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  • Apenas um menino

    Desde pequeno, ele gostava de colecionar coisas. Guardava, dentro de caixas e pastas, recortes de jornais sobre os mais diversos assuntos, com a sensação de que um dia precisaria pesquisar as informações ali armazenadas. Tinha também especial prazer em observar o comportamento dos mais velhos, dos muito velhos. Ainda muito criança, costumava sentar-se à porta da loja do pai e ali ficava, horas e horas, conversando com os fregueses que apareciam, todos homens feitos. Mas seu interesse maior recaía sobre um amigo da família, um senhor de 80 anos a quem chamava de avô. Dele, ouvia histórias sobre o Rio Antigo, sobre os fascínios e as malandragens da Lapa clássica, as festas nos salões e nas gafieiras, os primeiros banhos de mar nas praias quase desertas de Copacabana e Ipanema.

    Adolescente, começou a colecionar objetos. Livros, discos, fotografias, folhetos. Tinha um faro instintivo para o valor das coisas antigas, um respeito visceral pelas lembranças do passado – sem que jamais tivesse sido ensinado a agir assim. Colecionava coisas antigas como se fossem brinquedos.

    Adulto, tornou-se um pesquisador. Era capaz de ficar horas e horas dentro de uma biblioteca, um sebo ou um museu, ou mesmo passeando pelas ruas de casario antigo, no Centro da cidade, onde até o arredondado das pedras do calçamento o deixava comovido, por saber que por ali haviam pisado milhões de pés que não existiam mais. Assim como acontecera quando era criança, seus melhores amigos continuaram sendo homens mais velhos, com quem conversava de igual para igual, com os quais trocava experiências e ideias. E a quem ajudava, sempre que dele precisavam. Tinha um respeito enorme por aquelas pessoas que a sociedade parecia desprezar. Os velhos eram, para ele, a personificação da memória cultural e estética do homem. Deviam ser cultuados – nunca esquecidos.

    E assim os anos se passaram. Até que ele próprio começou a envelhecer. Mas apenas externamente. Por paradoxal que fosse, sua convivência – pela vida inteira – com coisas e pessoas do passado parecia deixá-lo cada vez mais jovem, cada vez mais menino. Tornou a fazer coleções que fizera na infância – lápis, de caixas de fósforos, de álbuns de figurinhas –, redescobrindo prazeres que estavam esquecidos.

    E um dia viu, numa fotografia, uma placa pregada na porta do quarto de Frank Sinatra (então, já muito velho), que virou seu lema definitivo. Dizia: “Aquele que morrer com mais brinquedos, ganha”.

     


  • ‘O lugar escuro’ em Porto Alegre

    ‘O lugar escuro’ em Porto Alegre

    No próximo dia 11 de março estreia em Porto Alegre uma nova montagem da minha peça “O lugar escuro”, sobre o Mal de Alzheimer. A peça, que em sua montagem original teve duas temporadas no Rio, além de apresentações em Curitiba e Fortaleza, é uma adaptação, feita por mim, do meu livro homônimo, lançado pela editora Objetiva em 2007. A montagem em Porto Alegre está a cargo de um dos mais importantes diretores gaúchos da atualidade, Luciano Alabarse, e tem no elenco Sandra Dani, Vika Schabbach e Gabriela Poester.

    “O lugar escuro” será apresentado no Teatro do Instituto Goethe de Porto Alegre (Rua 24 de outubro, 112, Moinhos de Vento), sempre às sextas e sábados (21 h) e domingos (18h). A temporada vai até 10 de abril. Às sextas, após o espetáculo, serão promovidos debates a cargo da SPPA – Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre.

    A nova montagem estreou em janeiro último, em Recife, no mais importante festival de Pernambuco, o “Janeiro de Grandes Espetáculos”, onde teve uma recepção calorosa.

    Abaixo, o texto que, a pedido do diretor, eu escrevi para o programa da peça:

     

    Fiapos de luz

    Quando comecei a escrever o livro O lugar escuro (que daria origem à peça), eu tinha dúvidas se iria publicá-lo. Achava que era um texto confessional demais, feito só para mim mesma, uma forma de ancorar no papel os fantasmas que ainda me rondavam naquela época. Porque conviver com a doença de Alzheimer é algo avassalador, e você precisa encontrar um modo de se apaziguar.

    Isso foi há dez anos. De lá para cá, muita coisa aconteceu. O livro acabou saindo (pela editora Objetiva, em 2007) e eu me vi de repente em meio a uma verdadeira tempestade emocional. Pessoas me procuravam – por telefone, por email, me parando na rua – para dizer o quanto o livro tinha mexido com elas. Às vezes, me abraçavam chorando. E sempre me agradeciam por uma coisa: por eu ter confessado minha raiva, minha revolta. Por não ter querido fazer o papel – que seria tão bonito – da filha boazinha.

    “Você me aliviou”, diziam. “Porque eu também sentia raiva, mas não conseguia confessar.”

    Outra coisa que me chamou atenção: as pessoas pareciam se identificar com o livro mesmo que não tivessem alguém com Alzheimer na família. “Eu tinha ciúmes do meu irmão, mas nunca admiti”, me disse um dia um leitor. Foi quando entendi que O lugar escuro não era apenas sobre a senilidade. Era também sobre relações familiares, ciúmes entre irmãos, rancores secretos, medo de enlouquecer, medo de morrer, essas coisas que fazem parte da vida de todos nós. Por isso, as pessoas se viam no livro.

    Foi essa identificação que me motivou a transportar O lugar escuro para o teatro. Imaginei que as palavras, quando materializadas no palco e transformadas em carne e osso, fossem tocar ainda mais fundo nessas questões tão delicadas, que são as relações familiares. E, mesmo sem muita experiência com textos teatrais, me pus eu mesma a fazer a adaptação.

    O resultado me surpreendeu, me fez viver experiências fantásticas, como na primeira leitura dramática que fizemos, em 2012 (no Centro Cultural Midrash, no Rio), quando o papel da mulher mais velha foi feito por ninguém menos que Fernanda Montenegro. Ou quando, já na temporada em teatro, em 2013, com Camilla Amado (ao lado de Clarice Nikier e Laila Zaid) no papel que fora lido por Fernanda, ouvíamos os soluços – e, curiosamente, também as gargalhadas – na plateia do Espaço Sesc, em Copacabana. Ou, ainda, nas apresentações populares que fizemos nas arenas e lonas culturais da Prefeitura do Rio, em 2014. Numa delas, havia mais de vinte crianças na plateia e, antes de começar o espetáculo, eu me perguntava o que poderia acontecer. “Por que será que trouxeram crianças para assistir a uma peça sobre Alzheimer?”, pensava. O espetáculo começou e, para minha surpresa, as crianças ficaram em silêncio, na maior atenção. E, ao final, no debate que se seguiu, percebi, espantada, que elas tinham entendido tudo.

    Viajamos também com a peça. Fomos a lugares tão díspares e distantes entre si como Curitiba e Fortaleza. Mas em todos eles encontrávamos sempre alguns pontos em comum: havia emoção, havia riso e pranto (o que me fazia pensar nas duas máscaras que são o símbolo do teatro).

    E agora temos essa nova experiência aqui em Porto Alegre. Uma nova montagem, um novo diretor, novas atrizes. Certamente será diferente. Mas tenho certeza de que será, também, e mais uma vez, uma mistura de sensações. Boas e ruins. Porque nesse lugar escuro em que mergulhei – o lugar da doença, dos rancores, da revolta, mas também da compaixão e do amor –, sempre acabei por encontrar fiapos de luz. E espero que vocês também.

    Heloisa Seixas

     

     

     

  • Papel em branco

    No mistério do papel em branco – da tela em branco – com o qual se depara pela primeira vez, a mulher reflete. Pensa no fluxo primeiro, o jorro, a sangria que lhe aflorou à pele, o veio de ouro e prata, a veia de sangue e dor, tudo o que brotou da terra e da carne e se transmutou em palavras. Um dia, um menininho holandês ia passando junto a um dique e encontrou um pequeno orifício. Achou que precisava fazer alguma coisa. Se colocasse ali o dedo, evitaria que o buraco se alargasse mais e o dique viesse abaixo. Ficou quieto, esperando, até que alguém passasse. Virou herói. Com ela, com a mulher, se dera o contrário: um dia, sem saber por quê, ela tirara o dedo e deixara correr a enxurrada, irrefreável. Palavras, palavras, letras, um amontoado de letras.

    E agora aquele silêncio enorme.

    A mulher passeia de um lado a outro da sala, como uma fera. Letras, letras. De repente seus olhos se prendem à lombada de um livro. Um livro entre os muitos livros de sua estante pessoal, aquela onde estão os títulos que lhe são mais caros, que fazem parte de sua vida e de sua história. A lombada que lhe chamou atenção contém uma palavra que agora há pouco lhe rondava a cabeça: “letra”.

    “A letra escarlate”, de Nathaniel Hawthorne.

    Por isso, só por isso, tira o livro da estante e começa a folheá-lo, até parar diante de um trecho sublinhado:

    “O brilho mortiço do carvão em brasa é essencial para produzir um efeito que tentarei descrever. Ele lança por toda a sala uma leve tintura, de um vermelho pálido que se derrama por paredes e teto, cintilando também no reflexo da mobília polida. Essa luminosidade morna se funde à espiritualidade fria dos raios de luar, assim dando vida, coração e sensibilidades de uma ternura humana às formas que parecem surgir à nossa volta. Ela converte as imagens de gelo em homens e mulheres. Olhando através do espelho – perscrutando suas profundezas assombradas –, vislumbramos o brilho bruxuleante do carvão que se extingue e os raios de luar sobre o assoalho, com uma repetição de cintilação e sombra que está um grau além da realidade, quase tocando a imaginação. Se então, numa hora como essa, e tendo tal cena diante de si, um homem sentado sozinho não tiver sonhos estranhos, nem puder transmutá-los de forma a parecerem reais – então ele não deve jamais tentar escrever romances.”

    Palavras, letras – encanto. E a mulher se sente de repente cheia de coragem, assaltada por uma vontade enorme de escrever.

  • Sonho assombrado

    Sonho assombrado

    Primeiro, eu o conheci através de um livro. Ia passeando por entre as estantes de uma livraria quando dei com dois exemplares colocados de pé, lado a lado, um mostrando a capa, o outro a contracapa. E foi justamente esta última que me fez parar. Porque ali estava, diante de mim, o rosto da boneca de biscuit da minha infância, virado de cabeça para baixo, olhando-me com seus olhos muito abertos – que pareciam mortos. Aqueles olhos de cristal, as pestanas pintadas na louça, a boca vermelha entreaberta deixando entrever os dentes pequeninos (que sempre me pareceram feitos da mesma substância dos botões). Tudo ali me fez voltar no tempo, enchendo meu coração de horror e fascínio. Só depois de alguns segundos, tirei o livro da estante e comecei a folheá-lo. E descobri um universo inteiro, feito de retalhos, de restos, reflexo distorcido da nossa própria vida, do cotidiano pequeno e insignificante pelo qual tanto lutamos – inutilmente.

    Estou falando de Farnese de Andrade, esse grande artista da estranheza.

    Pois ele agora me reapareceu, tornando a me assombrar. Sonhei com ele. Ou melhor, sonhei com seu mundo feito de pedaços, de fragmentos, de bonecas de olhos mortos. Um lugar lindo e assustador. Estranho que no sonho, como na vida, fosse Carnaval. Um Carnaval feito só de clóvis, de mascarados terríveis, os mesmos que sempre me horrorizaram.

    Farnese de Andrade. A estranheza do nome se estende à pessoa, que afinal conheci em um documentário sobre ele, tempos depois de ter visto o livro. O filme me mostrou seu rosto e sua voz, a personalidade deslocada. No filme, Farnese confessa que gosta de gatos, mas não de gente e que jamais se imaginaria tendo filhos, o que me fez pensar imediatamente em Machado de Assis: Não transmiti a nenhuma criatura o legado da minha miséria.

    Farnese está morto e, como Brás Cubas, não deixou descendentes. Mas deixou, sim, como legado suas obras ímpares, únicas, composições reunindo gamelas, armários, cadeiras, caixas, vidros, mas reunindo sobretudo restos, memórias, fragmentos de vidas. São obras que nos deixam marcas. E fazem sonhar.

    Em meio a conchas, imagens de santos e pedaços de ossos, cada boneca de olhar perdido ou corpo calcinado, cada rosto que nos mira dos retratos desbotados parece nos gritar sempre a mesma e angustiada pergunta. A pergunta que um clóvis, virando-se com seus olhos vazados, me fez, do fundo do meu estranho sonho de Carnaval: por que estamos aqui?

     

     

  • Correndo contra o relógio

    Correndo contra o relógio

    A crise chegou às escolas de samba. Ao ouvir isso, pensei: Oba! Menos dinheiro significa menos patrocínios esdrúxulos e menos luxo, mas, quem sabe, mais criatividade. Ou seja, mais samba e menos espetáculo.

    Mas acho que me enganei. Mal me enchi de esperança e li uma nota (na coluna Gente Boa, do GLOBO) dizendo que a Liesa, por causa da falta de dinheiro, estuda reduzir o número de carros alegóricos obrigatórios, de seis para cinco (o que seria ótimo), e – aí é que vem o problema – o tempo dos desfiles das escolas, de 82 para 70 minutos. Ora, se as escolas já passam marchando, quase correndo, e se o ritmo alucinado dos últimos anos já vinha desfigurando completamente o gênero samba-enredo, o que será do desfile se tiver de acontecer com 12 minutos a menos?

    Por ironia, no mesmo dia da nota sobre essa infeliz ideia da Liesa, li também a matéria sobre a crescente dificuldade das baianas em acompanhar o ritmo dos novos tempos. As baianas são e devem continuar um patrimônio intocável das escolas de samba. Mas elas estão sofrendo. O número mínimo das alas de baianas, antes de cem componentes, já caiu para 70. Muitas senhoras deixaram de desfilar porque se tornaram evangélicas. E as que continuam têm de se desdobrar, com roupas cada vez mais pesadas, coreografias complexas e – o pior de tudo – uma correria desumana.

    Desfilei outro dia no alto de um caminhão de som de um bloco da Zona Sul. E fiquei observando um dos cantores do samba, um puxador (perdão, Jamelão) profissional, embora ainda muito jovem. Num dos intervalos do bloco, ele puxou alguns sambas-enredo históricos, para animar a rapaziada. Quando cantou “Aquarela brasileira”, de Silas de Oliveira, percebi que deu ao samba um andamento aceleradíssimo, como se estivesse na Sapucaí, com minutos preciosos escoando. E tudo ali era só brincadeira. Talvez ele, por ser jovem, só conheça o samba dessa forma, corrido a ponto de não se poder apreciar sua beleza.

    Não sou purista em matéria de samba, nem acho que só o de antigamente é que era bom. Como acompanho os desfiles desde o fim dos anos 1960, posso dizer sem vacilar que a espetacularização do desfile fez bem às escolas. Não por acaso, os três desfiles considerados os maiores de todos os tempos – o “Bum-bum paticumbum”, do Império Serrano, em 1982; o “Kizomba”, da Vila Isabel, em 1988; e o “Ratos e urubus”, de Joãosinho Trinta, pela Beija-Flor, em 1989 – todos aconteceram, como se vê, na década de 80. Sendo que os dois últimos já foram no Sambódromo.

    Mas o terreno pisado pelas escolas torna-se cada vez mais perigoso, distanciando-nos da essência do samba, que é, acima de tudo: ritmo, letra e melodia. Ou seja, a música, não o visual. É preciso encontrar um meio termo entre a tradição e o espetáculo – uma equação difícil, mas que pode ser alcançada. As escolas podem fazer modificações e abrir mão de muitas coisas, exceto do elemento fundamental, que é o próprio samba. E é o que ameaça acontecer: sai a beleza e entra de vez a corrida contra o relógio.

    Matéria minha publicada no GLOBO em 6 de fevereiro de 2016.       

     

  • É hoje

    É hoje

    Quando era criança, eu não gostava de Carnaval. Não é que não gostasse – eu tinha medo. Pavor. Carnaval para mim significava ganhar uma fantasia e ir passear, de mãos dadas com minha mãe, no Largo da Taquara (tínhamos um sítio em Jacarepaguá) ou no Centro da cidade. Nos dois casos, o que mais havia eram clóvis e mascarados de todos os tipos, muitos armados de ampolas de lança-perfume, algo que para mim se assemelhava a uma arma, pois havia sempre o risco de receber aquele líquido gelado no olho. Eu tinha pavor aos mascarados.

    Afora essas idas à Taquara e à Cinelândia, o programa era ficar sentada no alto do muro do nosso sítio, fantasiada, com um saquinho de confete e outro de serpentina, à espera de que passasse alguém. Mas não passava ninguém. Nosso sítio ficava numa rua de terra, com pouquíssimo movimento, perto da Colônia Juliano Moreira, para doentes mentais. Era um deserto. Era melancólico.

    Mas, assim que cresci um pouquinho, começaram os bailes. E, aí sim, passei a adorar Carnaval. Ia a bailes de clubes, primeiro AABB (Associação Atlética Banco do Brasil) e depois Sírio-Libanês, e me esbaldava. Sabia todas aquelas marchinhas de cor. Adorava. Lamentei muito quando os bailes se tornaram antros de baixaria, proibidos a “meninas de família” como eu. Mas aí, nessa mesma época, eu começava a prestar atenção às escolas de samba.

    Já tinha ouvido o samba da Mangueira em homenagem ao Monteiro Lobato, que é de 1967, mas foi somente no Carnaval de 1969 que me apaixonei pelo desfile das escolas. Naquele ano, eu tinha ido ao baile do Sírio-Libanês e minha mãe ficara em casa, sozinha, para assistir às escolas pela televisão. Quando começou o desfile do Salgueiro, cantando “Bahia, os meus olhos tão brilhando, meu coração palpitando de tanta felicidade…”, ela começou a chorar. Tudo isso ela me contaria no dia seguinte: chorou de saudade de sua terra, a Bahia, de sua juventude, de seus pais, de quem se separou muito jovem, para se casar (vindo morar no Rio). Sentiu um aperto no peito. “Pensei muito em minha mãe”, disse, “porque ela sempre adorou Carnaval”.

    Pois naquela mesma manhã de segunda-feira, o telefone tocou. Era da Bahia. Estavam tentando ligar havia horas (nesse tempo, fazer um interurbano era muito difícil). Era minha tia, para dizer que minha avó Guiomar, mãe de minha mãe, tinha morrido naquela madrugada.

    No meu egoísmo juvenil, pensei imediatamente: “Pronto. Acabou meu Carnaval”. Mas não. Minha mãe, que era uma mulher moderna, de comportamento arrojado, mandou que eu fosse ao baile de noite. “Sua avó ia gostar”, disse. E eu fui. E a partir daí descobri que os desfiles das escolas – por mais que tenham mudado ao longo dos anos – têm uma mágica, uma beleza única. Guardam uma centelha de emoção que de repente dispara, fazendo o riso chorar.

  • Ecos de Poe

    Ecos de Poe

    Tomou um susto quando olhou o calendário. Tinha esquecido o próprio aniversário de casamento. O marido não se lembrava nunca dessas coisas, mas ela, sim. Dessa vez, justamente dessa vez, era uma data redonda: dez anos. E ela esquecera. Que pena. Podiam ter saído para jantar, feito alguma coisa.

    A mulher sentou-se no sofá. Dez anos. De repente, veio-lhe à mente uma frase que seu médico repetia sempre, para fazê-la prestar atenção ao próprio corpo: “Você nunca teve 40 anos. Nem nunca mais vai ter”. A mulher sentia um arrepio ao ouvir isso, embora não entendesse muito bem por quê. E agora a frase lhe voltava, com uma nova roupagem: “Vocês nunca mais vão fazer dez anos de casados. Nunca mais”. Sim, isso é que era assustador, esse “nunca mais”. A sensação de que tinha perdido alguma coisa – de maneira irrevogável.

    Nunca mais.

    E não era a primeira vez que isso lhe acontecia. Antes, fora ainda pior. Muito mais do que um simples aniversário de casamento. Tinha acontecido durante uma viagem de trabalho a um país distante, com uma enorme diferença de fuso-horário. Chegara lá na véspera do seu aniversário de 33 anos. Mas, na agitação da chegada, em meio aos preparativos para a grande conferência de que participaria, ela se esqueceu do próprio aniversário! Quando se lembrou, já era o dia seguinte. Ficou estarrecida. E sentiu a pontada lá no fundo, que como o corvo no poema de Poe repetia – “Nunca mais”.

    Continuou sentada no sofá, recordando. Pensou em outro momento que lhe causara uma sensação parecida, este muito antes, quando ainda era mocinha. Seria sua primeira festa de réveillon. Iam a um clube, ela e vários amigos, todos adolescentes, levados por uma tia. Mandou fazer um vestido, lembrava-se ainda, era de chiffon azul. Imaginava-se em um cenário como os de cinema, em que, quando batesse a meia-noite, as bolas de gás caíssem do teto, as serpentinas atiradas fizessem um trançado no salão, enquanto as pessoas se abraçavam, rindo e chorando. Era isso que queria, era por isso que ansiava naquela noite. O clube onde seria a festa era em Laranjeiras e, como a turma era grande, foram todos de ônibus. Em Copacabana, ficaram presos em um engarrafamento gigantesco. E passaram a meia-noite no ônibus. As lágrimas rolavam pelo rosto da menina, pingavam no vestido de chiffon azul. Teria outras oportunidades, muitos réveillons pela frente, dissera a tia. Mas ela, mesmo tão jovem, já sabia: aquele réveillon – precisamente aquele –, nunca mais.

    Ora, que bobagem, pensou de repente. Levantou-se do sofá, com um gesto de impaciência. Eu aqui, com tanto a fazer, e lembrando de coisas que já aconteceram, que não têm mais jeito, são passado.

    Passado.

    E então parou. Com uma sensação de susto, pensou: esses últimos minutos aqui no sofá, eu os passei com a mente longe, sem prestar atenção enquanto eles escoavam. Esses minutos que – como todos os outros, como as horas e os dias dessa coisa louca que é o tempo – não poderão ser vividos de novo. Outros minutos parecidos, sim. Mas não os mesmos minutos. Esses não. Nunca mais.

  • Livros na Feira de Bolonha

    Livros na Feira de Bolonha

    Três livros nossos foram incluídos no catálogo da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) para ser apresentados na Feira Internacional do Livro Infantil em Bolonha, a mais tradicional feira no gênero: o livro “Carmen – A grande Pequena Notável”, biografia de Carmen Miranda (Edições de Janeiro), escrita por mim e por Julia Romeu, que já tinha recebido dois prêmios da FNLIJ em 2015 (Melhor Livro de Não-ficção e Melhor Projeto Gráfico); e a dupla de livros de crônicas que Ruy Castro e eu preparamos no ano passado para a editora Moderna, voltados para o público jovem, “A melancia quadrada” (de Ruy) e “O amigo do vento” (meu).

    O link da página em que a FNLIJ apresenta o catálogo está aqui embaixo:

    http://www.fnlij.org.br/site/publicacoes-em-pdf/catalogos-de-bolonha/item/727-cat%C3%A1logo-fnlij-para-feira-de-bolonha-2016.html

     

  • Mais humanos

    Em uma esquina de Ipanema, daquelas bem arborizadas, já a caminho da Lagoa, paro e observo dois prédios, um ao lado do outro. São edifícios pequenos, de três andares, com detalhes art-decô e varandas inúteis mas simpáticas, mínimas, pouco mais do que sacadas. Nem um nem outro tem porteiro. Os muros são baixos. Nada de grades, vidros com filme escuro, alarmes. E muito menos aquelas tabuletas – pavorosa mania – avisando que o lugar é guardado por um sistema de segurança.

    Gosto desses prédios pequenos, talvez porque nasci em uma construção assim. No Jardim Botânico, na rua Faro, quase ao lado do Bar Joia. Saí de lá aos 7 anos e dele só tenho uma lembrança mais vívida porque ali voltei a morar mais tarde, já casada. Esse prédio ainda existe. Tem três andares (um deles abaixo do nível da rua, por causa do desnível do terreno) e uma característica comum a quase todas essas construções pequenas: nome de gente. Os prédios antigamente, quando não tinham nome de santo ou lugar, se chamavam como as pessoas, Alexandre, Adalberto, Aparecida. Coisa simples, terna, evocando alguma homenagem familiar, talvez um carinho para com uma criança.

    Hoje é diferente. Os prédios têm nomes pomposos, tolos, têm títulos fingidos, de uma nobreza falsa. E já nem são mais edifícios, são solares, residências, townhouses, maisons. São frios, muitas vezes com o primeiro andar ficando na altura do que era antigamente o quinto, e isso por causa das garagens e play-grounds. Há uns, com portarias de pé-direito altíssimo, que, de tão austeros, têm cara de Ministério da Indústria e do Comércio.

    Estava refletindo assim, diante daqueles prédios pequenos de Ipanema, quando uma mocinha parou na calçada diante de um deles e gritou pela avó. Logo, uma senhora apareceu na varanda e, para meu deleite, fez descer alguma coisa dentro de uma cestinha pendurada em uma corda. A menina pegou (era uma chave!), abriu a portaria e desapareceu. Pensei então em um amigo que reclama dos prédios novos, dizendo que eles não têm mais a dimensão do homem. E tornei a olhar com ternura para aquelas construções de Ipanema.

    Alexandre, Adalberto, Aparecida. Prédios pequenos, antigos, com suas varandas tão próximas – ao alcance da voz. Testemunhas de outros tempos, quando até os prédios eram mais humanos.

     

  • Girando no caos

    A mulher tirou da estante o livro velho, de lombada gasta, e com ele nas mãos foi se sentar em um tamborete vermelho, que contrastava com o chão de ladrilho hidráulico, preto e branco. Ela estava em um sebo de livros no Catete, escondida num canto da casa onde ninguém podia vê-la, lá atrás. Havia no ar um cheiro de mofo e umidade, mas isso ela achava bom. Estar entre livros velhos, em um recanto sombrio e silencioso como aquele, dava-lhe sempre uma sensação de acolhimento. Estava entre os seus – embora, é claro, cercada de fantasmas.

    As livrarias antigas, os sebos e bibliotecas, são sempre lugares assombrados. Mas bem assombrados. Há presenças ali, disso não se pode duvidar. Embora sempre presenças benignas. Não há nada a temer, pensou a mulher. Nesse mesmo instante ouviu um som atrás de si. Isso sempre acontece. Virou-se devagar. Era uma gata cinza, de olhos azuis, com uma pinta de formato estranho no nariz. Observou a mulher com seus olhinhos vesgos e depois desapareceu por trás de uma pilha de livros. Fantasmas.

    A mulher sorriu. No fundo, sabia que sua inquietação não vinha de coisas simples como fantasmas. Vinha de percepções mais amplas, indagações profundas, perguntas que a perseguiam desde pequena, e que, às vezes, ardiam no peito. Havia dias em que acordava assim – e hoje era um deles. Não tinha jeito. Ia carregar, pela tarde e pela noite, o tempo todo, aquela sensação colada na alma.

    Baixou os olhos e observou o livro que acabara de retirar da estante. O cego de Ipanema. Paulo Mendes Campos. O sol amarelo no alto da capa, contrastando com a parte de baixo, toda preta. Luz e escuridão. Infinito. Perguntas. Talvez naquele livro encontrasse, se não respostas, ao menos alívio, uma digressão qualquer que a ajudasse a fugir de suas inquietações tão antigas. Foi o que pensou. Mas estava enganada.

    Abriu o exemplar ao acaso, sem escolher a página (como gostava de fazer), e deu com o parágrafo final do conto-título. Leu:

    “O cego de Ipanema representava naquele momento todas as alegorias da noite escura da alma, que é a nossa vida sobre a Terra. A poesia se servia dele para manifestar-se aos que passavam. Todos os cálculos do cego se desfaziam na turbulência do álcool. Com esforço, despregava-se da parede, mas então já não encontrava o mundo. Tornava-se um homem trêmulo e desamparado como qualquer um de nós. A agressividade que lhe empresta segurança desaparecera. A cegueira não mais o iluminava com o seu sol opaco e furioso. Naquele instante ele era só um pobre cego. Seu corpo gingava para um lado, para o outro, a bengala espetava o chão, evitando a queda. Voltava assustado à certeza da parede, para recomeçar momentos depois a tentativa desesperadora de desprender-se da embriaguez e da Terra, que é um globo cego girando no caos.”