Categoria: Novos Contos Mínimos

  • As pedras de Palmira

    As pedras de Palmira

    Eu gosto de pedras. Fui criada em torno delas. Havia a gruta atrás do nosso sítio, em Jacarepaguá, no meio da mata, que formava um esconderijo perfeito para nós, crianças. Lá em cima, no bojo úmido e sombreado da caverna, longe da casa e dos olhos dos adultos, podíamos sonhar todas as aventuras. E havia, também, a pedra da cidade, a pedreira atrás do meu prédio, no Leblon, onde brincávamos de soltar pipa junto com os meninos da Cruzada e da Praia do Pinto. Meu irmão soltava pipa, eu não, eu não conseguia, não tinha aquela destreza. Eu só ajudava. Enquanto meu irmão tomava distância, eu ficava segurando, para só soltar na hora em que ele mandasse. Mas era então, quando a pipa subia, que vinha a melhor parte. Eu me deitava na pedra quente e ficava olhando as pipas no céu. Aquela sensação da pedra nas costas, sua força, seu calor, e o contraste entre sua materialidade me prendendo ao mundo e as pipas voejando no céu, essa sensação ficou marcada em mim.

    A gruta de Jacarepaguá desapareceu. O sítio foi vendido, loteado, e em seu lugar fizeram um condomínio de casas. Da pedreira do Leblon também restou pouca coisa: assisti, da minha janela, enquanto, por anos a fio, ela era retalhada, desbastada e consumida, para que ali se plantasse um shopping. Ninguém mais solta pipa na Pedra do Baiano, que é como ela se chamava. Talvez seja por isso, por essas pedras perdidas, que tanto me doeu ver caindo ao chão as pedras de Palmira, na Síria.

    E as pedras de Palmira são muito mais do que pedras. São história e cultura. O templo de Baalshamin, e agora o Arco do Triunfo, tantas belezas, tudo destruído pela estupidez humana. Santuários, arcos, colunas, muros, aquilo que havia resistido ao desgaste de séculos – a cidade síria foi fundada há cinco mil anos e seus principais templos tinham pelo menos dois mil – se desfazendo em pó em um segundo. Meu coração se contraiu ao ver as imagens das explosões.

    Mas aí pensei no arqueólogo velhinho, que tomava conta das ruínas de Palmira. Ele foi decapitado pelos agentes do Estado Islâmico, quando estes chegaram para dinamitar os templos. Chamava-se Khaled al-Asaad e tinha 81 anos. Uma vida vale mais do que qualquer pedra de dois mil anos. Mas talvez ele não achasse isso. E deu a sua tentando salvar as pedras que amava.

  • A presença

    A presença

    O homem abriu os olhos – e pronto. Foi assim, um segundo apenas e estava completamente desperto, passando do sono ao alerta de forma instantânea, como sempre acontece com os gatos.

    Mas seus olhos não lhe mostraram nada, a escuridão era absoluta.

    Tentou se lembrar que lugar era aquele. Mexeu devagar a mão direita, apalpando a superfície sobre a qual se encontrava. Ele não era dessas pessoas catatônicas, que, quando acordam, levam vários minutos para entender onde estão. Sempre passava do sono à vigília com rapidez, sem meios termos. Era, portanto, estranho que, estando tão completamente desperto, não conseguisse reconhecer o lugar onde estava. Estranho também que sentisse, junto com aquele não reconhecimento, um incômodo, um rumor interno subindo, quase um presságio.

    Moveu um pouco mais a mão. Era um lençol. Estava deitado em uma cama, embora tivesse certeza de que não era a sua. Começou então, aos poucos, a se lembrar. Era uma viagem de trabalho. Uma cidade estranha. Um hotel, claro. Nada de mais aí. Seria só estender mais o braço, buscar um abajur e acender a luz. Mas por que adiava esse ato tão simples? Por que a tremenda sensação de inquietação?

    Continuou parado, à espera de uma explicação interna para o que sentia. E ela veio. A princípio apenas sutil, mas logo avassaladora, tornada certeza. Havia alguém ali dentro. No quarto. No escuro. Um intruso.

    Recolheu a mão para junto do corpo. Esperou. Sentiu alguma coisa riscar-lhe o pescoço, muito de leve, e demorou a entender que era uma gota de suor escorrendo. Foi só então que percebeu a dimensão do próprio medo. Mas não um medo qualquer, um medo físico – não. Sabia que ali a seu lado havia alguma coisa inexplicável, impalpável. Uma presença.

    O surgimento dessa palavra em seu cérebro fez os cabelos dos braços se eriçarem, em um segundo. E antes que o medo se transformasse em pavor, com um impulso, sem refletir, o homem se sentou na cama e acendeu a luz.

    Ficou parado olhando para o espaço vazio a seu lado, na cama de casal. Havia um desalinho, uma perfeita mossa, muito bem delineada no lençol. A marca de um corpo.

  • Multidões

    Multidões

    Eu estava no coro que cantou “Love of my life” junto com Freddie Mercury e o Queen no Rock in Rio de 1985. E no show de Paul McCartney no Maracanã em 1990, no dia que entrou para o Guiness como o maior público de um show de rock na história, com 184 mil pessoas. Eu estava no comício das Diretas, na Candelária, que reuniu um milhão de pessoas em 1984. E estava no Maracanã no Brasil-Paraguai de 1969, quando o Brasil se classificou para a Copa de 70, com um gol de Pelé. Foi o recorde oficial absoluto de público no estádio, 183.341 torcedores – e esse 1 era eu.

    Não digo isso para me jactar. Acho mesmo que, tirando o comício das Diretas e o show do Paul, participei das outras ocasiões por mero acaso, sem saber bem por que estava ali. Fui porque fui, sem a mais remota consciência de estar vivendo um momento marcante. Mas falo do assunto por uma razão: o fascínio que tenho pelas multidões.

    Estar no seio de uma massa compacta faz desaparecer o indivíduo, sua personalidade se esbate, e ele passa a ser, queira ou não, parte de um todo. A multidão respira e ruge, tem vida própria. Pode ser perigosa. Há beleza nessa força pulsante, incontrolável, nesse monstro do Bem e do Mal que são os grandes aglomerados de pessoas. Ali, tudo pode acontecer. É isso que me atrai.

    Essa dissolução do ser individual – mais do que o aperto ou a dificuldade de respirar – provoca fobias, torna as multidões apavorantes para algumas pessoas. Eu mesma já vivi pelo menos dois momentos de angústia dentro de multidões: uma delas, num jogo de futebol, mas não no Brasil-Paraguai e sim num Fla-Flu, naquele mesmo ano de 1969, em que, à entrada do Maracanã, a massa movente quase me arrancou da mão de meu pai. Tive muito medo. Também fiquei à beira do pânico em um desfile do Bola Preta, há alguns anos, quando a multidão me empurrou a ponto de meus pés já quase não tocarem o chão, situação da qual só consegui escapar me jogando escada abaixo para dentro de uma estação do metrô. Mas nem esses momentos difíceis foram capazes de diminuir meu fascínio pelos aglomerados humanos.

    No meio da multidão, tenho prazer em me sentir dissolvida, anulada, à mercê da massa. A um passo do perigo e sem poder fazer nada. Há um momento inverso em que experimento sensação semelhante: é quando estou sozinha, andando pelas ruas de uma cidade desconhecida. Quando isso acontece, sou igualmente invadida por uma euforia estranha. É também desafio, misto de temor e prazer. Talvez seja esse, então, o ponto de contato: porque estar perdido no meio da multidão compacta é pura solidão.

  • O céu dos gatos

    O céu dos gatos

    Era um menino que gostava de ler. Desde muito pequeno, quando ainda não tinha sido alfabetizado, já se interessava por livros e revistas, principalmente as revistas de quadrinhos. Adorava história em quadrinhos. Era capaz de ficar horas e horas deitado no chão do quarto, com as revistas espalhadas em volta, lendo, lendo, lendo. Os pais achavam aquilo sensacional – um menino que, ao contrário de muitos de sua geração, ainda gostava de papel. Porque, além de ler livros e revistas, o menino gostava de colecioná-los. Já tinha uma estante cheia de livros no quarto e suas revistas em quadrinhos ficavam empilhadas dentro de um baú de madeira, separadas por autores,  coisa impressionante para a idade dele.

    Naquela tarde, o menino estava esparramado no chão, folheando um livro com tirinhas de Calvin e Haroldo. Eram personagens que o menino adorava, tinha até a impressão de que ele e Calvin eram parecidos. Foi quando viu a tirinha em que Calvin olhava para seu tigre Haroldo, e pensava: “Quando nós dois morrermos, como vai ser? Porque eu vou para o céu dos humanos, mas Haroldo vai para o céu dos tigres. Como é que a gente vai se encontrar?”.

    O menino leu aquilo e ergueu os olhos. Seu gato preto-e-branco, Fu Manchu, estava deitado no chão à sua frente, olhando bem para ele. Fu Manchu era um gato muito legal. Tinha nome de vilão (o pai do menino é que tinha escolhido), mas “uma alma de passarinho” (palavras da mãe). A mãe vivia dizendo que, ao contrário do que muita gente pensa, os bichos têm alma, sim.  Portanto, ainda mais sendo tão bonzinho, quando morresse Fu Manchu iria para o céu. Mas o céu dos gatos, não dos humanos. Então, quando isso acontecesse, e quando ele, menino, morresse também – como é que eles fariam para se encontrar?

    Embatucou. Nunca tinha pensado na coisa sob aquele ângulo. Tornou a olhar bem para Fu Manchu, que agora estava se lambendo, com um daqueles contorcionismos que só os gatos sabem fazer. Mas aí o menino deu um muxoxo:

    Ah, que besteira ficar pensando nisso agora. Ninguém aqui está pretendendo morrer. Ainda falta muito, muito  tempo para isso acontecer, concluiu. E, quando acontecer, eu dou um jeito. Afinal, minha tarefa é muito mais fácil que a do Calvin. Perto do céu dos tigres, deve ser moleza entrar no céu dos gatos.

  • Um olhar de Proust

    Um olhar de Proust

    Sou dessas pessoas que tomam nota dos títulos de todos os livros que leem, para no final do ano saber quantos foram. Desde que comecei a fazer tais anotações, tenho tido anos melhores e piores. Não lembro bem, mas meu recorde foi alguma coisa perto de 40 livros por ano. Gostaria de chegar a 50, o que daria mais ou menos um livro por semana, mas até hoje não consegui. Verdade que, dos livros que leio, muitos me tomam muito tempo. Podem ser livros difíceis, ou ter muitas páginas, e podem também ser livros que, por sua densidade e linguagem, pedem para ser degustados devagar. É o caso dos livros de Proust.

    No início do ano passado, ao escrever minhas resoluções anuais (outra mania minha), botei na lista: ler Proust. E por “ler Proust”, queria dizer ler os sete volumes de “Em busca do tempo perdido”, e não apenas trechos, fragmentos (lindos, lindos), como sempre fiz. Pensei que conseguiria ler os sete volumes em 2014, mas não consegui: li muitos livros no ano passado, e entre eles estavam vários tomos do “Em busca do tempo perdido” – mas não todos. Alguns ficaram para este ano.

    Há poucas semanas, terminei o último, “O tempo redescoberto”, seguramente um dos mais belos dos sete livros, pois trata muito do que é a literatura, do que é escrever. E vou dizer uma coisa: agora que acabou, estou com síndrome de abstinência de Proust. Quando me sento no sofá e olho para minha mesinha de centro, onde ficam os livros que estou lendo (leio vários ao mesmo tempo), me dá aquela saudade.

    Entendi por que dizem que ler Proust faz bem à saúde. Nestes tempos tão difíceis, tão brutais, sua observação delicadíssima do mundo nos preenche de uma forma especial. Tive a prova cabal disso outro dia: estava na sala de espera da veterinária, meu gatinho ia fazer um exame. A salinha é apertada e fica em um sobrado de Ipanema, no segundo andar, aonde se chega por uma escada estreita. Eu estava sentada diante da porta, vendo o vão escuro da escada e a luz da rua, lá embaixo. Queria estar na rua, a caminho de casa, em qualquer lugar que não fosse aquela sala de espera, com meu gato na gaiola. Mas de repente minha atenção se prendeu a uma bicicleta, acorrentada a uma árvore, bem em frente à porta do sobrado. Fiquei olhando a roda traseira da bicicleta, seus aros, que formavam uma estrela, o pneu sobre uma poça d’água, feita de matéria escura e oleosa. E de repente percebi naquela cena, que se recortava à minha frente, uma beleza impensável. Como se, de tanto ler Proust, ele tivesse contaminado – no melhor dos sentidos – meu olhar. E me desse a chance de escapar dali, de escapar de mim mesma, e de receber, através dos meus sentidos exacerbados, a fabulosa plasticidade do mundo.

  • Por quê?

    Por quê?

    A mulher começou a tirar os objetos, um por um, da gaveta aberta. Papéis, pastas, recortes. Muitos envelopes, de vários tamanhos. Canetas, lápis. E, principalmente, muitas caixas. Caixas pequenas, médias, de papelão, de madeira, de plástico duro. Algumas tinham tachinhas, elásticos, essas coisas pequenas. Mas outras não tinham nada. A mulher não sabia por que, ao longo de todos aqueles anos, tinha acumulado tantas caixas dentro da gaveta.

    De repente, ela se lembrou de uma história. Alguém lhe contara, não sabia mais quem: uma filha do escritor Guimarães Rosa, quando era criança, tinha recebido do pai, de presente, uma caixinha cheia de acentos circunflexos. Quem mais, a não ser Guimarães Rosa, poderia ter a ideia de dar à filha pequena uma caixinha de acentos circunflexos? Acentos de vários tamanhos e tipologias, recortados com todo capricho de páginas de jornais e revistas. A caixa estava cheia até em cima.

    A mulher continuou tirando os objetos da gaveta, um a um. A maioria ia para o lixo. Alguma coisa, que lhe parecia valer a pena guardar, ela colocava dentro de uma sacola grande, para levar consigo. E, enquanto continuava com sua tarefa, ia pensando. Assim como a filha de Guimarães Rosa, ela também queria ter uma caixinha, mas não de acentos circunflexos – e sim de porquês.

    Por quê? Era uma pergunta que se fazia sempre, que fizera pela vida inteira, a respeito de tudo. Ao mesmo tempo, tinha orgulho de saber manejar os porquês. Por que o porquê às vezes é junto, às vezes é separado? Porque sim. A mulher gostava de brincar com seus porquês.

    Mas agora não havia qualquer motivo para brincadeira. O mundo de repente parecia imensamente triste. No mesmo dia em que abriu o jornal de manhã e viu a fotografia do menino morto, a mulher soube que estava indo embora. Depois de tantos anos de trabalho. Por quê?

    Era absurdo, era injusto. Era assustador.

    Tornou a olhar a gaveta. Faltava pouco, tinha muita bobagem ali. Jogou os últimos envelopes fora, as canetas velhas. Puxou a gaveta e virou-a de cabeça para baixo, para que a poeira acumulada nos cantos caísse na lata de lixo. Depois reencaixou-a no lugar e ficou olhando para a gaveta aberta. E só então entendeu que aquela gaveta, que parecia vazia, na verdade estava cheia de porquês.

  • Os livros falam

    Os livros falam

    Os livros falam. A frase me paralisou. Fiquei olhando para ela, o jornal aberto entre as mãos. Quem disse isso foi Ana Beny, que trabalha restaurando livros e manuscritos na Espanha e no Egito, em entrevista à repórter Cristina Tardáguila. Ela explicava que, pelo formato das páginas, por suas manchas e dobras, pelos pontos mais gastos do papel – dá para adivinhar tudo: a postura, os hábitos, até os vícios de quem lê. Observando livros e manuscritos que já restaurou, ela sabe, por exemplo, que os monges europeus da Idade Média liam de pé, durante as refeições. Ou que os islâmicos liam em posição de lótus, com os livros apoiados em prateleiras em forma de x.

    Essa memória gravada no papel tem uma beleza singular e já é, por si só, razão para que o objeto livro continue existindo para sempre. Digo isso em uma semana diferente, a semana em que, depois de resistir por mais de cinco anos, acabo de entrar para o Facebook. Eu, que sempre fui uma pessoa tímida na vida real, tendo poucos (mas muito queridos) amigos, me vejo de repente em meio a essa avalanche de contatos, revendo rostos que parecem saltar do passado, encontrando centenas de pessoas com quem nunca conversei. Assombrada e fascinada por tudo isso, abro de repente o jornal e leio a frase de Ana: os livros falam.

    Ana dá conselhos: não mantenha os livros em um lugar onde você não gostaria de ficar, um porão frio demais, ou quente demais, ou úmido demais. Essa comparação do livro com uma pessoa, esse cuidado com seu bem-estar, me faz pensar em um conto mínimo que escrevi há muito tempo, no qual descrevia a maneira como Alma Mahler cuidava de seus livros mais queridos – embalando-os em um berço. Os livros físicos ainda são um objeto de amor.

    Espero que eles não desapareçam. Como, aos poucos, vão desaparecendo sebos e livrarias. Como já desapareceram os rascunhos, os rastros deixados pelos escritores em sua luta pela palavra certa. Os manuscritos não existem mais. Tudo o que escrevemos vai sendo apagado e tragado para esse imenso limbo onde dormem as palavras mortas.

    Por isso, a frase de Ana me tocou tanto. Atenção: os livros falam.

    Recebo-a quase como uma sentença, um alerta, uma admoestação. Cuidado. O mundo virtual é uma espiral sem fim, linda e terrível como toda arma capaz de transformar a humanidade. Mas não esqueça dos livros, feitos de polpa e tinta, de páginas palpáveis, cheiros, sons. Não esqueça. Nunca.

  • Sempre aos domingos

    O desafio de um conto minúsculo. Letras, ideias, sensações, contidas no espaço exíguo circunscritas, prisioneiras. Um pequeno espaço, para nele despejar um oceano inteiro de paixões secretas.

    Mas não será como enxurrada, avalanche, enchente. Terá de ser gota a gota.

    Na verdade, vivemos assim, todos nós. Espremidos num tempo que se esvai tão depressa, tentando a todo custo deixar nossos rastros sobre a terra.

    Vivemos um conto mínimo.

     

    Esse pequeno texto que está aí em cima foi o primeiro Conto Mínimo que escrevi na vida, no dia 29 de setembro de 1997 – há quase duas décadas, portanto. O texto saiu na Ilustrada, caderno de cultura do jornal Folha de S. Paulo, e o espaço que me fora reservado tinha a largura de uma coluna e apenas 12 centímetros de altura (o que incluía o título). Na tela do computador, eram seis, sete linhas no máximo. Quase um hai-kai.

    Foram dois anos colaborando com a Folha, duas vezes por semana, até a estreia na Revista de Domingo do Jornal do Brasil, no dia 16 de maio de 1999. Ali, os Contos Mínimos ganhariam mais espaço – uma página inteira – e também mais repercussão, acabando por me fazer viver muitas experiências fortes com leitores e leitoras.

    Numa delas, durante uma palestra no Centro Cultural Banco do Brasil, uma senhora me perguntou se eu tinha ideia da responsabilidade do escritor e de sua capacidade de transformar a vida das pessoas. Surpresa, sem saber bem o que responder, balbuciei alguma coisa. Mas ela continuou: disse que um texto meu a tirara de uma depressão e a fizera voltar a fazer algo que fazia antes ler para pessoas cegas. Perguntei que texto era e ela, em resposta, começou a dizê-lo em voz alta. Sabia o Conto Mínimo inteiro de cor. Nunca mais esqueci essa cena.

    Trocamos telefones e mantemos contatos esporádicos. Pois há poucos dias ela me ligou, para me convidar para o lançamento de seu quarto livro. Depois daquele encontro no CCBB, tinha começado a escrever. E não parou mais.

    Esse tipo de contato direto com o leitor sempre me foi proporcionado pelos Contos Mínimos, porque a exposição na grande imprensa é muito maior e a resposta é mais imediata do que nos livros. Talvez por isso, os Contos Mínimos têm sido muito utilizados em provas e trabalhos escolares, tendo sido compilados em vários livros, o que sempre foi motivo de alegria para mim.

    Em 2006, depois de sete anos no JB, os Contos Mínimos chegaram ao fim, porque o próprio jornal tão importante, tão querido ­ já estava se acabando. Mas desde então, por todos os lugares do Brasil aonde vou, encontro pessoas que me falam daqueles textos, e perguntam: você não escreve mais?

    Por isso, decidi voltar a escrevê-los, aqui, neste espaço. Espero ter a disciplina para fazê-los toda semana, sempre num dia certo, como era antigamente. E, em homenagem ao JB, acho que vou fazer isso sempre aos domingos.