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  • Gourmand Awards

    Gourmand Awards

    O meu livro “Uns cheios, outros em vão — Receitas que contam histórias” (Casa da Palavra), está entre os 250 selecionados pela Gourmand Awards para concorrer ao prêmio da Feira de Culinária de Paris, que se realiza anualmente. A Goumand Awards partiu de uma lista de 10 mil livros sobre culinária publicados em 83 países nos últimos seis meses, o que me deixou muito orgulhosa — considerando-se que, como eu própria confesso na abertura do livro, não sei fazer nem ovo frito.

    “Uns cheios, outros em vão” reúne as receitas culinárias da minha mãe, Maria Angélica, e também várias receitas de família, assim como muitas histórias que me vieram à lembrança quando eu estava organizando o livro.

    Dos 250 livros selecionados no mundo todo pela Gourmand Awards, 200 são livros de culinária e 50 são livros sobre vinho. Além de “Uns cheios, outros em vão”, os outros livros brasileiros selecionados foram: “As Minhas Receitas de Bacalhau”, de Vitor Sobral; “Cozinha de Estar”, de Rita Lobo (ambos de culinária); e “Pequena Biblioteca do Vinho”, de Clara Colotto (sobre vinho, como mostra o título).

    Em dezembro, serão anunciados os vencedores por país e em janeiro de 2014 sai uma lista final, de cinco livros (de cinco países diferentes), para concorrer ao título de “Melhor Livro de Culinária do Mundo”. O vencedor é convidado a participar da Feira de Culinária de Paris.

  • Godard para sempre

    Já começou na Oi Futuro Flamengo (rua Dois de Dezembro, 63) e na Oi Futuro Ipanema (rua Visconde de Pirajá, 54) o ciclo de filmes do cineasta Jean-Luc Godard, que inclui também palestras, performances e uma exposição (até 7 de julho). A programação é espetacular e uma chance para conhecer melhor esse cineasta que contribuiu para transformar a linguagem cinematográfica.

    Como alguns bobocas ainda insistem em chamar Godard de “chato” e seus filmes de “incompreensíveis”, reproduzo aqui um artigo escrito pelo muito jovem Ruy Castro (tinha 21 anos), feito para a revista Fairplay de setembro de 1969. É um bom aprendizado.

     

    GODARD OU ENGODAR, EIS A QUESTÃO

     

    Se há uma constante motivação na obra de Godard, essa motivação é o próprio cinema. Vivre sa vie não é um filme sobre a prostituição, assim como Les carabiniers não é um filme sobre a política. No fundo e na superfície, todos os filmes de Godard são sobre o cinema, ou, num sentido mais largo, são filmes sobre a linguagem. Não só porque Godard esteja operando em permanente estado de graça diante da linguagem, no sentido da experimentação, mas também porque, a cada filmes, ele procura descobrir o sentido deste sentido.

    “Os filmes de Godard não nos deixam esq1uecer que estamos num cinema”, uma observação interessante de Pauline Kael, que vem confirmar o nosso ponto de vista. Cinéfilo inveterado, Godard, enquanto crítico, contribuiu para a justa valorização de homens como Hitchcock, Nicholas Ray, Frank Tashlin, Antony Mann — e, para ele, escrever sobre filmes já era o mesmo que fazer cinema. Seus primeiros filmes foram “Filmes de cinéfilo”, e, enquanto A bout de souffle era dedicado à Monogram Pictures, Vivre sa vie era dedicado às produções B do cinema americano. Une femme est une femme, em espírito e nas intenções, era como se fosse um musical da Metro. De uma forma ou de outra, o cinema está presente em todos os seus filmes. Em Les carabiniers, um dos personagens “descobre” o cinematógrafo, irrompendo pela tela para supreender a mulher que toma o seu banho, pensando que fosse real. Em Pierrot le fou, Belmondo assiste, entre um e outro news-reel sobre o Vietnam, a um filme do próprio Gordard, Le grand escroc, um curta-metragem. Já em Vivre sa vie, é Anna Karina que vai ao cinema e chora as mesmas lágrimas da Falconetti em La passion de Jeanne d’Arc, de Dreyer, cujos planos são intercalados com os de seu rosto. La chinoise, um filme en train de faire, mostra a câmara de Raoul Coutard (seu fotógrafo habitual) em plena atividade, filmando Jean-Pierre Léaud. E Made in USA foi concebido como se fosse um filme estrelado por Haumphrey Bogart, mas interpretado por Anna Karina. Enfim: diante da tela, o espectador não tem como safar-se da ratoeira engendrada por Godard — pode-se enveredar pelo labirinto, mas a saída será sempre o cinema.

    Isso, no entanto, não é o mais importante. A maior contribuição de Godard não está ao nível da microestrutura (ou seja: citações, colagens, alusões), mas ao nível mesmo da macroestrutura — de como ele constrói seus filmes. No cinema, de modo geral, cada filme de cada cineasta se propõe a ser uma “interpretação” da realidade, via linguagem. A realidade, então, passa a ser qualquer coisa além do filme — como se o filme fosse o veículo ou cano de descarga daquilo que o cineasta pretende “dizer” ao espectador. Troca-se o filme em miúdos para que dele brote a mensagem, segundo a grande tradição do cinema americano. Mesmo na obra de artistas maiores, como Chaplin, Welles, Lang, Murnau, Buñuel ou Hitchcock, o filme remete a um significado redutível, a um esquema conceitual. Com Godard, ao contrário, temos o filme em liberdade – auto-referente. Um filme é um filme, e é especulação sobre a linguagem, no sentido de que está sempre refletindo sobre a sua própria razão de ser. Talvez isso tenha levado Godard a declarar, certa vez, que o “cinema não é uma arte que reproduz a vida, e sim alguma coisa entre a arte e a vida”. Tour-de-force ou não, é uma prova de coerência: o meio já era a mensagem, desde A bout de souffle.

    Imputa-se geralmente a Godard que ele “não tem nada a dizer”. Pelo contrário, ele diz tudo, e cada conceito emitido em seus filmes é o mais polivalente possível. Pode-ser dizer que sua obra (que seria uma obra em progresso, sem começo nem fim, sem tempo ou espaço) é um raio-X da civilização industrial, onde se processa a mais frenética das batalhas: a batalha da informação. Os veículos, como o cinema, o rádio, a TV, o livro, o cartaz, os luminosos, as histórias-em-quadrinhos, o telex, os satélites artificiais e os jornais, estão empenhados num fogo cruzado de informação, em que, mais importante que o “conteúdo” expresso por eles, o que funciona como elemento de pressão é o volume & alcance dessa informação. O cinema de Godard, a par de uma exemplar compreensão deste problema, é uma espécie de colagem com alto grau de informação original dos elementos que compõem o mundo industrial. Por isso, tanto faz que as frases que brotam da boca de seus personagens sejam altamente ambíguas: nunca se sabe se Godard está falando a sério ou não, mas, de resto, isso pouco importa.

    Umberto Eco, em sua importante Obra aberta, escreveu que “a obra de arte é uma mensagem fundamentalmente ambígua, uma pluralidade de significados que coexistem num só significante” e que, modernamente, “esta ambiguidade é proposital, torna-se um fim explícito da obra”. Não é que Godard não consiga “se definir”, como o pretendem alguns, ingenuamente, mas é porque parece claro a ele que o torvelinho informacional é por demais complexo para ser solucionado por fórmulas infantis como esquerda vs. direita, ou veio vs. bonito. Não há mais significados, e sim funções & relações — signifunções. A obra aberta, no entender de Eco, é aquela que “projeta diversas possibilidades interpretativas”, e não se pode “compreender” Godard fora dessa faixa de total relatividade. Acaso, arbitrário, ambiguidade, desordem: são palavras que podemos usar a respeito de Jean-Luc. Como extrair a mensagem? Seria como tentar ordenar o caos, onde reina o acaso, a imprevisibilidade total. É também uma espécie de abertura para o infinito, especialmente em Deux ou trois choses que je sais d’elle. Não há uma chave para se abrir obras como essa: há várias, e cada espectador dispõe de uma, ou de várias, de acordo com o ajuste de sua sensibilidade. Se os seus filmes tornam-se cada vez mais abstratos, é porque ele não se contenta mais em por “coisas ao lado de coisas”, como costumava dizer, e sim pretende agora “por tudo num filme”.

    Vale a pena, no entanto, ouvir o que tem a dizer o crítico americano Andrew Saris: “É possível admirar Godard e, ao mesmo tempo, temer sua influência em outros diretores. Seria detestável ver todo o cinema tornar-se conscientemente godardiano”. A realidade prova que Saris tem razão. Godard inventou um processo cuja importância já não pode ser hoje posta em dúvida: retomou possivelmente o sentido original do uso da câmara, justapondo ficção & realidade, e tornando o cinema o turning-point, onde se encontram e se entroncam a arte e a vida, o acaso e a razão. Deu um novo sentido ao comportamento do ator diante da máquina, não mais como um simples boneco do faz-de-conta, mas como alguém que está, formulando na prática um dado comportamento. Godard faz isso, e o faz bem, mesmo porque sabe o que faz. Alguns de seus admiradores mais frenéticos afirmam maravilhados que ele pretende destruir a linguagem. Infantil, essa afirmação. Pelo contrário, é o cinema tradicional que vem lucrando com o acúmulo de contribuições deixadas por Godard, o qual, por sua vez, só as extraiu de sua intensa convivência com o tradicionalíssimo cinema de Nicholas Ray, Anthony Mann e outros. A invenção se alimenta continuamente da tradição, como se sabe, e Godard só faz tornar concreta a colocação poundiana do make it new. Se os seus diluidores & epígonos apressados, depois de lhe bicarem dois ou três macetes superficiais, pretendem “destruir” a linguagem, pouco importa: todo mundo tem o direito de ser quixotesco, se quiser.

    De fato, o cinema está sendo impregnado desse sofisma. Mas o próprio Godard já declarou uma vez que nunca pretendeu destruir nada: “Ou talvez só tenha destruído uma certa noção da imagem, uma certa maneira de conceber como ela deva ser. Mas nunca pensei nisso em termos de destruição. O que eu queria era passar ao interior da imagem, já que a maior parte dos filmes são feitos em seu exterior”. A porta aberta por Godard não deixa de ser um tanto perigosa: é até meio suicida, especialmente se todos os cinemas-novos do mundo tentarem enveredar por ela. É verdade que filmes como A bout de souffle ou Pierrot le fou conseguiram criar uma determinada faixa de público, em disponibilidade agora para aceitar qualquer arrojo, e prepararam o terreno para o espectador comum não se espantar tanto diante de filmes que normalmente, não “compreenderia”. Daí, no entanto, a querer negar a outra grande vertente do cinema, que é o espetáculo (e da qual talvez 2001 seja a expressão máxima) já vai uma grande distância. As duas grandes incógnitas (x & y) da equação cinematográfica, que são a invenção e a administração, podem perfeitamente coexistir, e já estão até permutando suas conquistas. Pois, se o cinema é mais um trabalho de equipe que de um gênio isolado, é mais que sadia essa permutação. O cinema de autor, como já o declarou o próprio Godard, não passou de um cavalo-de-batalha com o fito de converter o espectador comum num indivíduo interessado em ver o cinema como algo mais que um simples divertissement. É natural que se impute a Buñuel ou Bergman a “autoria” de um filme, por se tratarem de artistas extremamente pessoais, com uma “visão do mundo” peculiar etc., mas é imperioso não desprezar como menor o trabalho de grandes administradores de equipes como o são ou foram George Sidney, Michael Curtiz ou Robert Z. Leonard. Pode-se ainda falar em cinema de autor diante de 2001?

    Godard descobriu que se podia fazer cinema com pouco dinheiro e a curto prazo, e passou a fazê-lo efetivamente, no sentido do antiespetáculo. Não há exemplo mais radical que o recente One plus one, rodado na Inglaterra com os Rolling Stones (e de tal forma que houve quem insinuasse que o filme era contra eles…) Les carabiniers, por exemplo, configura com perfeição o antiespetáculo da guerra, mas à moda godardiana, que não deixa de ser das mais ricas: a fotografia em alto contraste à maneira dos news-reels, o desfile de cartões-postais em big-close. Pierrot le fou era um grande espetáculo de cores & formas, assim como Une femme est une femme era um grande espetáculo de formas & sons. Mas nem mesmo o trabalho altamente pessoal de Godard pode prescindir de espírito de equipe: o rendimento desses filmes seria o mesmo sem a presença altamente estimulante de Raoul Coutard? O que pode traduzir um descaminho é o cinema que se faz algures, cacete e estropiado, paupérrimo tecnicamente e filmado com a indefectível câmara epiléptica, em cuja defesa geralmente se invoca o nome de Godard. Dizer que este e só este deve ser o cinema do terceiro mundo, isto sim, é render preito ao subdesenvolvimento, numa tentativa tola de nivelar por baixo. E, afinal, o que tem Godard a ver com isso?

    Ao invés de investir quixotescamente contra a linguagem, Godard a enriquece. Pode-se discernir esquematicamente essa sua contribuição em três pontos:

    a) o tratamento da fala: Godard valorizou a dialogação, ou por outra, compreendeu o seu sentido. Quando o cinema era silencioso, os cineastas não tinham esse problema. Com o advento do som, eles ganharam um recurso a mais, mas, durante muito tempo, ficaram sem saber como usá-lo: a dialogação, de modo geral, só vinha reiterar alguma constatação que a imagem já deixava patente. A fala era, não raro, redundante: vide um clássico, O delator, de Ford, de 1935, mas em que a herança do silencioso ainda era pesada. Godard dissociou a fala da imagem, de tal forma que é esta que reforça aquela, ao contrario do que se fazia. O preconceito de que o cinema é apenas imagem é, por sua vez, apenas um preconceito.

    b) o (anti) tratamento da (anti) narrativa: Godard nunca contou uma história em seus filmes, nem mesmo em A bout de souffle. Fazendo explodir o encadeamento lógico de começo/meio/fim, procedeu a um deslocamento da narrativa de tal forma que esta acabou por sair completamente dos eixos, como em Deux ou trois choses. Deve-se, é verdade, dar a palma a Antonioni, por ter sido o primeiro a atentar deliberadamente para esse problema: L’aventura, anterior ao primeiro Godard, já abria a trilha para o encontro entre ficção & documentário, que é hoje o leit-motiv da obra de Jean-Luc.

    c) o (anti) tratamento do (anti) ator: Godard libertou o ator das estrias do faz-de-conta, despindo- até do contexto anedótico no qual se situava rotineiramente. O que faz Anna Karina em seus filmes? Nada. Ou seja, não representa, no sentido teatral do termo. Apenas presentifica um dado comportamento, sem fazer uso das bolações dramatúrgicas, empostações de voz, gesticulações grotescas. Karina talvez seja até a antiatriz por excelência. Ou, quem sabe, seja a única atriz do cinema, porque, diante da câmara, ela não interpreta um personagem fictício, mas, sim, uma mulher em carne & osso, que está num filme, como se tivesse sido apanhada de propósito pela câmara. Na grande tradição do cinema americano, os atores maiores como Humphrey Bogart ou Frederic March ou Charles Laughton procuravam engendrar um dado realismo interpretativo, que tornasse o personagem mais convincente. No cinema de Godard, é o contrário: ele não interpreta — simplesmente está, como na realidade.

    E esta seria talvez uma das chaves para a obra de Godard: ele elidiu e aboliu todas as tentativas de realismo para mergulhar na realidade pura e simples, a partir da própria realidade do filme, da película. Paralelamente a Resnais, que também experimenta neste sentido, o impulso dado ao cinema por este processo é inestimável. É neste cruzamento que desemboca a dialética ficção & documentário, que, bem ou mal, serve de pretexto a que grande parte dos filmes de hoje insiram tomadas reais no contexto anedótico, num macete que já vem se tornando irritante pela repetição.

    Poder-se-ia falar, ainda, do exaustivo aproveitamento de materiais ou detritos informacionais, colhidos por Godard e encaixados nos filmes; takes de capas de livros, histórias-em-quadrinhos, anúncios luminosos, cartazes, intertítulos etc. etc. Pierrot le fou & Alphaville são exemplares neste sentido, resultando numa espécie de ideograma da sociedade industrial. A primeira impressão é a de um caos, onde se desrespeitam todas as regras — desordem absoluta. Mas, até para a desordem é necessária uma certa ordem estrutural, que os filmes de Godard não deixam de evidenciar. E a ordem de todos eles é essencialmente cinematográfica: Godard constrói os seus filmes a partir do cinema, e o ponto de chegada é também no cinema.

    Em termos de linguagem, sua obra está longe de ser considerada acabada: a linguagem se renova, e Godard com ela. Pode estar enveredando por um beco sem saída (e One plus one é um sintoma alarmante de possível esgotamento), mas, afinal, o homem tem sete fôlegos e é surpreendente. Não é um cineasta extremamente meticuloso, como Resnais, que, nesses dez anos, rodou apenas cinco filmes, um dos quais (Marienbad) pode ser colocado isoladamente como um dos maiores do cinema. Por isso, é de se temer essa obcecante admiração que todos os jovens cineastas do mundo lhe dedicam: está-se chegando a um ponto que qualquer filme que “conte uma história” já nos parece maravilhoso, pelo simples fato de que não compactua com essa “genialidade” alucinada que produz tantos filmes pretensiosos e chatos. E, afinal, o cinema não é uma arte para masoquistas.

  • Aldir foi!

    Aldir foi!

    Ao contrário do que todos apostavam, Aldir Blanc foi! Esse acontecimento inesperado foi o clímax da noite de lançamento do livro “Aldir Blanc – Resposta ao tempo”, de Luiz Fernando Vianna, na quarta-feira, dia 10, na Livraria Argumento. A presença de Aldir provocou um rebuliço e fez com que a noite de autógrafos se desdobrasse em duas: uma fila para pegar a dedicatória de Vianna, dentro da livraria, outra para pegar o autógrafo de Aldir, no Café Severino. O livro, da Casa da Palavra, traz um perfil de Aldir (com fotos ótimas, inclusive dele em criança, no Carnaval, fantasiado de toureiro e de chinês) e 450 letras de músicas.

    Estava todo mundo lá no lançamento: João Bosco, Hermínio Bello de Carvalho, Jaguar, Otávio Augusto, Antonio Pedro, Miéle, José Wilker, Cecil Thiré, Reinaldo (Casseta), Vandinha Klabim, Ana Buarque de Hollanda, Baiano, Marechal, João Máximo… Impossível continuar fazendo a lista. E a família inteira do Aldir, claro, inclusive o pai dele, seu Alceu, ou Ceceu Rico, como ele é conhecido, impecável e elegantíssimo em seus 90 e muitos anos.

    Aldir Blanc passeava pelas mesas do café e pela livraria, sendo abraçado e beijado por todos. Foi uma felicidade enorme ver nosso querido poeta assim tão bem — e na rua! O que é um feito para alguém que, nos últimos anos, só tinha saído de casa uma vez, e mesmo assim para ir ao aniversário da neta Cecília, num playground pertinho da casa dele, na Muda. A vez anterior, segundo me garantiu Mary, a mulher dele, foi quando Aldir foi assistir à estreia do musical “Era no tempo do rei”, no João Caetano, em março de 2010.

    “Era no tempo do rei”, com músicas de Carlos Lyra e letras de Aldir, foi uma adaptação que eu e Julia Romeu, minha filha, fizemos do livro homônimo de Ruy Castro. Para nós, foi uma experiência inesquecível trabalhar junto com Aldir Blanc. Foram meses de trocas de emails e telefonemas, ele sempre delicadíssimo, um cavalheiro à antiga, e com aquela voz grave que, ao soar na secretária eletrônica (já contei isso e é verdade), sempre deixou minha gata Colette enlouquecida. As dezenove canções feitas para o musical, cujas letras estão no livro, são mais uma prova da vitalidade desse “ourives do palavreado”, como definiu Caymmi.

    Cinco anos antes do musical “Era no tempo do rei”, em 2005, eu já tinha tido a chance de fazer alguma coisa junto com Aldir Blanc: por intermédio de Moacyr Luz, fui convidada para escrever o texto do encarte do disco “Vida noturna” (foto). Guardo meu exemplar precioso, com dedicatória de Aldir para mim. Reproduzo aqui o texto do encarte:

     

    PURO ALDIR BLANC, SEM GELO

     

    Você, que está com este disco nas mãos, preste atenção. Procure manuseá-lo com cuidado, pois está tocando, neste exato instante, em algo cada vez mais raro hoje em dia: um espaço de delicadeza. Com a ajuda de grandes músicos, grandes parceiros (como João Bosco, de quem estava separado há mais de vinte anos, ou Moacyr Luz, hoje seu parceiro mais constante), ou mesmo sozinho (fazendo letra e melodia), Aldir Blanc desfia sambas, canções, sambas-canções – e, com grande sutileza, faz crônica em forma de música. Canta a vida urbana e suburbana, os vagabundos dos bares, os sofredores das madrugadas – enfim, só gente boa –, botando no mesmo barco, como ele próprio diz, realidade e poesia. E uma poesia de sintonia fina, cheia de pedras-de-toque nonsense, de metáforas que são puro Aldir Blanc, sem gelo. (“Fiquei pendurada no adeus, como um velho avental”, “As bocas mudando as versões, feito as toalhas de um bar…”). Culminando no lindíssimo diálogo com o Tempo, em que ele zomba: “Respondo que ele aprisiona, eu liberto/que ele adormece as paixões, eu desperto/E o Tempo se rói com inveja de mim,/me vigia querendo aprender como eu morro de amor pra tentar reviver…” Tudo em Aldir é não-óbvio. Inclusive sua alma feminina (em “Dry”, ele dá voz a uma mulher) e seu romantismo. Aldir canta bem, tem na voz uma doçura surpreendente, sem ser piegas (mas, se fosse, e daí?), e seu lirismo traz um travo doce-amargo que às vezes parece afiado a navalha. O que nos leva a uma conclusão: nos becos mais sórdidos da vida noturna, por trás do amor mais tarado, do mais louco desvario, sempre se esconde um poço de ternura.

  • Saudades, Moa…

    Faz tempo que não vou ao Samba do Trabalhador, no Andaraí, liderado por meu querido Moacyr Luz. Tenho lido nos jornais que a roda está fazendo oito anos e comemorando com o lançamento de um DVD. Coisa boa. Estive lá no Renascença em uma das primeiríssimas edições (talvez a primeira, não tenho certeza), em 2005, e uma hora dessas vou aparecer de novo. Por conta da saudade dessa que é uma das rodas mais animadas e originais do Rio, remexi no meu baú de textos e descobri esse que reproduzo aqui embaixo. Ele foi escrito em 2009 para a revista “Serafina”, da Folha de S. Paulo, com o título de “Carioca trabalhador”. E continua valendo. Salve, Moa!

    CARIOCA TRABALHADOR

    “O Paulista não veio. Disseram que anda sumido, que está doente. Uma pena, pois sua aparição sempre foi um acontecimento: roupa branca engomada, chapéu de palhinha, sapato bicolor, o passo miúdo apoiado na bengala com castão de prata, à qual está sempre atada uma pequena garrafa de cachaça. Mas outras figuras tradicionais vão chegando. Dona Pipoca, Rubem Confete, Tia Jô, Zila do Saco. As duas últimas vêm a caráter, de torso, rendas e colares, porque é dia de Iemanjá e elas acabaram de desfilar no Afoxé Filhos de Ghandi (mais democrático do que o baiano, o bloco carioca aceita mulheres). Sentam-se sob a caramboleira, que, ao lado da lona azul e branca, dá sua sombra para poucos. Vai começar mais um Samba do Trabalhador.

    Não é um programa para principiantes. Segunda-feira à tarde, no quentíssimo verão carioca, a quadra de cimento do Clube Renascença, no bairro do Andaraí, ferve. A impressão é de que faz 50 graus aqui. Mas ninguém se importa. Há uma alegria danada na cara das pessoas, inclusive dos músicos que estão em torno da mesa, na roda de samba liderada por Moacyr Luz.

    É uma roda diferente de todas as outras, até pelo dia e hora em que acontece, em pleno dia de semana e às quatro da tarde. No início, em 2005, começava às duas, mas os organizadores fizeram uma concessão e empurraram o horário mais para frente. Não fez muita diferença. Todo mundo aqui aguenta bem o calor.

    Esse nome que Moacyr Luz deu à roda, Samba do Trabalhador, parece ironia, mas é uma homenagem aos músicos, que trabalham a semana inteira e só têm a segunda para folgar e se divertir. E eles não são os únicos: alguém me conta que a quadra também recebe muitos atores, cabeleireiros, manicures – todo o pessoal que folga na segunda. Tudo muito natural, porque essa história de que carioca não trabalha já foi desmoralizada até pelo IBGE.

    Logo, o vozeirão de Gabriel Cavalcante enche a quadra, enquanto se espalha no ar um delicioso cheiro de alho, dos quitutes que começam a ser preparados na cozinha: pastel, linguiça, frango a passarinho e os famosos caldinhos, de feijão, de ervilha, às vezes também de rabada e sururu. Lindos sambas de quadra ou partido alto vão sendo desfiados sob a lona, até que alguém puxa um pot-pourri de bossa nova, que soa bonito demais com aquela percussão pesada.

    O Samba do Trabalhador é uma das melhores rodas de samba da cidade e que bom que aconteça (o ano inteiro) num lugar tão tradicional, o Renascença, reduto do movimento negro carioca. A negritude do clube está presente nas paredes, em coloridas pinturas naïves que retratam Zumbi, a Escrava Anastácia e Nossa Senhora Aparecida, além dos santos de fé, São Jorge e Cosme e Damião. Fico apreciando esses detalhes, sentada na varanda, ao lado do presidente do clube, Jorge Ferraz. Este, com sua elegância de príncipe, me conta que ano que vem o Renascença vai fazer 60 anos. Grande cozinheiro, Jorge é famoso pela feijoada que faz, com rabada dentro. Feijoada com rabada num calor de 50 graus?, pergunto. Ele ri do meu espanto e me explica que, com bom humor, nada faz mal. Olhando em volta e vendo aquele pessoal todo nas mesas, cantando e dando risada, eu me convenço. Alegria faz bem à saúde. E me vem uma vontade de ir lá fora e fincar na porta uma tabuleta, em reverência: Silêncio. Cariocas trabalhando.”

     

     

  • Lançamento em São Paulo

    Lançamento em São Paulo

    Será amanhã, dia 26 de março, o lançamento de “Uns cheios, outros em vão”, em São Paulo. O lançamento vai ser no SESC Vila Mariana e incluirá também um bate-papo comigo e com Ruy Castro, como parte da série de palestras “Sempre um papo”. O tema da conversa será “A literatura depois do jornalismo” e o encontro começa às 8h da noite.

  • Com prosa e sem censura

    Com prosa e sem censura

    No próximo dia 21 de março, a partir de 4h da tarde, vou participar do ‘Café com prosa’, um bate-papo que é promovido pela Malagueta Comunicação e pela Cake & Co. O tema é o livro “Uns cheios, outros em vão”, misturando memória e culinária, que eu lancei pela editora Casa da Palavra no final de janeiro. A Cake & Co fica na rua Conde de Irajá 132, em Botafogo.

    No dia seguinte, dia 22, vou participar do programa ‘Sem Censura’, da TV Brasil, para bater um papo sobre o mesmo livro. Vai ser interessante voltar ao ‘Sem Censura’, dessa vez para falar de um lado mais colorido da minha mãe, porque em 2007, quando lancei “O lugar escuro”, estive lá e a entrevista foi muito emocionante. Tanto, que até hoje encontro pessoas que assistiram ao programa e ficaram impressionadas com meu relato sobre a convivência com a doença de Alzheimer.

  • Lançamento de ‘Uns cheios, outros em vão’

    Lançamento de ‘Uns cheios, outros em vão’

    O lançamento de “Uns cheios, outros em vão — Receitas que contam histórias” na livraria Argumento, na segunda-feira, (28 de janeiro), foi um sucesso (na foto ao lado, eu recebo as atrizes da peça “O lugar escuro”, Laila Zaid, Camilla Amado e Clarice Niskier). Os convidados tiveram oportunidade de provar três pratos do livro, que reúne receitas culinárias da minha mãe, Maria Angélica, e tem também contos, crônicas e muitas histórias engraçadas sobre a família. “Uns cheios, outros em vão” é uma espécie de contraponto a “O lugar escuro”, livro sobre o Alzheimer, que deu origem à peça do mesmo nome, atualmente em cartaz no Espaço Sesc de Copacabana. A degustação de pratos cujas receitas estão no livro incluiu o Vatapá da Maria Angélica, que durante décadas foi famoso entre todos os meus amigos. O título “Uns cheios, outros em vão” é inspirado em um ditado que minha mãe sempre usava, não só para falar de culinária (copos e xícaras mais ou menos cheios na hora de medir leite ou farinha), mas também se referindo à própria vida: não se pode ter tudo.

    Vejam a matéria que saiu sobre o livro na Folha de S. Paulo.

     

  • ‘O lugar escuro’

    ‘O lugar escuro’

    Já está em cartaz no Espaço Sesc Copacabana a peça “O lugar escuro”, adaptação do meu livro sobre o Mal de Alzheimer. A peça, com as atrizes Camilla Amado, Clarice Niskier e Laila Zaid, tem direção de André Paes Leme. O Espaço Sesc fica na rua Domingos Ferreira 160, tel. 2547-0156. Nesses primeiros dias de espetáculo, já pudemos sentir que é grande o envolvimento do público. As pessoas choram e riem, o que me deixa muito feliz. Afinal, é essa a essência do teatro: as duas máscaras, de alegria e de dor.

    Ficamos em cartaz no Espaço Sesc até o dia 3 de fevereiro. Espero vocês!

     

     

  • ‘Uns cheios, outros em vão’

    ‘Uns cheios, outros em vão’

    Meu novo livro, “Uns cheios, outros em vão Receitas que contam histórias“, vai ser lançado no próximo dia 28 de janeiro, segunda-feira, na Livraria Argumento, no Leblon. Esse livro, que sai pela editora Casa da Palavra, é uma espécie de reverso de “O lugar escuro”: são as receitas culinárias da minha mãe, Maria Angélica, misturadas a muitas histórias pitorescas da família, além de trechos de contos, crônicas e romances meus.

    O livro sem dúvida terá a beleza gráfica que já é típica da Casa da Palavra e será também claro e alegre, porque  mostra o lado luminoso da personalidade de Maria Angélica, que era uma grande cozinheira.

    Reproduzo aqui um trecho do livro, tirado do capítulo de abertura, “Patrimônio imaterial”:

     

    “E então talvez seja isso, pensei, talvez esteja nessa memória a imortalidade possível. Deixar alguma coisa – uma obra importantíssima ou um livro de receitas, não importa –, um sinal qualquer na areia, um rastro. Talvez não precise nem ser um livro de receitas, basta que tenha restado a lembrança de um prato gostoso, de um almoço festivo preparado com capricho, ou de simples biscoitinhos amanteigados feitos em uma tarde de chuva. Essas lembranças são nosso patrimônio imaterial.

    E foi assim que, tendo nas mãos fragmentos do passado em forma de receitas, comecei a perceber que elas me contavam histórias. Traziam recordações de várias épocas, como se estivessem sendo contadas a mim pelas mulheres da família, por Guiomar, Maria Eugênia, Maria Angélica, até mesmo por minha outra avó, Mariá, que, como eu, sempre detestou cozinhar. As páginas antigas, com suas imperfeições, manchas, rasgões, e mesmo as intactas ou feitas com mais capricho – todas elas – guardavam um significado maior. Somadas, tinham voz.

    E, como aconteceu um dia com a madalena mergulhada no chá de tília, oferecido a Proust por sua tia – “quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas” –, também de minhas páginas reencontradas saíram quartos, casas e quintais, cidades e sítios, cheiros, gostos e prazeres, assim como sustos, medos, talvez até mágoas. Brotaram das folhas de papel, como o aroma que se espraia de uma travessa fumegante, trazendo junto com elas o sabor de várias gerações.”

     

  • ‘O lugar escuro’ estreia em janeiro

    ‘O lugar escuro’ estreia em janeiro

    Tenho assistido, pelo menos uma vez por semana, aos ensaios da peça que escrevi, “O lugar escuro”, e que estreia dia 4 de janeiro no Espaço SESC, em Copacabana. Sob a direção de André Paes Leme, as atrizes Camilla Amado, Clarice Niskier e Laila Zaid estão penetrando na história dessas três mulheres, avó, mãe e filha, cuja vida foi abalada pela doença de Alzheimer. Não falo por mim, porque como autora sou suspeita, mas o que ouço e percebo nos ensaios é que a história está mexendo profundamente com as atrizes e com todas as pessoas envolvidas. Espero que o público sinta a mesma coisa.

    “O lugar escuro” foi adaptada a partir do livro do mesmo nome, que escrevi em 2007 para a editora Objetiva. Na época, durante entrevistas e palestras de que participei por vários lugares do país, eu me defrontei, inúmeras vezes, com uma verdadeira tempestade emocional. Era impressionante ver a comoção que o assunto provocava nas pessoas.

    Hoje em dia, quando a expectativa de vida cresceu muito, é raro encontrar alguém que não tenha um parente ou conhecido com Alzheimer, ou sofrendo de alguma demência senil correlata. Por isso, tudo o que acontece em torno da doença interessa a tantas pessoas. São questões como a fragmentação das relações familiares, as velhas mágoas, os rancores, o absurdo de se conviver com a loucura, o medo de enlouquecer também e os caminhos para se salvar, ou pelo menos para tornar mais suportável a situação. E tudo isso é abordado na peça.