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  • O oitavo selo

    O oitavo selo

    Já está nas livrarias meu novo livro, O oitavo selo”, cujo personagem principal foi inspirado em Ruy Castro. Publicado pela Cosac Naify, minha nova editora, “O oitavo selo” é um quase romance, pois fica na fronteira entre a ficção e a não-ficção. Abaixo, o texto que está na contracapa do livro:

    Um quase romance – é como Heloisa Seixas define “O oitavo selo”, que tem por protagonista um personagem da vida real, seu marido, o escritor Ruy Castro. Intercalando ficção e realidade, em uma narrativa hipnótica que inclui beleza e horror, o livro mostra os diversos momentos de um homem diante da morte. Os “selos” a que se refere o título são os diferentes trâmites enfrentados, uma saga que inclui drogas, alcoolismo e doenças gravíssimas. Com muitas referências literárias, musicais e cinematográficas – inclusive a alusão ao filme de Ingmar Bergman, O sétimo selo –, o livro é resultado da parceria de vida desses dois escritores brasileiros, começada há mais de vinte anos.

    Link para a resenha do livro publicada na Folha de S. Paulo

     

  • Quase memória

    Quase memória

    Foi sensacional a participação do escritor Carlos Heitor Cony na Bienal de São Paulo, falando sobre “Quase memória, quase romance”, isto é, sobre essa linha tão incerta que divide a realidade da ficção. A mesa, realizada domingo, 24 de agosto, no Salão de Ideias, foi composta também por mim e por Ruy Castro, cada um falando de suas experiências em torno do assunto. Mas o ponto alto da noite foi sem dúvida Cony, autor, como todos sabemos, do belíssimo livro cujo título é justamente “Quase memória”, lançado há quase vinte anos.

    Cony, 88 anos, sofreu um pequeno acidente durante sua participação na Feira de Livros de Frankfurt, no ano passado, e o tombo teve consequências sérias, deixando-o em cadeira de rodas. Mas a dificuldade de locomoção não é problema para ele, que faz questão de participar de feiras e debates por vários pontos do Brasil.  A arena do Salão de Ideias da Bienal já estava lotada quando ele chegou em sua cadeirinha de rodas elétrica. Assim que começou a falar, com o humor mordaz de sempre, Cony soltou farpas para todo lado, fazendo inclusive piada com a própria situação. A plateia veio abaixo.

    Ao final da conversa, muitas pessoas comentavam sobre a energia dele, apesar de todos os problemas de saúde. E a conclusão era uma só: aquela vitalidade vinha da força da escrita. Como em uma história das mil e uma noites, Cony se salva pela palavra. E ele não é o único.

     

  • Praça XV – o Terreiro do Paço

    Praça XV – o Terreiro do Paço

    Todo carioca que se preze sempre alimentou o sonho de um dia assistir à demolição do elevado da Praça Quinze. É impossível não olharmos com uma pontinha de rancor para aquele monstro de cimento (por mais que atenda às necessidades dos motoristas), de colunas brutas, escurecidas, rasgando um sítio histórico tão bonito. Se seu único pecado tivesse sido acabar com o mercado que existia naquela região – e do qual resta hoje apenas uma torre, onde funciona o restaurante Albamar –, já seria pecado suficiente. Mas ele fez mais do que isso: ensombreceu o cenário da chegada da Corte Portuguesa, apequenando construções como o Paço Imperial, a antiga Sé, o Convento do Carmo, o Arco do Telles e o Chafariz do Mestre Valentim.

    Não importa. A força daquela região histórica é tal que podemos muito bem passear pelo antigo Terreiro do Paço sem olhar para o elevado – e fingir que ele não existe. Ali, à medida que caminhamos pelas calçadas de pedra, o presente parece dissolver-se. Apesar da correria e do barulho, do vai-e-vem de ônibus, carros e gente, dos prédios altos, com seus vidros escuros – como o da Universidade Cândido Mendes, que se debruça sobre o convento onde vagou um dia Dona Maria, a Louca – a História sai sempre ganhando.

    O exemplo mais forte é o próprio Paço Imperial, o palácio no qual o Príncipe Regente Dom João (que no futuro, já coroado, se tornaria Dom João VI) foi morar ao chegar à cidade em 1808 e onde recebia o povo para a cerimônia do beija-mão. Com a reforma feita no início dos anos 1980, o Paço tornou a ficar muito parecido com o que era ao ser construído, ainda no século dezoito. E das escavações surgiram fornos e paredes de óleo de baleia que hoje ficam à mostra, para quem quiser viajar ao passado.

    Também foi numa reforma – para construção de um mergulhão, por onde passam os ônibus – que foi descoberto, junto ao Chafariz do Mestre Valentim, o antigo cais, com suas rampas e escadarias de pedra, que tinham ficado debaixo da terra durante muitas décadas. Quem se debruça sobre a amurada e espia o velho cais lá embaixo (é curioso ver como as cidades vão sendo construídas em camadas, sobrepondo-se umas às outras ao longo dos séculos) quase pode ver Dona Carlota Joaquina, com seu buço e sua cara contrariada, saltando do barco e pisando em terras brasileiras pela primeira vez, com a cabeça infestada de piolhos.

    No outro extremo da praça ficam as duas velhas igrejas de nome parecido, a Igreja da Ordem Terceira do Monte do Carmo e a Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, a mais importante. Restaurada para os festejos dos 200 anos da chegada da Corte, a velha Sé foi palco da coroação de Dom João VI e dos imperadores Pedro I e Pedro II. Também ali as escavações durante a reforma trouxeram à luz pedaços de louças e outros objetos que hoje estão expostos e que contam um pouco do que era a vida no Rio colonial.

    Fechando o quadrilátero, há o Arco do Telles, intacto apesar do incêndio de 1790, que destruiu quase todo o quarteirão. Parar para observar sua arcada de pedra nos faz voltar ao tempo em que a Travessa do Comércio se chamava Beco do Telles e a rua Primeiro de Março, ali do lado, era a Rua Direita. As ruas tinham nomes engraçados, como rua da Cadeia (hoje Assembleia), do Cano (Sete de Setembro), do Fogo (Andradas), do Hospício (Buenos Aires), do Piolho (Carioca). No passado, era assim. Esse tempo para o qual nos transportamos ao caminhar pela Praça Quinze. Aliás, pelo Terreiro do Paço.

     

    Matéria feita para a revista Serafina, da Folha de S. Paulo, em março de 2010, quando a derrubada do Elevado da Perimetral ainda era um sonho distante. A foto é de fevereiro de 2014. Nós vencemos.

     

  • Futurologia

    Futurologia

    Foi num domingo desses. Caminhando no Calçadão de Ipanema, ao lado de uma amiga e do neto dela, de 13 anos, virei para o rapaz e disse:

    – Sabia que, antes de você nascer, nada disso existia? Nem calçadão fechado aos domingos e feriados, nem ciclovia?

    O menino me olhou, incrédulo.

    – Sério?

    Eu assenti. E continuei:

    – Esta calçada de pedras portuguesas, por onde estamos andando, era um estacionamento de carros, que paravam em diagonal. A calçada era estreitinha, só se usava para limpar os pés de areia antes de entrar no carro. Todo mundo vinha à praia de carro.

    – E, no lugar da ciclovia, era o quê? – perguntou o menino.

    – Era uma das pistas da rua. Isso foi no início da década de 90. Para construir a ciclovia, foi preciso diminuir o canteiro central e remanejar as pistas. Deu a maior trabalheira. E foi um transtorno no trânsito. Muita gente foi contra.

    O menino continuou me olhando. Não tenho certeza se estava acreditando. Mesmo nós, que éramos adultos no início dos anos 90, temos uma tendência a esquecer. Mal podemos crer, ao caminhar hoje pela calçada de Ipanema, que já vivemos sem ciclovia e sem pistas fechadas para aproveitar os domingos e feriados. É tão bom do jeito que é agora, tão natural. Estranho pensar que, na época, houve tanta controvérsia.

    – Até o Millôr Fernandes foi contra, porque não queria que mexessem na pista da Avenida Vieira Souto – continuei.

    O menino me encarava, à espera de mais explicações. Não tenho certeza se sabia quem foi o Millôr. Não importa. Àquela altura, eu já estava pensando alto. Fui em frente:

    – O Millôr era anarquista, sabia? Era contra tudo que fosse obrigatório. O cinto de segurança, por exemplo. Ele achava que feria as liberdades individuais. Nunca pôs um cigarro na boca, mas era contra qualquer proibição de fumar. Hoje em dia, talvez fosse contra a Lei Seca. E quem sabe não estaria nas ruas, ao lado dos Black Blocs?

    Minha amiga, avó do rapaz, me cutucou:

    – Não exagera… [Risos]

    A conversa com o neto da minha amiga – e a incredulidade dele sobre o passado do Calçadão – me levou a um exercício de futurologia. Daqui a vinte anos, eu, velhinha, estou passeando ao lado do bisneto de outra amiga. Mas não no Calçadão de Ipanema, e sim no bulevar da Praça Quinze, diante de todas aquelas construções antigas, o Museu Histórico, o Paço Imperial, o Chafariz do Mestre Valentim, o Arco do Telles, o casario da Ouvidor e seu entorno. Seguimos na direção do Mosteiro de São Bento e fazemos, a pé, o contorno do morro, bem junto ao mar, com aquela vista espetacular da Baía de Guanabara, a Ilha Fiscal brilhando ao fundo. Decidimos ir até o Aquário do Rio, na Avenida Rodrigues Alves, mas, como já estou cansada, vamos no VLT, deslizando suavemente pelo bulevar do Porto, com seus gramados e palmeiras, e tendo à nossa direita os armazéns restaurados. Aí eu me viro para o garoto e falo:

    – Sabia que, antes de você nascer, nada disso existia? Era tudo horroroso, imundo, abandonado. Passava um viaduto aqui em cima. E, quando derrubaram, ainda teve gente que foi contra!

     

    Texto publicado por mim no jornal “O Globo” no dia 31 de maio de 2014

     

     

     

  • Os maus modos do gigante

    Todo mundo que conheço achou uma coisa fantástica a greve dos garis no Rio. Eu, não. A Comlurb tem sido, há muitos anos, considerada uma empresa modelo, boa de se trabalhar e bem avaliada pela população. A imprensa cansou de dar matérias sobre seus funcionários – um deles, Renato Sorriso, chegou a ser um símbolo da cidade. E até há pouco tempo era assim. De repente, os garis do Rio transformaram-se em pessoas exploradas, mal pagas e protagonistas de uma greve legítima para ter o direito de ganhar cerca de R$ 1.800. Tudo bem. Eles têm os seus direitos. O que achei estranho foi terem feito a greve contrariando uma decisão da Justiça e do próprio sindicato, o que deixou a Prefeitura sem interlocutor. E pior: deflagraram o movimento em pleno Carnaval.

    Ora, uma greve de lixo é sempre um trauma para qualquer cidade. Por ser uma greve tão visível, que causa transtornos imensos, um movimento como esse tem, sempre, enorme poder de barganha. Se os garis do Rio tivessem feito uma greve de advertência algumas semanas antes do Carnaval, certamente teriam tido um bom resultado em suas negociações. Mas, não. A greve deles foi de uma hora para outra, e o que vimos? A cidade cheia de turistas e inundada de lixo. A ponto de o Prefeito Eduardo Paes ter atendido a quase todas as reivindicações deles para evitar o caos absoluto, porque havia previsão de chuva forte para o dia seguinte.

    Na época, li o noticiário com a sensação de que aquilo era uma chantagem. Que o Prefeito, sem opção, estava se rendendo a ela. E não pude deixar de pensar: e se os garis decidirem fazer o mesmo na Copa? Sem sindicato, desrespeitando a Justiça e pedindo, digamos, salários de R$ 5 mil? E se os aeronautas também decidirem entrar em greve? E os motoristas de ônibus. E os policiais. Será que existe um plano de contingência capaz de lidar com isso?

    Até a greve dos garis no Rio, tínhamos pelo menos a garantia de que haveria a palavra da Justiça, a decisão sobre se uma greve é ou não legal. Quando eu trabalhava como jornalista, havia algumas máximas que circulavam nas redações e que eram verdadeiras cláusulas pétreas. Uma delas, “Decisão da Justiça não se discute. Cumpre-se”. Mas hoje em dia, como bem sabemos, até um ex-presidente da República afronta as decisões judiciais legítimas, tomadas por ministros indicados por ele.

    E, enquanto isso, nosso país vai caminhando, à catraca. Qualquer grupo de dez ou doze pessoas insatisfeitas pela falta de um muro em sua rua bota fogo num sofá e fecha a Avenida Brasil, infernizando a vida de centenas de milhares. O mesmo pode acontecer na Avenida Copacabana ou na Avenida Paulista, a qualquer momento, pelos mais diversos motivos, justos ou não. Incendiar ônibus e automóveis é coisa que agora acontece quase todos os dias nas nossas cidades – e nem sempre isso é feito apenas por bandidos.

    No Brasil é assim: é oito ou 80. Ou estamos inertes, aceitando de braços cruzados os governos e desgovernos mais absurdos, ou de repente despertamos e aí não paramos mais. É o dilema que vivemos hoje. O gigante acordou. Mas ele precisa ter aulas de civilidade.

     

    Matéria publicada na página de Opinião do jornal “Folha de S. Paulo”, em 14/5/2014

     

     

  • Quanto tempo?

    Quanto tempo?

    Era uma daquelas manhãs de outono que o Rio exibe de vez em quando e que faz a gente esquecer todos os problemas – os da cidade e os nossos próprios. Poucos dias antes, uma baleia e seu filhote tinham sido avistados no mar, assim como um cardume de sardinhas, mancha escura se movendo sob a superfície de um verde-azul escandaloso. Por isso, naquela manhã, eu tinha decidido ir até a ponta do Arpoador, dar um mergulho.

    O Arpoador é um recanto da praia de Ipanema que eu conheço desde criança, ou melhor, desde bebê. Quando eu nasci, meus pais moravam no Jardim Botânico e sempre íamos à praia de carro – o fusquinha do meu pai. Estando de carro, podíamos escolher qualquer praia, mas quase sempre a praia escolhida era o Arpoador, justamente porque, ficando em uma extremidade, esse trecho forma um remanso, bom para as crianças brincarem sem susto. Era o que eu fazia. Naquele mesmo canto para onde me dirigia agora, eu, menina, brincava. Gostava especialmente de nadar no ponto em que a pedra adentra o mar, formando uma praia minúscula. Era ali, naquele pedaço, que eu catava tufos de algas, dizendo a mim mesma que eram pés de alface, perfeitos para o almoço das bonecas.

    Caminhando pela calçada, fui chegando ao Arpoador. O mar estava outra vez transparente, e manso, quase sem ondas. Não havia cardumes nem baleias à vista, mas eu imaginava que, ao mergulhar, veria peixinhos pequenos passeando em torno de mim. Isso sempre acontece no Arpoador quando o mar está calmo e limpo.

    Chegando ao extremo da calçada, desci pela pedra. Logo, estava dentro d’água. Ainda com água pela cintura, olhei em torno e vi os peixinhos esperados, pequenos filetes transparentes, quase se fundindo ao líquido em que nadavam. Fui adentrando o mar, passo a passo, afundando com gosto os pés na areia, a água já quase chegando aos ombros. Foi nesse instante que senti cócegas no pé. Pensei, com um sorriso, que fosse um dos peixinhos, passando por mim. Dei outro passo. A sensação se repetiu. E foi então, com susto, que me lembrei de uma coisa: na véspera, ao sair com uns sapatos meio apertados, tinha botado um pequeno esparadrapo no pé. A sensação que eu confundira com o roçar do peixinho na certa era o esparadrapo se desprendendo. Ele ia cair – e sujar meu mar encantado.

    Dei meia-volta, apressei o passo em direção à areia. Mas, quando saí da água, vi que era tarde: o esparadrapo tinha desaparecido. Eu deixara uma pequena parcela de sujeira para trás.

    Olhei para o mar à minha frente, lindo e transparente, apesar de tantas vezes maltratado, tantas vezes recebendo nossos rejeitos, nossos dejetos. Nós, seres humanos, que ainda não aprendemos a tratar bem do nosso planeta. E senti uma culpa enorme por aquele esparadrapo. E, claro, me veio à mente a pergunta que sempre nos ronda quando temos um mínimo de consciência ecológica: quantos anos?

    Até quando meu esparadrapo resistiria até se desfazer no mar?

    Quanto tempo?

     

     

  • Pontos de luz

    Pontos de luz

    AMARÉCOMPLEXO. Em letras maiúsculas, era o que dizia a faixa, estendida acima do muro colorido. Amar é complexo. A Maré Complexo. Pois bem, lá estava eu: domingo, fim de tarde, chuvinha fina e, enquanto Flamengo e Vasco disputavam o título do Campeonato Carioca, eu chegava à Penha Circular. Soube que ali pertinho havia uma sede da UPP, mas não vi polícia, nem carros blindados, nem armas – nada. Os únicos tiros que ouvi foram os estampidos dos foguetes na hora do gol do Vasco e, depois, no que daria o campeonato ao Flamengo.

    Estava na Penha, mais exatamente na Arena Dicró, para a apresentação da minha peça, “O lugar escuro”, sobre a doença de Alzheimer. No final da peça, o texto fala sobre a esperança de encontrar um pouco de luz na escuridão, lembrando que, no 11 de setembro, nos subterrâneos das Torres Gêmeas, os bombeiros descobriram uma vitrine cheia de copos de cristal – intactos. Pois era exatamente nisso que eu pensava ao chegar ali, àquele espaço de cultura criado pela Prefeitura. Um lugar de luz. Naquele ponto da Penha, cercado de comunidades com tantos problemas, tanta violência e tanta pobreza, a Arena Dicró é uma beleza de espaço, limpa, colorida e bem cuidada, um teatro com todos os equipamentos funcionando à perfeição, camarins, arquibancadas, ar condicionado, sistema de som, varas de luz. Do lado de fora, no pátio, há um lugar para crianças brincarem, espreguiçadeiras, jardins. E um restaurante de mesinhas cobertas de chita, com bancos de madeira tosca e luminárias feitas com ralos de cozinha, onde também funciona uma pequena biblioteca. Dali a pouco, o público começou a chegar, mais de cinquenta pessoas. Um público atento, que se emocionou em silêncio, muito diferente das mais de 400 pessoas – das quais 300 eram jovens estudantes – que na semana passada se amontoaram na Lona Elza Osborne, em Campo Grande, outro lugar fantástico.

    “O lugar escuro” está há algumas semanas fazendo o roteiro das arenas e lonas culturais do Rio e tem sido, para todos nós da equipe da peça, uma experiência e tanto, que inclui coisas boas e ruins. Há as falhas de gestão, os espaços mal cuidados, mal aproveitados, muitas vezes quase vazios. Há as lonas mal localizadas, cercadas por ruas barulhentas, onde carros de som anunciando produtos obrigam os atores a interromper o texto. Há a visão desanimadora dos subúrbios favelizados, quilômetros e quilômetros de comunidades enchendo o horizonte de um lado a outro, até perder de vista. Há os valões imundos e as carcaças de carros abandonadas que vemos pelo caminho. E há o trânsito. O trânsito que para nós era uma noite, duas noites, mas que para milhões de pessoas é uma realidade diária, na ida e na volta do trabalho. Numa noite de temporal, a van com nossa equipe levou duas horas e meia para chegar à Pavuna; três horas e quinze para chegar a Campo Grande. Como falar em mobilidade urbana numa cidade assim?

    Mas, apesar de todas as dificuldades, a simples existência dessas arenas e lonas nos deixa repletos de uma esperança feliz. Não só pelos espaços, mas também pela beleza que é a participação do público. As crianças de menos de dez anos que assistiram à peça em silêncio e entenderam tudo (a peça é para maiores de 12 anos); as pessoas que me abraçaram chorando depois da peça, contando que tinham visto suas vidas no palco; o jovem que me apertou a mão e disse que estava indo ao teatro pela primeira vez. Tudo isso é um começo, e um começo imenso. São pontos de luz.

    Texto meu publicado na página de Opinião do jornal “O Globo”, em 16/04/2014 

  • Camilla vence Prêmio APTR

    Camilla vence Prêmio APTR

    A atriz Camilla Amado recebeu ontem o Prêmio Categoria Especial da APTR (Associação de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro), que foi entregue em cerimônia no Imperator, no Méier. Camilla, que foi indicada também para a categoria de Melhor Atriz por seu papel na peça “O lugar escuro”, recebeu o prêmio por seus 60 anos de dedicação ao teatro. E vai comemorar, como sempre, nos palcos: nos próximos dias, Camilla estará ao lado de Clarice Niskier e Isabella Dionísio em mais quatro apresentações de “O lugar escuro”, nas lonas e arenas culturais da Prefeitura, com entrada grátis. As apresentações desta semana serão em Campo Grande (quinta e sexta) e na Penha (sábado e domingo). Viva Camilla!

  • Alzheimer volta aos palcos

    Alzheimer volta aos palcos

    Foi sexta-feira (21 de março) a reestreia da peça O lugar escuro, sobre o Mal de Alzheimer, que eu adaptei a partir do meu próprio livro, lançado em 2007 pela Objetiva. A nova temporada está sendo nas lonas culturais da Prefeitura, com entrada franca. Assim como na temporada do ano passado (no Espaço Sesc, em Copacabana), a peça tem direção de André Paes Leme e as atrizes Camilla Amado e Clarice Niskier nos papéis de mãe e filha. O papel da neta, antes interpretado por Laila Zaid, será agora vivido por Isabella Dionísio. Por O lugar escuro, Camilla Amado foi indicada para os prêmios Shell, Cesgranrio e APTR na categoria de Melhor Atriz em 2013.

    As primeiras apresentações foram na Arena Jovelina Pérola Negra, na Pavuna, e na Lona Jacob do Bandolim, em Jacarepaguá. Seguem-se apresentações (sempre em dois dias seguidos) na Lona Terra, em Guadalupe (dias 4 e 5 de abril, às 20h), na Lona Cultural de Campo Grande (9 e 10 de abril, às 19h30), na Arena Dicró, na Penha (dias 12, às 20h, e 13 de abril, às 19h) e na Arena Fernando Torres, em Madureira (1 e 2 de maio, em horário ainda a ser definido).

    Nos dias 28, 29 e 30 de março, a peça O lugar escuro foi apresentada em Curitiba, como parte do projeto Caixa Cultural. Por esse mesmo projeto, a peça terá também três apresentações em Fortaleza, em data ainda a ser marcada.

     

  • Bate-papo na Travessa

    “Segundas de primeira”. É como vai se chamar o pequeno ciclo de palestras que eu e Ruy Castro vamos fazer, juntos, nesse mês de março, na Livraria da Travessa do Leblon. Os encontros, um bate-papo informal (a entrada é gratuita), começarão logo depois do Carnaval, em três segundas-feiras seguidas – dias 10, 17 e 24 de março –, sempre às 8h da noite.

    Na primeira conversa (dia 10), o tema será “Conto e crônica”, abordando os diferentes aspectos desses dois gêneros da literatura, suas diferenças e semelhanças. Na segunda-feira seguinte (dia 17) o assunto será “Romance & Biografia”, trazendo o contraponto entre ficção e não-ficção. No último encontro, dia 24 de março, eu e Ruy falaremos sobre literatura de viagem, assunto que rendeu o livro “Terramarear”, que escrevemos a quatro mãos.

    A Livraria da Travessa do Leblon, onde acontecerão os encontros, fica no Shopping Leblon, na Avenida Afrânio de Mello Franco.