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  • Nem colesterol, nem crise

    Nem colesterol, nem crise

    Assim que chegou ao Rio para o feriado, minha amiga paulistana me telefonou. Queria que eu a levasse ao Samba do Trabalhador. É o nome da roda de samba que Moacyr Luz inventou e que se apresenta, toda segunda-feira, no clube Renascença, no Andaraí (o nome, do Trabalhador, não é ironia, mas referência aos músicos, que folgam nas segundas-feiras). Como não se deve perder a chance de ir a uma roda de samba em dia de semana, aceitei na hora.

    Chegamos cedo e a quadra ainda não estava cheia. Por isso, pudemos ficar na mesa grande, onde os músicos se sentam nos intervalos, e onde são servidas as mais fulminantes iguarias. Já vi passar por ali coisas como moela com jiló, pés de galinha, testículos de boi e outros delírios da baixa gastronomia carioca. Menos de dez minutos depois, apareceram dois homens carregando uma gigantesca estrutura de ferro, quase do tamanho de um carro alegórico. Era um braseiro do qual, enfiado em um espeto, pendia um leitão inteiro. Quando acenderam o fogo, a fumaça tomou conta do ambiente. E os homens fortes levaram o leitão para uma varanda que fica num nível mais alto em relação à quadra. Assim, a fumaça não ia incomodar.

    Enquanto o leitão rodava em seu espeto lá em cima, as mesas em torno de nós recebiam pratos e mais pratos lotados de torresmo, frango a passarinho e aipim frito. Falando aos gritos no ouvido uma da outra, porque o samba já estava a toda altura, eu e minha amiga comentávamos sobre as pessoas à nossa volta. Muitas estavam acima do peso – o que não era de se estranhar, com aquela dieta –, mas ninguém parecia se importar. “Aqui, o colesterol não existe”, falei. “Ninguém se incomoda com a balança”.

    Era verdade. As pessoas, principalmente as mulheres, pareciam satisfeitas com o próprio corpo. Era notável, isso transparecia. A maioria usava roupas justas, sensuais, shortinhos minúsculos, blusas de frente única ou tomara-que-caia. A satisfação estava em cada gesto, volteio e rebolado.

    E o samba ia ficando cada vez mais quente.     A quadra era uma multidão compacta, mais de duas mil pessoas. De onde estávamos, já não enxergávamos o tronco da enorme caramboleira, única árvore no pátio cimentado. E mal conseguíamos divisar os músicos da roda, embora eles estivessem em cima de um tablado. Mas vimos quando Teresa Cristina subiu para dar uma “canja”. E, espiando na ponta dos pés, vimos também o francês Nicolas Krassik tocando “Brasileirinho” ao violino, acompanhado por toda a percussão. E o desafio dos pandeiros – três pandeiristas tocando juntos e criando os mais fantásticos desenhos com um instrumento tão simples. E vibramos quando um velho passista da Mangueira, vestido de verde e rosa, subiu no tablado e começou a sambar como se saído de antigos carnavais.

    De repente, meus olhos se fixaram na varanda para onde o leitão tinha sido levado. E lá estava o que restara dele: só o espinhaço. Tinham devorado o bicho inteiro! Passou então por mim uma gordinha de short, equilibrando nas mãos um prato cheio de lascas de uma carne dourada. Do leitão, claro. A moça estava acompanhada do namorado, que não largava a mão de sua cintura.

    “Conheço mulheres lindas, magras, que vivem reclamando por não ter namorado”, suspirou minha amiga. “E ainda pagam 300 reais por cada sessão de análise”. Eu ri. E tornei a olhar em volta: aquele lugar era um espaço de prazer, de deleite – e, acima de tudo, de liberdade. Quem vai ao Renascença sabe que não estou exagerando. Lá não existe crise, mensalão ou petrolão. Lá o Brasil deu certo. E toda segunda-feira, durante algumas horas, é proibido não ser feliz.

     

    Artigo publicado por mim no jornal Folha de S. Paulo em 19/05/2015

     

     

  • O silêncio de Yellow

    O silêncio de Yellow

    Ela era uma gata silenciosa. Tinha um miado baixinho, curto — quase a dublagem de um miado. Quando me olhava nos olhos, soltava aquele seu ruído, que às vezes me parecia uma reclamação. No mais, quase não falava. Sua maneira de se comunicar era corporal, esfregando-se nos móveis, esparramando-se de barriga para cima ao sol, subindo no sofá e deitando-se ao meu lado para pedir carinho. E pedia assim: em silêncio.

    Depois de subir no sofá, me olhava com um olhar significativo e se acomodava ao meu lado, de costas para mim, expondo o dorso como a me dizer que era ali que queria receber o afago. Se por acaso eu estava distraída e não a acariciava, ela virava a cabecinha e me olhava, como quem diz: “E aí?” Mas tudo sem emitir qualquer som.

    Na semana passada, ela caiu doente. E agiu como os gatos agem quando estão sentindo alguma coisa: ficam quietos. Gatos não gemem, não soltam ganidos. Gatos sofrem em silêncio. Acho que essa reação decorre de sua natureza altiva, de uma coragem selvagem que lhes corre nas veias. E da característica que está em todos eles, que os acompanha pela vida inteira: a dignidade.

    À noite, não ouvimos nada. Nenhum movimento anormal. E de manhã, ao acordar, fomos encontrá-la na poltrona onde às vezes gostava de dormir — morta.

    Não era jovem, tinha 16 anos já, o que é muita idade para um gato. Mas estivera até pouco tempo antes muito bem, gorda e saudável. Aquela morte nos pegou de surpresa. Ou talvez seja mesmo assim, a morte nos transmitindo sempre uma sensação de perplexidade.

    Na noite seguinte, antes de irmos deitar, sentamos no sofá da sala, na penumbra, para conversar, um ritual que cumprimos sempre, e no qual éramos acompanhados pela gatinha. Fiquei olhando de soslaio para o espaço vazio no sofá ao meu lado. Era madrugada, já. A rua estava silenciosa. Nós também. Talvez por isso, por nosso silêncio, comecei a prestar atenção no tique-taque do relógio, um relógio antigo, de mesa, que temos há muitos anos. Era um tique-taque tão alto que me chamou a atenção. Nunca tinha notado que o mecanismo daquele relógio batia com tanta força.

    Quando acordei, de manhã, voltei a me sentar na sala, sozinha. Do lado de fora das janelas, duas borboletas brancas voejavam por entre as folhas das amendoeiras. Ao longe, o mar. Mas não havia o burburinho dos banhistas a caminho da areia, as vozes dos porteiros, dos vendedores, nada. A manhã de sábado estava estranhamente quieta. E foi quando prestei atenção outra vez no tique-taque do relógio. Lá estava ele, batendo alto como nunca. Então entendi: era o silêncio em torno que fazia seu mecanismo reverberar, sobressair. O silêncio de um vazio.

     

     Para minha gatinha, Yellow (1999-2015)

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

  • Não desista de nós, Bob

    Não desista de nós, Bob

    Os órgãos de fiscalização da Prefeitura do Rio de Janeiro decidiram pôr abaixo todos os imóveis dos morros da cidade que apresentem alguma forma de irregularidade em sua construção.

    Calma, não se assuste. Claro que a frase acima é uma notícia fictícia. Sabemos muito bem que uma medida dessas seria inviável, impossível, impraticável. Significaria pôr abaixo a maioria das casas de quase todas as comunidades do Rio. Pois então eu me pergunto: por que aplicar a rigidez da lei justamente contra o albergue The Maze, que existe há mais de 30 anos na favela Tavares Bastos, no Catete?

    A Secretaria Municipal de Urbanismo (SMU) ordenou a demolição dos seis pavimentos do albergue, sob a alegação de que a construção ameaça desabar sobre as casas de baixo. O órgão da Prefeitura parece irredutível, apesar de todos os esforços feitos nos últimos anos pelo dono, o inglês Bob Nadkarni, para conseguir regularizar a construção. Será possível que não haja uma maneira de se contornar o problema, sem precisar demolir o albergue?

    Minha proposta não é de que se burle a lei, mas que haja uma flexibilização, de forma a dar oportunidade para que não se perca uma história tão bonita de amor ao Rio e ao Brasil. The Maze não é apenas mais um hostel, como tantos que têm surgido nos últimos anos. É a materialização da história de amor de um homem por nosso país.

    Bob Nadkarni chegou aqui de navio em 1972. Estava a caminho do Equador, mas se apaixonou pelo Rio e pelo Brasil – e decidiu ficar. Algum tempo depois, conheceu a Tavares Bastos e também se encantou. Foi morar lá e se transformou em um benfeitor do lugar – lutou, entre outras coisas, pela instalação, dentro da comunidade, da sede do BOPE (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar), que foi muito importante para a pacificação da favela. E isso dez anos antes das UPPs.

    A pacificação no Rio mal começava quando estive na Tavares Bastos em 2010 e conversei com ele. Comemos bolo de chocolate na varanda do albergue, com a beleza da vista se descortinando para nós, o Pão de Açúcar ao fundo. Ouvi, fascinada, as histórias desse inglês tão carioca, generoso e bonachão. Soube depois que ele já tinha ajudado muita gente e era adorado na favela. Talvez tenha incomodado algumas pessoas com sua disposição de lutar pela comunidade. Isso explicaria a chuva de denúncias surgidas contra The Maze nos últimos anos.

    Bob Nadkarni foi importante para a consolidação da Tavares Bastos como polo de cinema, tradição que já vinha dos anos 1920, quando Adhemar Gonzaga filmou lá cenas de “Barro humano”. O fato de o lugar ser uma favela pacificada, numa época em que isso parecia ainda um sonho distante, permitiu que, em suas ruas emaranhadas, fossem filmados ou gravados “Orfeu do Carnaval”, “Tropa de elite”, os seriados “Cidade dos homens e “A lei e o crime” e a novela da TV Record “Vidas opostas”, entre outros. Foi também na Tavares Bastos que Hollywood rodou, em 1997, “O incrível Hulk” (nas filmagens, havia trezentos profissionais trabalhando no morro, além de cinco mil moradores participando direta ou indiretamente) e vários clips internacionais como os de Snoopy Dogg e da banda Black Eyed Peas. Isso, para não falar nos inúmeros comerciais de TV.

    Bob, que tem uma história pessoal incrível – trabalhou como escultor de naves espaciais no filme “2001 – Uma odisseia no espaço” e foi repórter da BBC –, veio do outro lado do mundo para fazer coisas boas em uma comunidade carioca. E agora queremos botar seu sonho abaixo. Espero – caso isso se concretize – que ele não desista de nós.

     

    Matéria minha publicada no jornal O GLOBO de 26 de abril de 2015.

     

  • ‘Bilac’: última semana!

    ‘Bilac’: última semana!

    Para quem ainda não viu – ou para quem quer ver de novo – nosso musical “Bilac vê estrelas” está em sua última semana no Teatro dos Quatro, no Shopping da Gávea. Os espetáculos serão quinta (às 19 horas), sexta e sábado (às 21 horas) e domingo (às 20 horas). No próximo dia 28 de maio, “Bilac” estreia em São Paulo, no Teatro Promon (ex-São Luiz). Baseado no livro homônimo de Ruy Castro e adaptado por mim e por Julia Romeu, “Bilac vê estrelas” tem direção de João Fonseca e músicas inéditas de Nei Lopes. Com André Dias, Izabella Bicalho, Tadeu Aguiar, Alice Borges e grande elenco, o musical brasileiríssimo foi aclamado pela crítica, como mostram as frases abaixo:

     

    “Composições inspiradas, com letras inteligentes. Um trabalho irretocável”.

    “Ótimo”.

    Macksen Luiz, O Globo

     

    “Há muito se tenta fazer um musical brasileiro com essa categoria. Vocês conseguiram”.

    Herminio Bello de Carvalho, compositor

     

    “Quinze canções novas, não menos do que excelentes”.

    “O público sai cantarolando”.

    Luiz Fernando Vianna, Folha de S. Paulo

     

    “Um raro exemplar recente de musical de fato brasileiro”.

    “Adorável”.

    Rafael Teixeira,Veja Rio

     

    “O espectador é transportado para o Rio da Confeitaria Colombo e da Rua do Ouvidor”.

    Daniel Schenker, O Estado de S. Paulo

     

     

     

     

     

     

  • O que temos de pagar por tanta beleza?

    O que temos de pagar por tanta beleza?

    Como o Rio tem sido muitas vezes inspiração, e também cenário, para a literatura, vou começar este artigo comparando a cidade a uma personagem literária: Pearl (Pérola), filha de Hester Prynne, a adúltera criada por Nathaniel Hawthorne em “A letra escarlate”. Fruto de um relacionamento ilícito, na cidadezinha americana de Salem, uma comunidade puritana ao extremo, Pearl é, desde menina, de uma beleza incomum. À medida que cresce, vai se tornando mais e mais linda. E pior: feliz. Como ela ousa ser bonita e feliz, sendo uma criança maldita? É o que todos na comunidade de Salem se perguntam. A atitude da menina é vista como um escárnio.

    O Rio, cidade feminina, é como Pearl: reúne em si beleza e maldição. Talvez todos nós, cariocas ou não, tenhamos inveja do Rio, a mesma inveja que se tem de uma mulher bonita demais. Por isso não perdemos uma chance de falar mal da cidade: sua beleza é um acinte. O poeta Ezra Pound, ao se deparar com Veneza, exclamou: “O que teremos de pagar por tanta beleza?” É um sentimento parecido que nos invade diante da paisagem carioca. Tamanha beleza tem de ter um preço.

    Essa exuberância toda faz com que o Rio esteja sempre na ponta do nariz do Brasil. Aparece primeiro. Tudo que acontece aqui repercute mais. Se ocorre no Rio um crime semelhante a outro que um dia aconteceu em uma cidadezinha do Paraná ou de Alagoas – ou mesmo, admitamos, em São Paulo – é o crime carioca, e nenhum outro, que ganhará as manchetes internacionais. Já pensaram se o assassinato do surfista Ricardinho tivesse sido no Arpoador?

    Talvez seja esse o preço que a cidade paga por tanta beleza.

    Ninguém pode negar que a paisagem é o ponto focal, o cerne de onde se espraia nosso comportamento em relação ao Rio, aí incluídos o amor e o ódio. Morando ou não, tendo ou não nascido aqui, ninguém consegue ficar imune à paisagem carioca. Não há quem, entre nós, não tenha vivido situações em que, de repente, se pega olhando de boca aberta para um pôr do sol, para uma cadeia de montanhas com todos os tons de azul e verde, para um mar rebrilhando com a luz da manhã.

    Se toda a beleza que nos rodeia alimenta nosso despeito, é ela também que nos inspira, seja qual for nosso métier. É muito difícil para um artista – escritor, pintor, músico, qualquer um que viva aqui – não se deixar influenciar por um entorno tão poderoso, e tão peculiar. Você goste ou não, o Rio é uma cidade única. E de um jeito ou de outro acabará se imiscuindo em sua criação.

    Para ficar restrita apenas ao universo da palavra escrita, que é o meu, o Rio inspirou, entre outras coisas, um gênero literário – a crônica. A crônica sempre foi uma força dentro da literatura brasileira. Como já disse Luis Fernando Verissimo (ele próprio um cronista), um caso como o do capixaba Rubem Braga, que tem uma reputação literária sólida sem jamais ter escrito outra coisa que não crônica, talvez seja único no mundo. E o cenário de Braga foi um só: o Rio.

    O Rio tem sido inspiração e cenário para Machado de Assis, João do Rio, Lima Barreto, Ribeiro Couto, Luiz Edmundo, Olavo Bilac, Antonio Maria, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Nelson Rodrigues, Sergio Porto, Elsie Lessa, Clarice Lispector, Carlos Heitor Cony, Aldir Blanc – a lista é imensa e não cabe em um só parágrafo.

    O PASSADO É SEMPRE MELHOR

    O Rio também está presente em tudo o que eu faço, e não por acaso acabo de estrear, em parceria com minha filha, Julia Romeu (outra carioca da gema), uma comédia musical passada na Belle Époque carioca, “Bilac vê estrelas”. Baseada em livro homônimo de Ruy Castro – outro carioca de carteirinha, embora nascido longe –, “Bilac vê estrelas” retrata as aventuras do poeta Olavo Bilac no Rio de 1903, a cidade do Prefeito Pereira Passos, do bota-abaixo, do momento em que as construções coloniais e os morros insalubres eram arrasados para fazer nascer uma Paris à beira-mar. Muita gente era a favor, mas muita gente também era contra. Alguma semelhança com o Rio de agora? Toda.

    Mais de cem anos depois, cá estamos, em meio a essa grande trincheira em que se transformaram as ruas do Rio – com obras do metrô, dos BRTs, dos VLTs, das instalações olímpicas, dos novos museus, da reformulação do Porto – reclamando e resmungando. O carioca nunca está satisfeito.

    “Ah, como o Rio devia ser maravilhoso na Belle Époque”, dizem uns. E outros: “Ou então nos anos dourados, nos anos 50 e 60”. Mas se dermos uma folheada em revistas, jornais e documentos dessas épocas, já encontraremos muita gente com saudades de outros tempos. O passado é sempre melhor. E isso por dois motivos: porque o filtro do tempo doura a pílula; e também porque, em geral, quem está reclamando fala de um tempo em que ele próprio era jovem.

    O QUINTAL É TUDO

    Outra razão para a relação de amor e ódio do carioca para com o Rio é a sensação de propriedade. Minha filha tem uma amiga, Amanda Giordano, cuja mãe mora em Brasília há anos. Outro dia, Amanda contava como vinha tentando convencer a mãe a voltar a morar no Rio, agora que está aposentada. A mãe resistia: “Vou ficar com saudade do meu quintal” (lá, ela mora em casa, não em apartamento). Amanda reagiu:

    “Que bobagem, mãe! Para que você quer um quintal aqui? No Rio, a cidade inteira é o quintal.”

    É exatamente isso. Nós, cariocas, encaramos a cidade como uma extensão de nossa própria casa. Essa é também uma das razões que nos dão o direito de falar mal dela. Esse espaço comum, com suas belezas e mazelas – ele nos pertence. Por isso, fazemos as maiores festas ao ar livre; por isso, todos os bares e restaurantes querem ter mesas no meio da rua; por isso, nos subúrbios, muita gente insiste em botar cadeiras na calçada para apreciar a tarde, mesmo que as balas zunam sobre suas cabeças.

    Houve um momento, na década de 90 e no início dos anos 2000, em que a insegurança parecia ter ido longe demais. Alguns falavam em ir embora da cidade e a violência estava no centro de tudo, tomando o lugar da paisagem. De alguns anos para cá, porém, temos vivido uma situação diferente, com a realização de grandes eventos, a diminuição da sensação de violência e a reocupação dos morros pelo cidadão. Isso é importantíssimo. Muitos de nós jamais tínhamos entrado em uma favela, ou comunidade. Hoje, as pessoas sobem o morro para ir a bares, restaurantes, festas e até para assistir à queima de fogos no Ano Novo. Isso, somado à expansão do transporte público e à criação de espaços de criação nos subúrbios cariocas – como as arenas culturais ou o Parque de Madureira –, nos dá uma sensação nova: a de que estamos reintegrando e reocupando nosso velho quintal.

     

    Matéria minha que saiu no Caderno Rio 450 do jornal Valor Econômico, de 13 de fevereiro de 2015

    Link para o vídeo sobre o assunto, publicado no site do Valor:

    http://www.valor.com.br/video/4076535342001/especial-rio-450-anos-os-cariocas

     

  • Cuidado: axé a caminho!

    Cuidado: axé a caminho!

    Ruy Castro diz que passou anos sonhando com duas coisas no Rio: a derrubada do elevado da Perimetral e a volta do Carnaval de rua – e teve a alegria de vê-las realizadas. Eu assino embaixo. Não por acaso, guardo em casa, na minha estante, uma pedrinha que catei no chão da Praça Quinze logo que o elevado foi ao chão. Para mim, tem valor igual ao de um caco do Muro de Berlim. Quanto à volta do Carnaval de rua, a mesma coisa: foi maravilhoso assistir a seu ressurgimento, também impensável pouco antes.

    Para mim e para minha turma, nos anos 1970, ele praticamente já deixara de existir. Os bailes dos clubes, por sua vez, também estavam acabando, devido à grosseria da frequência. Era o reinado das escolas de samba que se consolidava. Nós, jovens, íamos aos ensaios das escolas, acompanhávamos o pré-Carnaval e sabíamos de cor os sambas-enredo – mas, quando chegava o Carnaval propriamente dito, não tínhamos como pagar para assistir ao desfile. Resultado: pegávamos nossas barracas e íamos acampar em Visconde de Mauá. O Rio ficava vazio nos dias de folia. Era o anti-Carnaval.

    De repente, em algum momento da primeira década do século XXI, aconteceu. Um bloco aqui, uma banda ali, um rancho acolá, e a garotada foi chegando, chegando, tomando as ruas, enchendo a cidade com suas anteninhas de abelha, seus chifres de diabo, seus chapéus de pirata, seus tutus de bailarina. Olhávamos de nossa janela e não acreditávamos no que víamos. Todos fantasiados! Cantando velhas marchinhas! E jovens, muito jovens. Era o Carnaval de rua – espontâneo, livre, alegre – que ressurgia. Assim foi e está sendo. Ano após ano, os cordões só têm engrossado. Quem vai querer sair do Rio com uma farra dessas? Nosso velho sonho tinha se tornado realidade.

    Pois bem. Mas aonde chegamos? Pode-se constatar que o cordão engrossou demais. O mais famoso deles, o da Bola Preta, já reúne quase dois milhões de pessoas. Qualquer bloco de rua – que, no início, era uma ação entre amigos – junta hoje em dia tantos foliões que, para sair, tem de contratar som, segurança, alugar banheiros químicos, controlar ambulantes. Tornou-se um negócio. Precisa de dinheiro, muito dinheiro – que só pode vir de um patrocínio. Faz- me lembrar o samba de Aldir Blanc e João Bosco: “Não põe corda no meu bloco, nem vem com teu carro-chefe, não dá ordem ao pessoal; não traz lema nem divisa, que a gente não precisa que organizem nosso Carnaval”. Pois é. Só que, nas dimensões atuais, é preciso organizar, para não virar bagunça, o caos. Então, o que fazer? Como encontrar a solução para organizar sem descaracterizar, sem tirar a espontaneidade? E como evitar o gigantismo?

    Sei que é difícil. Mas precisamos parar e pensar, juntos, para não correr o risco de perder nosso Carnaval de rua outra vez. Porque as ameaças são muitas.

    A primeira que me ocorre é a seguinte: os blocos mais marqueteiros são os que mais facilmente conseguem patrocínio. E estão conquistando terreno. Há dois anos que meus dois blocos preferidos – o Sassaricando e o Rancho Flor do Sereno – não fazem Carnaval porque não conseguiram patrocínio suficiente. Este ano, tivemos outra baixa: o Azeitona Sem Caroço, tradicional bloco do Leblon.

    Enquanto isso, os blocos temáticos, sertanejos, roqueiros, pop, gospel, liderados por celebridades e coisas do gênero, estão ganhando força, tomando as ruas, e cada vez mais numerosos. Se não abrirmos o olho, logo os trios elétricos baianos, com seu axé e seus abadás, estarão enfileirados na Avenida Brasil, prontos para a invasão em massa.

    Duvidam? Olhem que a Claudia Leitte já está rebolando à frente da sacrossanta bateria da Mocidade Independente… e de tampão nos ouvidos!

     

    Artigo meu publicado na página de Opinião de O Globo, no dia 31 de janeiro de 2015

     

     

     

     

     

     

     

     

     

  • Lançamento de Carmen – A grande pequena notável

    Lançamento de Carmen – A grande pequena notável

    Vai ser domingo, às 16 horas, na Livraria da Travessa de Botafogo, o lançamento do livro “Carmen – A grande pequena notável”, a biografia de Carmen Miranda para crianças. O texto é meu em parceria com Julia Romeu e as ilustrações são de Graça Lima. Vai ter brigadeiro, brindes e brincadeira. Não percam!

     

     

     

     

     

     

     

     

     

  • Uma estreia linda!

    Uma estreia linda!

    Foi linda a noite de estreia do musical “Bilac vê estrelas”. A foto aí do lado mostra nosso André Dias, ou melhor, nosso Bilac, tendo um delírio depois de levar uma pancada na cabeça: ele pensa que está no Monte Parnaso! E querem saber? Acho que todo mundo no teatro acreditou. É um dos momentos mais bonitos da peça. Quem ainda não viu, não pode perder! Sou suspeita para falar, mas ao mesmo tempo fico à vontade, porque todos os envolvidos nesse projeto lindo deram tudo de si, para tornar o espetáculo a graça que é. Menção especial ao diretor João Fonseca — o maior diretor de musical em atividade no Brasil — e ao compositor Nei Lopes, cujas canções deram a “Bilac vê estrelas” uma qualidade excepcional.

    Reproduzo aqui a letra de duas das canções do musical, para dar uma ideia:

    “Sassaricos na porta da Colombo”:

    Comment ça vá, mon ami?

    Tudo marveiê!

    Tré biã, merci, monamú.

    Na legalitê!  (Refrão)

     

    Rio de Janeiro! Enfim o progresso

    Tudo pelo avesso! Civilização

    Abaixo o Castelo, morro abafadiço

    Quiosques, cortiços, tudo vai pro chão

    Sopram forte os ventos da modernidade

    Abre-se a cidade pra ser mais feliz.

    Belas avenidas, lindos bulevares

    São os novos ares: o Rio é Paris.

    (Refrão)

    Vem caindo a tarde, charmosa e vadia

    Na Gonçalves Dias e em toda a Ouvidor.

    Saias e sombrinhas, plumas e reclames

    Moças e madames, tudo arte “nuvô”.

    Nos belos cardápios das confeitarias

    Finas iguarias, sorvetes, licor

    E pelas calçadas, tonta de alegria

    Segue a poesia nos versos de amor.

    (Refrão)

    Neste principado do verso e das rimas

    Das sátiras finas, do humor jovial

    A métrica certa, o fecho de ouro

    São, mais que tesouros, bruto capital.

    E airoso na frente da tropa de choque

    Desta Belle Époque, a prata de lei:

    Rescendendo aromas de rosas e cravos

    O príncipe Olavo Bilac é o rei

    (Refrão)

    Garçons, cozinheiros, boêmios, cantores

    Vetustos senhores de cartola e fraque

    Repiquem tambores, ressoem clarins:

    Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac !

    Arrulhem, suspirem, moças casadoiras

    Mulatas e loiras, damas de destaque

    Para seus aplausos, pra todos os fins

    Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac !

    (Refrão)

    Por toda a cidade, seu nome é um ribombo

    Hoje na Colombo, ontem na Pascoal

    Da mesa de frios até o empadário

    Tudo é secundário ante o principal.

    Cale-se a inveja e a maledicência

    Ante a evidência, erga-se o louvor.

    Amigo das letras, artista do traço,

    Dá cá um abraço: Bilac chegou!

     

    “Tout le Riô”:

    O Rio de Janeiro

    Já não perde pra Paris

    Agora é lá e cá

    É tudo vis-à-vis.

    Lá na cidade-luz

    Comi croquete de siri,

    Então exijo aqui

    Moqueca de escargot

    Como dizia o grande

    Monsieur Victor Hugô

    C’est tout la même chose

    C’est tout le Riô!

     

    Qualquer confeitaria

    Tem champagne e champignon

    Cognac e anizette

    E um bom filé mignon

    E até casa de pasto

    Já se esforça nessa arte

    Tem menu a la carte

    Foie gras, petit gateau

    É a realidade

    Tout le monde já notou

    C’est tout la même chose

    C’est tout le Riô!

     

    Nas luzes da vitrine,

    Lingeries e negligées

    Rendas, popelines

    Cachecóis e cache-nez

    As calças e os culottes

    De crochê e de tricô

    O Rio civiliza-se

    Em voo d’oiseaux

    Mostrando a tout le monde

    O que Paris lhe ensinou.

    C’est tout la même chose

    C’est tout le Riô!

     

    Escrito no menu

    Asperges gratinées

    Entrées, glaces, desserts

    Dindon farci, poulets

    Aí, o freguês reclama:

    “Escute aqui, Ô seu Ioiô,

    Vatapá a la bahienne

    Ofende a tradição nagô”.

    O maître então faz pose

    E diz com ar de professor:

    C’est tout la même chose

    C’est tout la même chose

    C’est tout la même chose

    C’est tout le Riô!

     

    “Bilac vê estrelas” está em cartaz de sexta a domingo, sempre às 19 horas, no Teatro Sesc Ginástico (av. Graça Aranha 187) até o dia 22 de fevereiro.

     

  • ‘Bilac vê estrelas’

    ‘Bilac vê estrelas’

    Contagem regressiva: já no comecinho de janeiro estreia “Bilac vê estrelas – Uma comédia musical”, a nova peça que eu e minha filha, Julia Romeu, escrevemos, baseada no livro homônimo de Ruy Castro. O musical é uma chanchada divertidíssima, com direção de João Fonseca e músicas de Nei Lopes (são 15 canções feitas especialmente para a peça), e fica em cartaz no Teatro Sesc Ginástico (av. Graça Aranha 187, Centro) até o final de fevereiro, sempre às 19 horas (a estreia é dia 9 de janeiro). “Bilac vê estrelas” conta com a direção musical de Luís Filipe de Lima e terá André Dias no papel de Bilac (foto), ao lado de Izabella Bicalho, Tadeu Aguiar, Alice Borges e grande elenco.

    Abaixo, um pequeno resumo da trama:

    “Bilac vê estrelas” se passa em plena Belle Époque carioca, nos primeiros anos do século XX. O famoso poeta Olavo Bilac, frequentador de um ambiente glamouroso que inclui a rua do Ouvidor e a Confeitaria Colombo, se vê às voltas com uma aventura que inclui sedução, intriga internacional e tentativa de assassinato. Seu amigo, José do Patrocínio, o grande jornalista da Abolição, está construindo um dirigível com a ajuda de Santos-Dumont, mas se vê ameaçado por espiões, que querem roubar os planos da aeronave: a perigosa e sensual portuguesa, Eduarda Bandeira, e seu cúmplice, o padre Maximiliano, mais chegado às artes do demônio do que às dos santos. Bilac tenta ajudar Patrocínio e acaba, literalmente, vendo estrelas.

     

    http://abroadwayeaqui.com.br/2014/11/27/bilac-ve-estrelas-de-ruy-castro-ganhara-adaptacao-musical-em-janeiro/

     

  • É proibido envelhecer

    É proibido envelhecer

    Foi espetacular a leitura de “É proibido envelhecer”, minha nova peça de teatro (na verdade, duas peças conjugadas), realizada no dia 24 de novembro, no Centro Cultural Midrash, no Leblon. A leitura, com a sala lotada, foi feita por Clarice Niskier, Ana Lucia Torre e Rogério Fróes, três atores que dispensam apresentações. Com direção de Anderson Aragón, que incluiu até alguma movimentação cênica, a leitura constou de duas pequenas peças, misturando humor e reflexão. A primeira, “Contos mínimos”, mostra duas mulheres, muito amigas, mas também muito diferentes entre si: uma delas, mais intelectualizada, só pensa em escrever, enquanto a outra tem pânico de ficar velha. Em discussão, o excesso de culto ao corpo e a tirania da beleza. A segunda parte, “A neve do tempo”, é um monólogo — lido por Rogério Fróes — que também trata do envelhecimento. Nela, o personagem faz reflexões sobre a vida e também sobre a necessidade de, apesar do passar dos anos, continuar sonhando.