, que transcrevo abaixo:

    Pontos de luz

    Heloisa Seixas

     

    AMARÉCOMPLEXO.

    Em letras maiúsculas, era o que dizia a faixa, estendida acima do muro colorido. Amar é complexo. A Maré Complexo. Pois bem, lá estava eu: domingo, fim de tarde, chuvinha fina e, enquanto Flamengo e Vasco disputavam o título do Campeonato Carioca, eu chegava à Penha Circular. Soube que ali pertinho havia uma sede da UPP, mas não vi polícia, nem carros blindados, nem armas – nada. Os únicos tiros que ouvi foram os estampidos dos foguetes na hora do gol do Vasco e, depois, no que daria o campeonato ao Flamengo.

    Estava na Penha, mais exatamente na Arena Dicró, para a apresentação da minha peça, “O lugar escuro”, sobre a doença de Alzheimer. No final da peça, o texto fala sobre a esperança de encontrar um pouco de luz na escuridão, lembrando que, no 11 de setembro, nos subterrâneos das Torres Gêmeas, os bombeiros descobriram uma vitrine cheia de copos de cristal – intactos. Pois era exatamente nisso que eu pensava ao chegar ali, àquele espaço de cultura criado pela Prefeitura. Um lugar de luz. Naquele ponto da Penha, cercado de comunidades com tantos problemas, tanta violência e tanta pobreza, a Arena Dicró é uma beleza de espaço, limpa, colorida e bem cuidada, um teatro com todos os equipamentos funcionando à perfeição, camarins, arquibancadas, ar condicionado, sistema de som, varas de luz. Do lado de fora, no pátio, há um lugar para crianças brincarem, espreguiçadeiras, jardins. E um restaurante de mesinhas cobertas de chita, com bancos de madeira tosca e luminárias feitas com ralos de cozinha, onde também funciona uma pequena biblioteca. Dali a pouco, o público começou a chegar, mais de cinquenta pessoas. Um público atento, que se emocionou em silêncio, muito diferente das mais de 400 pessoas – das quais 300 eram jovens estudantes – que na semana passada se amontoaram na Lona Elza Osborne, em Campo Grande, outro lugar fantástico.

    “O lugar escuro” está há algumas semanas fazendo o roteiro das arenas e lonas culturais do Rio e tem sido, para todos nós da equipe da peça, uma experiência e tanto, que inclui coisas boas e ruins. Há as falhas de gestão, os espaços mal cuidados, mal aproveitados, muitas vezes quase vazios. Há as lonas mal localizadas, cercadas por ruas barulhentas, onde carros de som anunciando produtos obrigam os atores a interromper o texto. Há a visão desanimadora dos subúrbios favelizados, quilômetros e quilômetros de comunidades enchendo o horizonte de um lado a outro, até perder de vista. Há os valões imundos e as carcaças de carros abandonadas que vemos pelo caminho. E há o trânsito. O trânsito que para nós era uma noite, duas noites, mas que para milhões de pessoas é uma realidade diária, na ida e na volta do trabalho. Numa noite de temporal, a van com nossa equipe levou duas horas e meia para chegar à Pavuna; três horas e quinze para chegar a Campo Grande. Como falar em mobilidade urbana numa cidade assim?

    Mas, apesar de todas as dificuldades, a simples existência dessas arenas e lonas nos deixa repletos de uma esperança feliz. Não só pelos espaços, mas também pela beleza que é a participação do público. As crianças de menos de dez anos que assistiram à peça em silêncio e entenderam tudo (a peça é para maiores de 12 anos); as pessoas que me abraçaram chorando depois da peça, contando que tinham visto suas vidas no palco; o jovem que me apertou a mão e disse que estava indo ao teatro pela primeira vez. Tudo isso é um começo, e um começo imenso. São pontos de luz.

     

     

     

  • Rio Livro Aberto

    Rio Livro Aberto

    Ruy Castro e Nei Lopes estão entre os escritores que vão participar, a partir desta segunda-feira, da RIO LIVRO ABERTO, a Festa Literária da escola EDEM (rua Gago Coutinho, 14, Laranjeiras, Tel. 3235-8080). Tendo como tema ‘O Rio em prosa e verso’, a festa literária, que se realiza de dois em dois anos e que está em sua quarta edição, vai incluir não só palestras, mas também exposições, teatro e números musicais. A palestra de abertura, segunda (28) às 18:30h, será feita por Ruy Castro, com mediação de Suzana Vargas. A participação de Nei Lopes será no sábado, dia 3, a partir das 14 horas. Entre os números musicais, estão programadas apresentações dos grupos Casuarina e Orquestra Céu na Terra.

    Abaixo o link da festa literária:

    http://livroabertoedem.blogspot.com.br/p/rio-em-prosa.html


     

     

  • Ruy Castro na Bienal

    Ruy Castro na Bienal

    No próximo sábado, dia 12 de setembro, às 15:30h, Ruy Castro estará no Café Literário da Bienal do Rio. Quem vai entrevistá-lo sou eu. O bate-papo será sobre o Rio e sobre a relação de Ruy com a cidade, entre outros assuntos. Imagino que a gente vá acabar conversando também sobre meu livro “O oitavo selo“, o quase romance lançado por mim no ano passado, e do qual Ruy é personagem central.

    Quanto à relação de Ruy com o Rio, não preciso nem falar muito. É só enumerar os assuntos de seus principais livros: Bossa nova, Nelson Rodrigues, Garrincha, Flamengo, Carmen Miranda – tudo muito carioca. Isso, para não falar em “Carnaval no fogo: Crônica de uma cidade excitante demais”, um de seus livros mais deliciosos e que traça um panorama dos 500 anos do Rio. Para quem duvida, aqui vai um trecho de “Carnaval no fogo“:

    “Se [Américo] Vespúcio voltasse hoje à cidade, quinhentos anos depois, como seria? Em 1502, ao defrontar-se com o Pão de Açúcar, ele vira na Guanabara algo muito parecido com a ideia que os antigos faziam do Paraíso: um carnaval de montanhas, serras, praias, enseadas, ilhas, dunas, restingas, manguezais, lagoas e florestas, tudo sob um céu que não tinha fim. Uma obra-prima da natureza, habitada por uma gente feliz, bronzeada e amoral: homens e mulheres que viviam cantando e dançando ao sol, todo mundo nu, fornicando alegremente nas matas e areias, dormindo em redes ao luar ou em românticas choupanas de palha, e com uma abundância de frutas, pássaros e peixes ao alcance da mão – ninguém precisava plantar, só colher, e vida que segue. Uma vida tão feliz e paradisíaca que deixava muito mal a ideia, então corrente entre os jesuítas,de que os selvagens não tinham ‘alma’.

    Em 2002, Vespúcio veria semelhanças e diferenças na insuperável coleção de cartões-postais. A baía seria o mesmo espetáculo, só que agora, se estudada de perto, turvada por corpos estranhos como garrafas plásticas, pneus velhos ou mil toneladas de óleo vazadas no mar por um petroleiro. O recorte do litoral continuaria um escândalo, mas Vespúcio, que o conhecera virgem, perceberia que sofrera alterações – aonde teriam ido parar as dezenas de mimosas enseadas, ilhotas e prainhas? Já as grandes montanhas estariam firmes como sentinelas, embora o verde tivesse diminuído consideravelmente. A temperatura também subira para valer, e ele ficaria louco para tirar aquelas calças justas de veludo e o casacão elisabetano. Mas nem toda intervenção humana na paisagem seria condenada por Vespúcio – ele certamente adoraria o bondinho, preso por cabos, subindo e descendo o Pão de Açúcar. E, para onde quer que olhasse, veria a explicação para tantas transformações: no lugar da aldeia de esparsas choupanas surgira uma cidade, com prédios altos e brancos, povoada por 5.8 milhões de habitantes, chamados de “cariocas” – quase todos com alma”.

  • Ora, direis, amendoeiras!

    Ora, direis, amendoeiras!

    Poesia – ou amendoeiras – numa hora dessas? Falar em árvores a essa altura da vida, com o Brasil mergulhado em uma crise econômica, política e institucional que não se via há décadas, pode até parecer fútil. Mas as amendoeiras são anteriores à crise, são maiores do que ela e, se deixarmos, ainda estarão aqui muitos anos depois que a confusão terminar. Por isso, é delas que vou falar. Sou uma observadora minuciosa da cidade e entre as coisas que mais observo estão as árvores. Então, posso dizer sem medo de errar: as árvores das ruas do Rio nunca foram tão mal-tratadas.

    Vou falar da Zona Sul, porque é onde vivo, mas imagino que a situação não deva ser diferente em outras regiões da cidade. As amendoeiras que se espalham pelas ruas de Ipanema e Leblon estão em estado lastimável. As obras do metrô pioraram tudo, mas a situação já estava ruim antes de começar a buraqueira.

    A transformação começou há cerca de cinco anos, com a adoção de uma nova maneira de podar as árvores. Em vez do corte dos galhos mais altos, para deixar entrar a luz, fortalecer o miolo da árvore e fazê-la encorpar-se sem crescer demais, a poda passou a ser feita por baixo. O resultado são árvores de troncos muito altos, com a copa lá em cima, o que as torna instáveis. Não por acaso, em temporais recentes houve duas ou três ocasiões em que se registrou a queda de mais de cem árvores pela cidade.

    Mas a poda mal-feita é apenas uma das questões. Agora, talvez com a desculpa de que, com as obras do metrô e a crise econômica, cuidar de árvores é algo secundário, estão deixando que parasitas de todos os tipos tomem as amendoeiras. Em algumas ruas do Leblon (a General Artigas é um exemplo), ou ainda na avenida Epitácio Pessoa, no trecho do Jardim de Alah, a maioria das amendoeiras está sufocada pela terrível erva-de-passarinho, capaz de matar uma árvore. E ninguém toma providências.

    A implicância das autoridades com as amendoeiras vem de longe. Por causa de suas raízes inquietas, que racham as calçadas, a Prefeitura do Rio se recusa a replantá-las desde a década passada. Para cada amendoeira que tomba, surge em seu lugar uma árvore de outra espécie. Há também contra elas a queixa de que suas folhas, quando caem, entopem os bueiros. E, por último, a alegação de que não são nativas, mas árvores exóticas, e que não têm o direito de estar entre nós. Com essa política, no futuro não restará uma só amendoeira nas ruas do Rio.

    Dizem que as sementes das amendoeiras vieram para cá misturadas à areia usada para fazer lastro nos navios e que floresceram no litoral por causa de sua grande resistência à água salgada. Ou que elas começaram a ser plantadas com a chegada da Corte, porque os nobres portugueses que aqui viviam tinham saudades do outono europeu. Mas sem dúvida foi por sua semelhança com os plátanos, espécie muito presente nas ruas da capital francesa, que amendoeiras foram plantadas em torno de toda a Praça Paris, quando esta foi construída, em 1929. O fato é que elas estão aqui há muito tempo, pois resta no Passeio Público pelo menos uma amendoeira de 150 anos.

    Tenho uma conhecida que morou mais de quarenta anos em Nova York e que, ao chegar ao Rio, sua cidade natal, gostava de sentir o cheiro das amendoeiras. Quando ela me disse isso, achei estranho, pois não sabia que amendoeiras exalam cheiro. Mas depois prestei atenção e vi que têm, sim. “É o perfume do Rio”, dizia ela. Precisava alguém vir de fora para me dizer isso: que a amendoeira é coisa nossa. Com ou sem crise, as árvores estão aí, são parte da paisagem carioca. Sem elas, não formaremos um todo.

     

    Texto publicado por mim no jornal O Globo em 12 de julho de 2015