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  • Os livros falam

    Os livros falam

    Os livros falam. A frase me paralisou. Fiquei olhando para ela, o jornal aberto entre as mãos. Quem disse isso foi Ana Beny, que trabalha restaurando livros e manuscritos na Espanha e no Egito, em entrevista à repórter Cristina Tardáguila. Ela explicava que, pelo formato das páginas, por suas manchas e dobras, pelos pontos mais gastos do papel – dá para adivinhar tudo: a postura, os hábitos, até os vícios de quem lê. Observando livros e manuscritos que já restaurou, ela sabe, por exemplo, que os monges europeus da Idade Média liam de pé, durante as refeições. Ou que os islâmicos liam em posição de lótus, com os livros apoiados em prateleiras em forma de x.

    Essa memória gravada no papel tem uma beleza singular e já é, por si só, razão para que o objeto livro continue existindo para sempre. Digo isso em uma semana diferente, a semana em que, depois de resistir por mais de cinco anos, acabo de entrar para o Facebook. Eu, que sempre fui uma pessoa tímida na vida real, tendo poucos (mas muito queridos) amigos, me vejo de repente em meio a essa avalanche de contatos, revendo rostos que parecem saltar do passado, encontrando centenas de pessoas com quem nunca conversei. Assombrada e fascinada por tudo isso, abro de repente o jornal e leio a frase de Ana: os livros falam.

    Ana dá conselhos: não mantenha os livros em um lugar onde você não gostaria de ficar, um porão frio demais, ou quente demais, ou úmido demais. Essa comparação do livro com uma pessoa, esse cuidado com seu bem-estar, me faz pensar em um conto mínimo que escrevi há muito tempo, no qual descrevia a maneira como Alma Mahler cuidava de seus livros mais queridos – embalando-os em um berço. Os livros físicos ainda são um objeto de amor.

    Espero que eles não desapareçam. Como, aos poucos, vão desaparecendo sebos e livrarias. Como já desapareceram os rascunhos, os rastros deixados pelos escritores em sua luta pela palavra certa. Os manuscritos não existem mais. Tudo o que escrevemos vai sendo apagado e tragado para esse imenso limbo onde dormem as palavras mortas.

    Por isso, a frase de Ana me tocou tanto. Atenção: os livros falam.

    Recebo-a quase como uma sentença, um alerta, uma admoestação. Cuidado. O mundo virtual é uma espiral sem fim, linda e terrível como toda arma capaz de transformar a humanidade. Mas não esqueça dos livros, feitos de polpa e tinta, de páginas palpáveis, cheiros, sons. Não esqueça. Nunca.

  • Sempre aos domingos

    O desafio de um conto minúsculo. Letras, ideias, sensações, contidas no espaço exíguo circunscritas, prisioneiras. Um pequeno espaço, para nele despejar um oceano inteiro de paixões secretas.

    Mas não será como enxurrada, avalanche, enchente. Terá de ser gota a gota.

    Na verdade, vivemos assim, todos nós. Espremidos num tempo que se esvai tão depressa, tentando a todo custo deixar nossos rastros sobre a terra.

    Vivemos um conto mínimo.

     

    Esse pequeno texto que está aí em cima foi o primeiro Conto Mínimo que escrevi na vida, no dia 29 de setembro de 1997 – há quase duas décadas, portanto. O texto saiu na Ilustrada, caderno de cultura do jornal Folha de S. Paulo, e o espaço que me fora reservado tinha a largura de uma coluna e apenas 12 centímetros de altura (o que incluía o título). Na tela do computador, eram seis, sete linhas no máximo. Quase um hai-kai.

    Foram dois anos colaborando com a Folha, duas vezes por semana, até a estreia na Revista de Domingo do Jornal do Brasil, no dia 16 de maio de 1999. Ali, os Contos Mínimos ganhariam mais espaço – uma página inteira – e também mais repercussão, acabando por me fazer viver muitas experiências fortes com leitores e leitoras.

    Numa delas, durante uma palestra no Centro Cultural Banco do Brasil, uma senhora me perguntou se eu tinha ideia da responsabilidade do escritor e de sua capacidade de transformar a vida das pessoas. Surpresa, sem saber bem o que responder, balbuciei alguma coisa. Mas ela continuou: disse que um texto meu a tirara de uma depressão e a fizera voltar a fazer algo que fazia antes ler para pessoas cegas. Perguntei que texto era e ela, em resposta, começou a dizê-lo em voz alta. Sabia o Conto Mínimo inteiro de cor. Nunca mais esqueci essa cena.

    Trocamos telefones e mantemos contatos esporádicos. Pois há poucos dias ela me ligou, para me convidar para o lançamento de seu quarto livro. Depois daquele encontro no CCBB, tinha começado a escrever. E não parou mais.

    Esse tipo de contato direto com o leitor sempre me foi proporcionado pelos Contos Mínimos, porque a exposição na grande imprensa é muito maior e a resposta é mais imediata do que nos livros. Talvez por isso, os Contos Mínimos têm sido muito utilizados em provas e trabalhos escolares, tendo sido compilados em vários livros, o que sempre foi motivo de alegria para mim.

    Em 2006, depois de sete anos no JB, os Contos Mínimos chegaram ao fim, porque o próprio jornal tão importante, tão querido ­ já estava se acabando. Mas desde então, por todos os lugares do Brasil aonde vou, encontro pessoas que me falam daqueles textos, e perguntam: você não escreve mais?

    Por isso, decidi voltar a escrevê-los, aqui, neste espaço. Espero ter a disciplina para fazê-los toda semana, sempre num dia certo, como era antigamente. E, em homenagem ao JB, acho que vou fazer isso sempre aos domingos.

  • Prêmio Bibi Ferreira: 6 indicações

    Prêmio Bibi Ferreira: 6 indicações

    Eu e Julia Romeu fomos indicadas ao prêmio Bibi Ferreira 2014/2015, pela autoria do roteiro do musical “Bilac vê estrelas”. Além de Melhor Roteiro Original, “Bilac” teve outras cinco indicações ao Bibi Ferreira: Melhor Musical, Melhor Musical Brasileiro, Melhor Música (Nei Lopes), Melhor Ator (André Dias) e Melhor Ator Coadjuvante (Caike Luna, que substituiu Tadeu Aguiar no papel de Padre Maximiliano na temporada paulista).

    O prêmio Bibi Ferreira, criado há apenas três anos, é dedicado exclusivamente ao teatro musical. A entrega dos prêmios será no dia 14 de outubro próximo, no Theatro Municipal de São Paulo, em cerimônia de gala (com black-tie e tapete vermelho, como os paulistas gostam de fazer).

    Depois de quatro meses em cartaz no Rio (no Teatro Sesc Ginástico em janeiro e fevereiro, no circuito Sesc de teatros em março e no Teatro dos Quatro, na Gávea, em maio), “Bilac vê estrelas” fez uma temporada de dois meses em São Paulo, no Teatro Promon, tendo tido, em ambas as praças, bom sucesso de público e críticas excelentes. Só entre os prêmios Shell, Cesgranrio e Bibi Ferreira, foram até agora 13 indicações em várias categorias, incluindo música, direção musical, ator, atriz e figurino.

  • A caixa do imponderável

    A caixa do imponderável

    Ainda me lembro muito bem daquela tarde de primavera, em 2010, quando entrei pela primeira vez nos bastidores de um teatro – no caso, o Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes – para assistir a um ensaio. A luz começava a cair quando cruzei a praça e entrei no velho teatro pela porta lateral. Eu estava ali para assistir ao ensaio do musical Era no tempo do rei, do qual era co-roteirista. Cumprimentei o guarda, me identifiquei e entrei. Depois de subir a meia dúzia de degraus que levava a uma espécie de hall de serviço, olhei em torno e não vi ninguém. Por alguns segundos, fiquei desorientada, sem saber o que fazer. Mas havia diante de mim uma porta de mola, sem maçaneta, e pensei ter ouvido um murmúrio por trás dela. Empurrei essa porta e, ao fazer isso, penetrei num outro mundo – o mundo do teatro. De suas entranhas, de seu avesso. A porta de mola me colocou dentro dele, de imediato. Não era noite, nem dia naquele lugar. Não era hoje, nem ontem. Era teatro.

    O lugar onde se prepara um sonho é um mundo irreal, que nos envolve e cobre como água, que nos entra pelos poros, como eu logo iria constatar. É diferente de simplesmente assistir a uma peça. É conhecer o outro lado do espelho.

    Estava escuro, mas percebi que ali era a coxia. Olhei para cima. Um pé-direito altíssimo, todo cruzado de barras e vergalhões, onde se plantavam dezenas de pontos de luz. Baixei os olhos. O chão escuro estava cheio de armadilhas, uma trama de cabos, fios e objetos cujo formato eu mal podia discernir. Sentia-me um pouco como Alice no País das Maravilhas, com uma mistura de alegria e ansiedade, de fascínio e medo por entrar naquele reino desconhecido. Mas fui em frente.

    Sem querer atrapalhar os atores, que a essa altura se movimentavam pelo palco, ensaiando, esgueirei-me por aquela teia de fios e cabos e, tateando, desci pela escadinha lateral que vai dar na plateia. Com um cumprimento de cabeça, de longe, saudei o diretor e seus assistentes, que estavam sentados. Não queria interromper. Fui para uma fila lá atrás e afundei em uma das poltronas, cada vez mais fascinada.

    Sob as luzes irreais que varriam a cena, pessoas que outro dia mesmo eu conhecera e com quem conversara – pessoas normais, sorridentes ou sérias, pessoas como qualquer um de nós, com incertezas e anseios – estavam transformadas. Eram personagens. Eram magia. Eram música e letra, eram fantasia. Eram teatro.

    Foram horas assim. Horas em que me vi submersa naquele mundo único, iluminado e surreal. Talvez eu nem devesse falar em horas, porque ali dentro o tempo passa num tempo próprio. Seja como for, quando afinal saí, eu também estava transformada.

    Com novo cumprimento ao guarda, cruzei o portão externo e me vi novamente na Praça Tiradentes. Era noite alta, já. As ruas do Centro do Rio estavam desertas, exceção feita a um ou outro mendigo dormindo pelos bancos. Ao fundo da praça, a fachada iluminada do Real Gabinete Português de Leitura, de uma beleza suave e lilás, aumentava a sensação de solidão. Era estranho pensar como a vida ali fora continuara, a vida comum, fora do tempo do teatro, aquele tempo atemporal no qual eu penetrara. Um tempo que, com sua mágica, parece ter o poder de fazer o mundo parar de girar.

    Hoje, cinco anos e mais algumas experiências teatrais depois, continuo deslumbrada com esse espaço de mistério que é o palco, essa caixa do imponderável que é o teatro, um lugar onde tudo pode acontecer e onde, a cada noite, cada espetáculo é único e irrepetível. Se naquela tarde na Praça Tiradentes eu me espantei com as entranhas do teatro, continuo, ainda hoje, descobrindo novos e novos motivos de deslumbramento, tanto no longo processo de ensaios quanto na hora da encenação para valer.

    Lembro, por exemplo de um desses momentos. Foi em uma arena num subúrbio do Rio, onde íamos encenar minha peça O lugar escuro, sobre a doença de Alzheimer. É um tema pesado e tínhamos dúvidas sobre como seria a reação do público. Depois de uma temporada bem-sucedida em Copacabana, estávamos fazendo a primeira de doze apresentações gratuitas (bancadas pela Prefeitura do Rio) em lonas e arenas culturais, espaços voltados para pessoas com menor poder aquisitivo. Fomos todos, atores, técnicos, diretor, produtores e eu, numa van, atravessando os subúrbios cariocas na hora do rush, enfrentando um engarrafamento monstro e um temporal assustador. Depois de mais de duas horas de viagem, chegamos à arena onde seria realizada a peça. E descobrimos que estava faltando luz.

    Ficamos do lado de fora, no pátio, esperando, sem saber bem o que fazer. Era impossível entrar na arena, lá dentro era só negror. Até poucos minutos antes da hora da peça, continuávamos sem saber se haveria espetáculo. Aí a energia voltou. As atrizes foram para o camarim e começou uma correria. Alguns minutos depois, os portões foram abertos e o público entrou. Eram poucas pessoas – claro, com aquela loucura de temporal e falta de energia. E com um detalhe: entre os espectadores, havia pelo menos umas vinte crianças de menos de 10 anos. Sentada no meio da plateia, fiquei me perguntando como seria a reação daqueles meninos (o espetáculo era recomendado para maiores de 12 anos) diante de um texto falando sobre velhice, doença e morte. Esperei.

    Assim que a peça começou, percebi que os meninos e meninas estavam de olhos muito abertos, em atenção máxima. Apenas, de vez em quando, cochichavam entre si. Apurei os ouvidos para ouvir o que diziam – e fiquei impressionada. Eles estavam entendendo tudo! Foi um dos públicos mais atentos e receptivos de todas as temporadas de O lugar escuro. Ao final, nossa grande atriz Camilla Amado, que fazia o papel da mulher com Alzheimer, desceu do palco e veio confraternizar com os meninos. Todos a cercaram e abraçaram, como se ela ganhasse ali mais de uma dúzia de netos. Foi uma grande emoção.

    Agora, com mais um trabalho em cena – o musical Bilac vê estrelas –, a emoção se renova. Depois de nossa temporada inicial, de dois meses, no Teatro Ginástico, no Centro da cidade, fomos fazer o circuito Sesc, em vários bairros e localidades do Grande Rio. Estava eu em um desses teatros, em Nova Iguaçu, para onde tinha ido no meio da tarde, no micro-ônibus da produção. A maior parte dos atores tinha ido conosco, mas dois deles, Tadeu Aguiar e Sérgio Menezes, precisaram ir mais tarde e, por isso, foram juntos, de carro. Só que chovia muito e eles pegaram um grande engarrafamento. Tentando escapar, consultaram um aplicativo com opções de trânsito e sem querer enveredaram por locais desconhecidos. Quando se deram conta, estavam em uma ruela escura, miserável. Anoitecia. De repente, o carro deles foi cercado por vários homens de motocicletas, com armas na mão. Os bandidos levaram tudo: o carro e todos os pertences deles, dinheiro, relógios, celulares, documentos. Largados sozinhos no meio da favela, sob a chuva, os dois atores conseguiram um celular emprestado e ligaram para alguém da produção, que foi buscá-los, enquanto, no teatro, todos nós aguardávamos, na maior aflição.

    Quando os dois atores chegaram – trêmulos, encharcados –, eu pensei que o melhor a fazer seria suspender o espetáculo. Mas não. Tadeu e Sérgio foram para seus camarins e dali a poucos minutos começava a peça. Eu me perguntava como seria.

    Pois foi uma surpresa. Lá estavam eles, parecendo completamente à vontade, concentrados, perfeitos em sua atuação. Bilac vê estrelas é uma comédia musical, onde os atores cantam, dançam, movimentam-se muito – e fazem rir. Como eles conseguiam?, eu me perguntava. Como podiam ser tão leves e engraçados tendo acabado de passar por uma experiência extrema, brutal, de risco de vida? É que ali dentro, naquele espaço de sonho que é o teatro, tudo fica em suspenso. Sobre o palco – essa pátria, esse porto seguro dos atores – nada de mal pode acontecer.

     

    Texto meu publicado na revista Florense (agosto 2015)

  • Agora é o Prêmio Shell

    Agora é o Prêmio Shell

    Nosso musical “Bilac vê estrelas” recebeu mais uma indicação de prêmio: desta vez foi a de Melhor Música (trilha original de Nei Lopes), pelo Prêmio Shell de Teatro 2015. Ao contrário de outros prêmios, o Shell, referência no teatro brasileiro, não inclui outras categorias específicas para teatro musical (Melhor Ator ou Atriz de Teatro Musical, melhor Direção Musical etc). A peça “Salina, a última vértebra” teve o maior número de indicações, com quatro (direção, atriz, figurino e inovação).

    Às montagens indicadas agora se juntarão as produções do segundo semestre, que serão anunciadas em dezembro. O júri do Rio de Janeiro se manteve o mesmo da última edição, formado por Ana Achcar, Bia Junqueira, João Madeira, Macksen Luiz e Moacir Chaves. O Shell concede a cada categoria um prêmio no valor de R$ 8 mil. Os vencedores deverão ser conhecidos em março de 2016.

    A caricatura mostrada no alto deste post é do cartunista Paulo Caruso, feita enquanto ele assistia ao espetáculo em São Paulo.

  • Ora, direis, amendoeiras!

    Ora, direis, amendoeiras!

    Poesia – ou amendoeiras – numa hora dessas? Falar em árvores a essa altura da vida, com o Brasil mergulhado em uma crise econômica, política e institucional que não se via há décadas, pode até parecer fútil. Mas as amendoeiras são anteriores à crise, são maiores do que ela e, se deixarmos, ainda estarão aqui muitos anos depois que a confusão terminar. Por isso, é delas que vou falar. Sou uma observadora minuciosa da cidade e entre as coisas que mais observo estão as árvores. Então, posso dizer sem medo de errar: as árvores das ruas do Rio nunca foram tão mal-tratadas.

    Vou falar da Zona Sul, porque é onde vivo, mas imagino que a situação não deva ser diferente em outras regiões da cidade. As amendoeiras que se espalham pelas ruas de Ipanema e Leblon estão em estado lastimável. As obras do metrô pioraram tudo, mas a situação já estava ruim antes de começar a buraqueira.

    A transformação começou há cerca de cinco anos, com a adoção de uma nova maneira de podar as árvores. Em vez do corte dos galhos mais altos, para deixar entrar a luz, fortalecer o miolo da árvore e fazê-la encorpar-se sem crescer demais, a poda passou a ser feita por baixo. O resultado são árvores de troncos muito altos, com a copa lá em cima, o que as torna instáveis. Não por acaso, em temporais recentes houve duas ou três ocasiões em que se registrou a queda de mais de cem árvores pela cidade.

    Mas a poda mal-feita é apenas uma das questões. Agora, talvez com a desculpa de que, com as obras do metrô e a crise econômica, cuidar de árvores é algo secundário, estão deixando que parasitas de todos os tipos tomem as amendoeiras. Em algumas ruas do Leblon (a General Artigas é um exemplo), ou ainda na avenida Epitácio Pessoa, no trecho do Jardim de Alah, a maioria das amendoeiras está sufocada pela terrível erva-de-passarinho, capaz de matar uma árvore. E ninguém toma providências.

    A implicância das autoridades com as amendoeiras vem de longe. Por causa de suas raízes inquietas, que racham as calçadas, a Prefeitura do Rio se recusa a replantá-las desde a década passada. Para cada amendoeira que tomba, surge em seu lugar uma árvore de outra espécie. Há também contra elas a queixa de que suas folhas, quando caem, entopem os bueiros. E, por último, a alegação de que não são nativas, mas árvores exóticas, e que não têm o direito de estar entre nós. Com essa política, no futuro não restará uma só amendoeira nas ruas do Rio.

    Dizem que as sementes das amendoeiras vieram para cá misturadas à areia usada para fazer lastro nos navios e que floresceram no litoral por causa de sua grande resistência à água salgada. Ou que elas começaram a ser plantadas com a chegada da Corte, porque os nobres portugueses que aqui viviam tinham saudades do outono europeu. Mas sem dúvida foi por sua semelhança com os plátanos, espécie muito presente nas ruas da capital francesa, que amendoeiras foram plantadas em torno de toda a Praça Paris, quando esta foi construída, em 1929. O fato é que elas estão aqui há muito tempo, pois resta no Passeio Público pelo menos uma amendoeira de 150 anos.

    Tenho uma conhecida que morou mais de quarenta anos em Nova York e que, ao chegar ao Rio, sua cidade natal, gostava de sentir o cheiro das amendoeiras. Quando ela me disse isso, achei estranho, pois não sabia que amendoeiras exalam cheiro. Mas depois prestei atenção e vi que têm, sim. “É o perfume do Rio”, dizia ela. Precisava alguém vir de fora para me dizer isso: que a amendoeira é coisa nossa. Com ou sem crise, as árvores estão aí, são parte da paisagem carioca. Sem elas, não formaremos um todo.

     

    Texto publicado por mim no jornal O Globo em 12 de julho de 2015

  • ‘Bilac’: 6 indicações ao Prêmio Cesgranrio

    ‘Bilac’: 6 indicações ao Prêmio Cesgranrio

    Nosso musical ‘Bilac vê estrelas’ recebeu nada menos que seis indicações para o Prêmio Cesgranrio de Teatro 2015: Melhor Direção Musical (Luís Filipe de Lima), Melhor Ator de Musical (André Dias), Melhor Atriz de Musical (Alice Borges e Izabella Bicalho), Melhor Figurino (Carol Lobato) e Categoria Especial (Nei Lopes, pela trilha original da peça). Outra peça que também se destacou foi ‘Krum’, com sete indicações.

    Os indicados foram escolhidos entre as peças que se apresentaram no primeiro semestre de 2015. No fim do segundo semestre, eles anunciarão mais uma leva de indicados, e os vencedores serão premiados em janeiro do ano que vem. Além dos troféus, o vencedor de cada categoria ganha R$ 25 mil.

    O júri do Prêmio Cesgranrio é formado por Jacqueline Laurence, Carolina Virguez, Daniel Schenker, Lionel Fischer, Macksen Luiz, Mirna Rubim e Tânia Brandão.

    Confira a lista completa dos indicados:

    Melhor Direção
    Ana Teixeira por “Salina”
    Daniel Herz por “Meu saba”
    Marcio Abreu por “Krum”

    Melhor Ator
    Danilo Grangheia por “Krum”
    Ranieri Gonzalez por “Krum”
    Rogério Fróes por “Família Lyons”

    Melhor Atriz
    Ana Beatriz Nogueira por “Um pai”
    Grace Passô por “Krum”
    Suzana Faini por “Família Lyons”

    Melhor Espetáculo
    “Krum”
    “Meu saba”
    “Salina”

    Melhor Cenografia
    Bia Junqueira por “Meu saba”
    José Dias por “Eugenia”
    Lorena Lima por “Consertam-se imóveis”

    Melhor Iluminação
    Aurélio Di Simoni por “Meu saba”
    Nadja Naira por “Krum”
    Renato Machado por “Madame Bovary”

    Melhor Figurino
    Ana Teixeira e Stephane Brodt por “Salina”
    Carol Lobato por “Bilac vê estrelas”
    Patricia Lambert por “Madame Bovary”

    Melhor Texto Nacional Inédito
    Daniela Pereira de Carvalho por “Contra o vento”
    Keli Freitas por “Consertam-se imóveis”
    Leonardo Netto por “Para os que estão em casa”

    Categoria Especial
    Bruno Lara Resende pela adaptação de “Madame Bovary”
    Marcia Rubin pela direção de movimento de “Krum”
    Nei Lopes pela trilha original de “Bilac vê estrelas”

    Melhor Direção Musical
    Alexandre Elias por “S’imbora – O Musical”
    Luís Filipe de Lima por “Bilac vê estrelas”
    Marcelo Alonso Neves por “Contra o vento”

    Melhor Ator em Musical
    André Dias por “Bilac vê estrelas

    Ícaro Silva por “S’imbora – O Musical”

    Melhor Atriz em Musical
    Alice Borges por “Bilac vê estrelas”
    Izabella Bicalho por “Bilac vê estrelas”

     

  • ‘Carmen’ recebe dois prêmios

    ‘Carmen’ recebe dois prêmios

    Foi hoje, 10 de junho, a entrega dos dois prêmios que a FNLIJ – Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – deu para o livro “Carmen – A grande Pequena Notável”, biografia de Carmen Miranda para crianças que eu e Julia Romeu escrevemos em parceria. A entrega dos prêmios – Melhor Livro Informativo (não-ficção) e Melhor Projeto Editorial – foi feita durante a cerimônia de abertura da décima sétima edição do Salão FNLIJ, que se realiza até 21 de junho no Centro de Convenções da Sul América, no Rio. Julia Romeu e eu estivemos presentes à cerimônia, ao lado da editora Renata Nakano, para receber os certificados. “A grande Pequena Notável”, lançado no início do ano, é realmente um lindo projeto editorial, com ilustrações de Graça Lima, em estilo art decô, inspiradas em J. Carlos. O livro saiu pela Edições de Janeiro e já tinha recebido o selo da FNLIJ de “Altamente recomendável”.

  • ‘Bilac’ estreia em São Paulo

    ‘Bilac’ estreia em São Paulo

    Depois de cinco meses de sucesso no Rio, nosso musical “Bilac vê estrelas” está agora em São Paulo. A temporada, que vai até 26 de julho, será no Teatro Promon (Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 1830, Vila Olímpia), sempre às sextas, sábados (21h) e domingos (18h). Para quem não sabe, “Bilac vê estrelas” se baseia no livro homônimo de Ruy Castro e é um musical genuinamente brasileiro, com canções originais de Nei Lopes. São modinhas, polcas, fados, lundus, maxixes, fados e outros tantos ritmos, com letras deliciosas e engraçadíssimas.

    Uma parceria minha com Julia Romeu, “Bilac vê estrelas” se passa no início do século XX, em plena Belle Époque carioca, e apresenta personagens históricos como o poeta Olavo Bilac (André Dias) e o jornalista José do Patrocínio (Sergio Menezes), em uma trama cômica que mistura ficção e realidade: os dois amigos têm que enfrentar a cobiça de uma espiã portuguesa (Amanda Acosta), que se alia ao Padre Maximiliano (Caike Luna), interessados no projeto de um dirigível, criado por Patrocínio. O elenco conta ainda com Alice Borges (atriz convidada), Reiner Tenente, Jefferson Almeida, Saulo Segreto, Gustavo Klein, Andrea Dantas, Claire Nativel e Augusto Volcato.

     

    Links para as principais matérias sobre o espetáculo publicadas por Estado e Folha de S. Paulo:

     

    http://cultura.estadao.com.br/noticias/teatro-e-danca,bilac-ve-estrelas-comedia-musical-com-15-cancoes-ineditas-de-nei-lopes-estreia-em-sp,1695486

     

    http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/05/1634908-compositor-do-musical-bilac-ve-estrelas-nei-lopes-critica-broadway.shtml

     

     

  • ‘A grande Pequena Notável’ ganha Prêmios FNLIJ 2015

    ‘A grande Pequena Notável’ ganha Prêmios FNLIJ 2015

    “A grande Pequena Notável”, a biografia de Carmen Miranda para crianças, escrita por mim em parceria com minha filha, Julia Romeu, ganhou o prêmio FNLIJ 2015 (da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil) em duas categorias: Melhor Livro Informativo (não-ficção) e também Melhor Projeto Editorial . Publicado pela editora carioca Edições de Janeiro, “A grande Pequena Notável” tem belíssimas ilustrações de Graça Lima, que fazem lembrar os desenhos de J. Carlos. O prêmio, que abrange várias categorias, é concedido anualmente a publicações voltadas para crianças e jovens. Concorrem editoras de todo o país.

    Foi uma experiência deliciosa escrever para crianças a história dessa artista extraordinária. É para nós uma paixão antiga, que só fez crescer depois que Ruy Castro fez “Carmen – Uma biografia” e, principalmente, depois que Julia e eu escrevemos um musical sobre a vida dela (que ainda não conseguimos botar nos palcos).

    Aqui vão dois trechinhos do livro infantil:

     

    “Quando Carmen e sua família chegaram ao Brasil, tinha tanto português, mas tanto português aqui, que eles se sentiram em casa. Naquela época, a única cidade do mundo que tinha mais alfacinhas do que o Rio era Lisboa, a capital de Portugal. Alfacinha é como chamam os lisboetas, porque na capital portuguesa sempre se plantou muita alface.

    A pequena Carmen deve ter aprendido a engatinhar naquelas pedras tão conhecidas da gente, que formam desenhos em preto e branco e que se chamam – olha só! – pedras portuguesas.”

     

     

    “Carmen era sapeca e desbocada. Volta e meia, soltava um palavrão. Mas era sempre um palavrão engraçado, que escapulia da boca, fazendo todo mundo em volta morrer de rir. Menos seu Pinto. Ele brigava quando ouvia, mas Carmen sabia que o pai não tinha moral para falar: era com ele que ela aprendia todos os palavrões!”