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  • A presença

    A presença

    O homem abriu os olhos – e pronto. Foi assim, um segundo apenas e estava completamente desperto, passando do sono ao alerta de forma instantânea, como sempre acontece com os gatos.

    Mas seus olhos não lhe mostraram nada, a escuridão era absoluta.

    Tentou se lembrar que lugar era aquele. Mexeu devagar a mão direita, apalpando a superfície sobre a qual se encontrava. Ele não era dessas pessoas catatônicas, que, quando acordam, levam vários minutos para entender onde estão. Sempre passava do sono à vigília com rapidez, sem meios termos. Era, portanto, estranho que, estando tão completamente desperto, não conseguisse reconhecer o lugar onde estava. Estranho também que sentisse, junto com aquele não reconhecimento, um incômodo, um rumor interno subindo, quase um presságio.

    Moveu um pouco mais a mão. Era um lençol. Estava deitado em uma cama, embora tivesse certeza de que não era a sua. Começou então, aos poucos, a se lembrar. Era uma viagem de trabalho. Uma cidade estranha. Um hotel, claro. Nada de mais aí. Seria só estender mais o braço, buscar um abajur e acender a luz. Mas por que adiava esse ato tão simples? Por que a tremenda sensação de inquietação?

    Continuou parado, à espera de uma explicação interna para o que sentia. E ela veio. A princípio apenas sutil, mas logo avassaladora, tornada certeza. Havia alguém ali dentro. No quarto. No escuro. Um intruso.

    Recolheu a mão para junto do corpo. Esperou. Sentiu alguma coisa riscar-lhe o pescoço, muito de leve, e demorou a entender que era uma gota de suor escorrendo. Foi só então que percebeu a dimensão do próprio medo. Mas não um medo qualquer, um medo físico – não. Sabia que ali a seu lado havia alguma coisa inexplicável, impalpável. Uma presença.

    O surgimento dessa palavra em seu cérebro fez os cabelos dos braços se eriçarem, em um segundo. E antes que o medo se transformasse em pavor, com um impulso, sem refletir, o homem se sentou na cama e acendeu a luz.

    Ficou parado olhando para o espaço vazio a seu lado, na cama de casal. Havia um desalinho, uma perfeita mossa, muito bem delineada no lençol. A marca de um corpo.

  • Biografias na pauta

    Biografias na pauta

    Já está no ar, no Sesc-TV, uma série de programas chamada Super Libris, dirigida pelo escritor e roteirista José Roberto Torero. Serão 52 programas sobre literatura, com 26 minutos de duração, e o primeiro da série é uma entrevista com Ruy Castro. No programa, Ruy fala de seu método de trabalho, da maneira como se deixa impregnar pela alma de seus biografados e explica por que só gosta de biografar pessoas mortas — e mortas há muito tempo. Fala também de como se sentiu quando foi transformado, por mim, em personagem, no livro “O oitavo selo”. O livro, lançado em 2014 pela editora Cosac Naify, é um quase romance que, misturando realidade e ficção, narra os confrontos que o personagem teve com a morte, incluindo problemas com álcool, drogas pesadas e doenças gravíssimas.

    Confiram no link:

    http://superlibris.sesctv.org.br/episodios/biografias-a-vida-como-ela-foi-ruy-castro 

  • Rio Livro Aberto

    Rio Livro Aberto

    Ruy Castro e Nei Lopes estão entre os escritores que vão participar, a partir desta segunda-feira, da RIO LIVRO ABERTO, a Festa Literária da escola EDEM (rua Gago Coutinho, 14, Laranjeiras, Tel. 3235-8080). Tendo como tema ‘O Rio em prosa e verso’, a festa literária, que se realiza de dois em dois anos e que está em sua quarta edição, vai incluir não só palestras, mas também exposições, teatro e números musicais. A palestra de abertura, segunda (28) às 18:30h, será feita por Ruy Castro, com mediação de Suzana Vargas. A participação de Nei Lopes será no sábado, dia 3, a partir das 14 horas. Entre os números musicais, estão programadas apresentações dos grupos Casuarina e Orquestra Céu na Terra.

    Abaixo o link da festa literária:

    http://livroabertoedem.blogspot.com.br/p/rio-em-prosa.html


     

     

  • Multidões

    Multidões

    Eu estava no coro que cantou “Love of my life” junto com Freddie Mercury e o Queen no Rock in Rio de 1985. E no show de Paul McCartney no Maracanã em 1990, no dia que entrou para o Guiness como o maior público de um show de rock na história, com 184 mil pessoas. Eu estava no comício das Diretas, na Candelária, que reuniu um milhão de pessoas em 1984. E estava no Maracanã no Brasil-Paraguai de 1969, quando o Brasil se classificou para a Copa de 70, com um gol de Pelé. Foi o recorde oficial absoluto de público no estádio, 183.341 torcedores – e esse 1 era eu.

    Não digo isso para me jactar. Acho mesmo que, tirando o comício das Diretas e o show do Paul, participei das outras ocasiões por mero acaso, sem saber bem por que estava ali. Fui porque fui, sem a mais remota consciência de estar vivendo um momento marcante. Mas falo do assunto por uma razão: o fascínio que tenho pelas multidões.

    Estar no seio de uma massa compacta faz desaparecer o indivíduo, sua personalidade se esbate, e ele passa a ser, queira ou não, parte de um todo. A multidão respira e ruge, tem vida própria. Pode ser perigosa. Há beleza nessa força pulsante, incontrolável, nesse monstro do Bem e do Mal que são os grandes aglomerados de pessoas. Ali, tudo pode acontecer. É isso que me atrai.

    Essa dissolução do ser individual – mais do que o aperto ou a dificuldade de respirar – provoca fobias, torna as multidões apavorantes para algumas pessoas. Eu mesma já vivi pelo menos dois momentos de angústia dentro de multidões: uma delas, num jogo de futebol, mas não no Brasil-Paraguai e sim num Fla-Flu, naquele mesmo ano de 1969, em que, à entrada do Maracanã, a massa movente quase me arrancou da mão de meu pai. Tive muito medo. Também fiquei à beira do pânico em um desfile do Bola Preta, há alguns anos, quando a multidão me empurrou a ponto de meus pés já quase não tocarem o chão, situação da qual só consegui escapar me jogando escada abaixo para dentro de uma estação do metrô. Mas nem esses momentos difíceis foram capazes de diminuir meu fascínio pelos aglomerados humanos.

    No meio da multidão, tenho prazer em me sentir dissolvida, anulada, à mercê da massa. A um passo do perigo e sem poder fazer nada. Há um momento inverso em que experimento sensação semelhante: é quando estou sozinha, andando pelas ruas de uma cidade desconhecida. Quando isso acontece, sou igualmente invadida por uma euforia estranha. É também desafio, misto de temor e prazer. Talvez seja esse, então, o ponto de contato: porque estar perdido no meio da multidão compacta é pura solidão.

  • Viver de prazer na Pauliceia

    Viver de prazer na Pauliceia

    Viver de prazer. É esse o título da palestra que Ruy Castro e eu daremos esta semana na Pauliceia Literária 2015, evento promovido anualmente pela Associação dos Advogados de São Paulo (AASP). O título é também uma referência ao livro de crônicas de Ruy, “Morrer de prazer”, mas o foco da conversa vai ser mesmo o livro que eu lancei no ano passado, “O oitavo selo”, um quase romance que tem Ruy como personagem principal. Nele, eu relato os sete (qual será o oitavo?) confrontos dele com a morte, o que incluiu álcool, drogas pesadas e doenças gravíssimas. Nossa mesa vai ser na quinta-feira, dia 24 de setembro, às 15 horas, no auditório da AASP (rua Álvares Penteado, 151, Centro).

    No link, entrevistas com todos os autores que participam da Pauliceia Literária este ano.

    http://www.pauliceialiteraria.com.br/entrevistas

     

     

  • O céu dos gatos

    O céu dos gatos

    Era um menino que gostava de ler. Desde muito pequeno, quando ainda não tinha sido alfabetizado, já se interessava por livros e revistas, principalmente as revistas de quadrinhos. Adorava história em quadrinhos. Era capaz de ficar horas e horas deitado no chão do quarto, com as revistas espalhadas em volta, lendo, lendo, lendo. Os pais achavam aquilo sensacional – um menino que, ao contrário de muitos de sua geração, ainda gostava de papel. Porque, além de ler livros e revistas, o menino gostava de colecioná-los. Já tinha uma estante cheia de livros no quarto e suas revistas em quadrinhos ficavam empilhadas dentro de um baú de madeira, separadas por autores,  coisa impressionante para a idade dele.

    Naquela tarde, o menino estava esparramado no chão, folheando um livro com tirinhas de Calvin e Haroldo. Eram personagens que o menino adorava, tinha até a impressão de que ele e Calvin eram parecidos. Foi quando viu a tirinha em que Calvin olhava para seu tigre Haroldo, e pensava: “Quando nós dois morrermos, como vai ser? Porque eu vou para o céu dos humanos, mas Haroldo vai para o céu dos tigres. Como é que a gente vai se encontrar?”.

    O menino leu aquilo e ergueu os olhos. Seu gato preto-e-branco, Fu Manchu, estava deitado no chão à sua frente, olhando bem para ele. Fu Manchu era um gato muito legal. Tinha nome de vilão (o pai do menino é que tinha escolhido), mas “uma alma de passarinho” (palavras da mãe). A mãe vivia dizendo que, ao contrário do que muita gente pensa, os bichos têm alma, sim.  Portanto, ainda mais sendo tão bonzinho, quando morresse Fu Manchu iria para o céu. Mas o céu dos gatos, não dos humanos. Então, quando isso acontecesse, e quando ele, menino, morresse também – como é que eles fariam para se encontrar?

    Embatucou. Nunca tinha pensado na coisa sob aquele ângulo. Tornou a olhar bem para Fu Manchu, que agora estava se lambendo, com um daqueles contorcionismos que só os gatos sabem fazer. Mas aí o menino deu um muxoxo:

    Ah, que besteira ficar pensando nisso agora. Ninguém aqui está pretendendo morrer. Ainda falta muito, muito  tempo para isso acontecer, concluiu. E, quando acontecer, eu dou um jeito. Afinal, minha tarefa é muito mais fácil que a do Calvin. Perto do céu dos tigres, deve ser moleza entrar no céu dos gatos.

  • Um olhar de Proust

    Um olhar de Proust

    Sou dessas pessoas que tomam nota dos títulos de todos os livros que leem, para no final do ano saber quantos foram. Desde que comecei a fazer tais anotações, tenho tido anos melhores e piores. Não lembro bem, mas meu recorde foi alguma coisa perto de 40 livros por ano. Gostaria de chegar a 50, o que daria mais ou menos um livro por semana, mas até hoje não consegui. Verdade que, dos livros que leio, muitos me tomam muito tempo. Podem ser livros difíceis, ou ter muitas páginas, e podem também ser livros que, por sua densidade e linguagem, pedem para ser degustados devagar. É o caso dos livros de Proust.

    No início do ano passado, ao escrever minhas resoluções anuais (outra mania minha), botei na lista: ler Proust. E por “ler Proust”, queria dizer ler os sete volumes de “Em busca do tempo perdido”, e não apenas trechos, fragmentos (lindos, lindos), como sempre fiz. Pensei que conseguiria ler os sete volumes em 2014, mas não consegui: li muitos livros no ano passado, e entre eles estavam vários tomos do “Em busca do tempo perdido” – mas não todos. Alguns ficaram para este ano.

    Há poucas semanas, terminei o último, “O tempo redescoberto”, seguramente um dos mais belos dos sete livros, pois trata muito do que é a literatura, do que é escrever. E vou dizer uma coisa: agora que acabou, estou com síndrome de abstinência de Proust. Quando me sento no sofá e olho para minha mesinha de centro, onde ficam os livros que estou lendo (leio vários ao mesmo tempo), me dá aquela saudade.

    Entendi por que dizem que ler Proust faz bem à saúde. Nestes tempos tão difíceis, tão brutais, sua observação delicadíssima do mundo nos preenche de uma forma especial. Tive a prova cabal disso outro dia: estava na sala de espera da veterinária, meu gatinho ia fazer um exame. A salinha é apertada e fica em um sobrado de Ipanema, no segundo andar, aonde se chega por uma escada estreita. Eu estava sentada diante da porta, vendo o vão escuro da escada e a luz da rua, lá embaixo. Queria estar na rua, a caminho de casa, em qualquer lugar que não fosse aquela sala de espera, com meu gato na gaiola. Mas de repente minha atenção se prendeu a uma bicicleta, acorrentada a uma árvore, bem em frente à porta do sobrado. Fiquei olhando a roda traseira da bicicleta, seus aros, que formavam uma estrela, o pneu sobre uma poça d’água, feita de matéria escura e oleosa. E de repente percebi naquela cena, que se recortava à minha frente, uma beleza impensável. Como se, de tanto ler Proust, ele tivesse contaminado – no melhor dos sentidos – meu olhar. E me desse a chance de escapar dali, de escapar de mim mesma, e de receber, através dos meus sentidos exacerbados, a fabulosa plasticidade do mundo.

  • Ruy Castro na Bienal

    Ruy Castro na Bienal

    No próximo sábado, dia 12 de setembro, às 15:30h, Ruy Castro estará no Café Literário da Bienal do Rio. Quem vai entrevistá-lo sou eu. O bate-papo será sobre o Rio e sobre a relação de Ruy com a cidade, entre outros assuntos. Imagino que a gente vá acabar conversando também sobre meu livro “O oitavo selo“, o quase romance lançado por mim no ano passado, e do qual Ruy é personagem central.

    Quanto à relação de Ruy com o Rio, não preciso nem falar muito. É só enumerar os assuntos de seus principais livros: Bossa nova, Nelson Rodrigues, Garrincha, Flamengo, Carmen Miranda – tudo muito carioca. Isso, para não falar em “Carnaval no fogo: Crônica de uma cidade excitante demais”, um de seus livros mais deliciosos e que traça um panorama dos 500 anos do Rio. Para quem duvida, aqui vai um trecho de “Carnaval no fogo“:

    “Se [Américo] Vespúcio voltasse hoje à cidade, quinhentos anos depois, como seria? Em 1502, ao defrontar-se com o Pão de Açúcar, ele vira na Guanabara algo muito parecido com a ideia que os antigos faziam do Paraíso: um carnaval de montanhas, serras, praias, enseadas, ilhas, dunas, restingas, manguezais, lagoas e florestas, tudo sob um céu que não tinha fim. Uma obra-prima da natureza, habitada por uma gente feliz, bronzeada e amoral: homens e mulheres que viviam cantando e dançando ao sol, todo mundo nu, fornicando alegremente nas matas e areias, dormindo em redes ao luar ou em românticas choupanas de palha, e com uma abundância de frutas, pássaros e peixes ao alcance da mão – ninguém precisava plantar, só colher, e vida que segue. Uma vida tão feliz e paradisíaca que deixava muito mal a ideia, então corrente entre os jesuítas,de que os selvagens não tinham ‘alma’.

    Em 2002, Vespúcio veria semelhanças e diferenças na insuperável coleção de cartões-postais. A baía seria o mesmo espetáculo, só que agora, se estudada de perto, turvada por corpos estranhos como garrafas plásticas, pneus velhos ou mil toneladas de óleo vazadas no mar por um petroleiro. O recorte do litoral continuaria um escândalo, mas Vespúcio, que o conhecera virgem, perceberia que sofrera alterações – aonde teriam ido parar as dezenas de mimosas enseadas, ilhotas e prainhas? Já as grandes montanhas estariam firmes como sentinelas, embora o verde tivesse diminuído consideravelmente. A temperatura também subira para valer, e ele ficaria louco para tirar aquelas calças justas de veludo e o casacão elisabetano. Mas nem toda intervenção humana na paisagem seria condenada por Vespúcio – ele certamente adoraria o bondinho, preso por cabos, subindo e descendo o Pão de Açúcar. E, para onde quer que olhasse, veria a explicação para tantas transformações: no lugar da aldeia de esparsas choupanas surgira uma cidade, com prédios altos e brancos, povoada por 5.8 milhões de habitantes, chamados de “cariocas” – quase todos com alma”.

  • Por quê?

    Por quê?

    A mulher começou a tirar os objetos, um por um, da gaveta aberta. Papéis, pastas, recortes. Muitos envelopes, de vários tamanhos. Canetas, lápis. E, principalmente, muitas caixas. Caixas pequenas, médias, de papelão, de madeira, de plástico duro. Algumas tinham tachinhas, elásticos, essas coisas pequenas. Mas outras não tinham nada. A mulher não sabia por que, ao longo de todos aqueles anos, tinha acumulado tantas caixas dentro da gaveta.

    De repente, ela se lembrou de uma história. Alguém lhe contara, não sabia mais quem: uma filha do escritor Guimarães Rosa, quando era criança, tinha recebido do pai, de presente, uma caixinha cheia de acentos circunflexos. Quem mais, a não ser Guimarães Rosa, poderia ter a ideia de dar à filha pequena uma caixinha de acentos circunflexos? Acentos de vários tamanhos e tipologias, recortados com todo capricho de páginas de jornais e revistas. A caixa estava cheia até em cima.

    A mulher continuou tirando os objetos da gaveta, um a um. A maioria ia para o lixo. Alguma coisa, que lhe parecia valer a pena guardar, ela colocava dentro de uma sacola grande, para levar consigo. E, enquanto continuava com sua tarefa, ia pensando. Assim como a filha de Guimarães Rosa, ela também queria ter uma caixinha, mas não de acentos circunflexos – e sim de porquês.

    Por quê? Era uma pergunta que se fazia sempre, que fizera pela vida inteira, a respeito de tudo. Ao mesmo tempo, tinha orgulho de saber manejar os porquês. Por que o porquê às vezes é junto, às vezes é separado? Porque sim. A mulher gostava de brincar com seus porquês.

    Mas agora não havia qualquer motivo para brincadeira. O mundo de repente parecia imensamente triste. No mesmo dia em que abriu o jornal de manhã e viu a fotografia do menino morto, a mulher soube que estava indo embora. Depois de tantos anos de trabalho. Por quê?

    Era absurdo, era injusto. Era assustador.

    Tornou a olhar a gaveta. Faltava pouco, tinha muita bobagem ali. Jogou os últimos envelopes fora, as canetas velhas. Puxou a gaveta e virou-a de cabeça para baixo, para que a poeira acumulada nos cantos caísse na lata de lixo. Depois reencaixou-a no lugar e ficou olhando para a gaveta aberta. E só então entendeu que aquela gaveta, que parecia vazia, na verdade estava cheia de porquês.

  • Um par de livros

    Um par de livros

    As capas têm um colorido parecido e eles formam um par. São os dois livros de crônicas, um meu e o outro do Ruy Castro, que acabam de sair da gráfica. “O amigo do vento” (meu) e “A melancia quadrada” (do Ruy) foram publicados pela editora Moderna e são voltados para o público jovem.  A ideia de fazer esses dois livros surgiu durante a FLIP do ano passado, a partir de um encontro com a diretora da Moderna, Maristela Petrili, que nos fez o convite.

    Os textos que eu e Ruy escrevemos, cada um no seu estilo, foram, em sua maioria, publicados em jornais e revistas e trazem reflexões sobre gente, bichos, vida moderna, tecnologia, literatura e outros assuntos. Os dois livros fazem parte do Projeto de Leitura da editora Moderna, que elaborou também uma apostila com recomendações para a leitura em sala de aula, incluindo propostas de atividades paralelas, como indicação de filmes, músicas, pesquisas e livros sobre assuntos correlatos.

    Abaixo, trecho de uma das crônicas de “O amigo do vento” (O menino e a catedral):

    “Estranho que entrassem na sala de jantar em dia de semana. Nunca faziam isso. Ouviu primeiro os passos, depois o ruído dos ferrolhos da janela, bem perto de onde estava. Continuou quieto (embaixo da mesa). Talvez fosse por causa da festa no dia seguinte. Com certeza iam abrir a sala para arejar. Agora, um barulho surdo, como um soco. em seguida, o estalo das janelas contra as paredes externas. E o sol inundou a sala, num segundo. O menino piscou os olhos, atordoado. Depois abriu-os bem. E sorriu, com surpresa. Um raio de sol varava a renda, despejando-se no chão, onde estava ajoelhado. A luz, incidindo sobre o tecido do forro, tornara cor de pêssego o ar à sua volta, onde voejavam grãos de poeira, como se fossem pássaros num templo abandonado. Seu pequeno mundo – o mundo onde as coisas existiam pelo avesso – brilhava.”

    E trecho de uma das crônicas de “A melancia quadrada” (O ovo na legalidade):

    “É a mais completa reabilitação de um suposto criminoso na história da humanidade. O ovo – o querido ovo, fruto da galinha (às vezes, com participação do galo como astro convidado), objeto cujo design é uma maravilha de projeto e acabamento –, volta ao círculo social depois de décadas como inimigo público número 1. Durante quase toda a segunda metade do século XX, médicos e cientistas dedicaram-se a acusar o ovo dos piores crimes contra o coração e a responsabilizá-lo pela elevação dos níveis de colesterol a placares de basquete americano. Quem fosse cardíaco, não chegasse perto; quem não fosse, idem, para prevenir. Às galinhas, só restava submeter-se ao holocausto reservado à sua espécie e ao opróbrio para o seu produto.”