Categoria: Rio

  • Os maus modos do gigante

    Todo mundo que conheço achou uma coisa fantástica a greve dos garis no Rio. Eu, não. A Comlurb tem sido, há muitos anos, considerada uma empresa modelo, boa de se trabalhar e bem avaliada pela população. A imprensa cansou de dar matérias sobre seus funcionários – um deles, Renato Sorriso, chegou a ser um símbolo da cidade. E até há pouco tempo era assim. De repente, os garis do Rio transformaram-se em pessoas exploradas, mal pagas e protagonistas de uma greve legítima para ter o direito de ganhar cerca de R$ 1.800. Tudo bem. Eles têm os seus direitos. O que achei estranho foi terem feito a greve contrariando uma decisão da Justiça e do próprio sindicato, o que deixou a Prefeitura sem interlocutor. E pior: deflagraram o movimento em pleno Carnaval.

    Ora, uma greve de lixo é sempre um trauma para qualquer cidade. Por ser uma greve tão visível, que causa transtornos imensos, um movimento como esse tem, sempre, enorme poder de barganha. Se os garis do Rio tivessem feito uma greve de advertência algumas semanas antes do Carnaval, certamente teriam tido um bom resultado em suas negociações. Mas, não. A greve deles foi de uma hora para outra, e o que vimos? A cidade cheia de turistas e inundada de lixo. A ponto de o Prefeito Eduardo Paes ter atendido a quase todas as reivindicações deles para evitar o caos absoluto, porque havia previsão de chuva forte para o dia seguinte.

    Na época, li o noticiário com a sensação de que aquilo era uma chantagem. Que o Prefeito, sem opção, estava se rendendo a ela. E não pude deixar de pensar: e se os garis decidirem fazer o mesmo na Copa? Sem sindicato, desrespeitando a Justiça e pedindo, digamos, salários de R$ 5 mil? E se os aeronautas também decidirem entrar em greve? E os motoristas de ônibus. E os policiais. Será que existe um plano de contingência capaz de lidar com isso?

    Até a greve dos garis no Rio, tínhamos pelo menos a garantia de que haveria a palavra da Justiça, a decisão sobre se uma greve é ou não legal. Quando eu trabalhava como jornalista, havia algumas máximas que circulavam nas redações e que eram verdadeiras cláusulas pétreas. Uma delas, “Decisão da Justiça não se discute. Cumpre-se”. Mas hoje em dia, como bem sabemos, até um ex-presidente da República afronta as decisões judiciais legítimas, tomadas por ministros indicados por ele.

    E, enquanto isso, nosso país vai caminhando, à catraca. Qualquer grupo de dez ou doze pessoas insatisfeitas pela falta de um muro em sua rua bota fogo num sofá e fecha a Avenida Brasil, infernizando a vida de centenas de milhares. O mesmo pode acontecer na Avenida Copacabana ou na Avenida Paulista, a qualquer momento, pelos mais diversos motivos, justos ou não. Incendiar ônibus e automóveis é coisa que agora acontece quase todos os dias nas nossas cidades – e nem sempre isso é feito apenas por bandidos.

    No Brasil é assim: é oito ou 80. Ou estamos inertes, aceitando de braços cruzados os governos e desgovernos mais absurdos, ou de repente despertamos e aí não paramos mais. É o dilema que vivemos hoje. O gigante acordou. Mas ele precisa ter aulas de civilidade.

     

    Matéria publicada na página de Opinião do jornal “Folha de S. Paulo”, em 14/5/2014

     

     

  • Quanto tempo?

    Quanto tempo?

    Era uma daquelas manhãs de outono que o Rio exibe de vez em quando e que faz a gente esquecer todos os problemas – os da cidade e os nossos próprios. Poucos dias antes, uma baleia e seu filhote tinham sido avistados no mar, assim como um cardume de sardinhas, mancha escura se movendo sob a superfície de um verde-azul escandaloso. Por isso, naquela manhã, eu tinha decidido ir até a ponta do Arpoador, dar um mergulho.

    O Arpoador é um recanto da praia de Ipanema que eu conheço desde criança, ou melhor, desde bebê. Quando eu nasci, meus pais moravam no Jardim Botânico e sempre íamos à praia de carro – o fusquinha do meu pai. Estando de carro, podíamos escolher qualquer praia, mas quase sempre a praia escolhida era o Arpoador, justamente porque, ficando em uma extremidade, esse trecho forma um remanso, bom para as crianças brincarem sem susto. Era o que eu fazia. Naquele mesmo canto para onde me dirigia agora, eu, menina, brincava. Gostava especialmente de nadar no ponto em que a pedra adentra o mar, formando uma praia minúscula. Era ali, naquele pedaço, que eu catava tufos de algas, dizendo a mim mesma que eram pés de alface, perfeitos para o almoço das bonecas.

    Caminhando pela calçada, fui chegando ao Arpoador. O mar estava outra vez transparente, e manso, quase sem ondas. Não havia cardumes nem baleias à vista, mas eu imaginava que, ao mergulhar, veria peixinhos pequenos passeando em torno de mim. Isso sempre acontece no Arpoador quando o mar está calmo e limpo.

    Chegando ao extremo da calçada, desci pela pedra. Logo, estava dentro d’água. Ainda com água pela cintura, olhei em torno e vi os peixinhos esperados, pequenos filetes transparentes, quase se fundindo ao líquido em que nadavam. Fui adentrando o mar, passo a passo, afundando com gosto os pés na areia, a água já quase chegando aos ombros. Foi nesse instante que senti cócegas no pé. Pensei, com um sorriso, que fosse um dos peixinhos, passando por mim. Dei outro passo. A sensação se repetiu. E foi então, com susto, que me lembrei de uma coisa: na véspera, ao sair com uns sapatos meio apertados, tinha botado um pequeno esparadrapo no pé. A sensação que eu confundira com o roçar do peixinho na certa era o esparadrapo se desprendendo. Ele ia cair – e sujar meu mar encantado.

    Dei meia-volta, apressei o passo em direção à areia. Mas, quando saí da água, vi que era tarde: o esparadrapo tinha desaparecido. Eu deixara uma pequena parcela de sujeira para trás.

    Olhei para o mar à minha frente, lindo e transparente, apesar de tantas vezes maltratado, tantas vezes recebendo nossos rejeitos, nossos dejetos. Nós, seres humanos, que ainda não aprendemos a tratar bem do nosso planeta. E senti uma culpa enorme por aquele esparadrapo. E, claro, me veio à mente a pergunta que sempre nos ronda quando temos um mínimo de consciência ecológica: quantos anos?

    Até quando meu esparadrapo resistiria até se desfazer no mar?

    Quanto tempo?

     

     

  • Pontos de luz

    Pontos de luz

    AMARÉCOMPLEXO. Em letras maiúsculas, era o que dizia a faixa, estendida acima do muro colorido. Amar é complexo. A Maré Complexo. Pois bem, lá estava eu: domingo, fim de tarde, chuvinha fina e, enquanto Flamengo e Vasco disputavam o título do Campeonato Carioca, eu chegava à Penha Circular. Soube que ali pertinho havia uma sede da UPP, mas não vi polícia, nem carros blindados, nem armas – nada. Os únicos tiros que ouvi foram os estampidos dos foguetes na hora do gol do Vasco e, depois, no que daria o campeonato ao Flamengo.

    Estava na Penha, mais exatamente na Arena Dicró, para a apresentação da minha peça, “O lugar escuro”, sobre a doença de Alzheimer. No final da peça, o texto fala sobre a esperança de encontrar um pouco de luz na escuridão, lembrando que, no 11 de setembro, nos subterrâneos das Torres Gêmeas, os bombeiros descobriram uma vitrine cheia de copos de cristal – intactos. Pois era exatamente nisso que eu pensava ao chegar ali, àquele espaço de cultura criado pela Prefeitura. Um lugar de luz. Naquele ponto da Penha, cercado de comunidades com tantos problemas, tanta violência e tanta pobreza, a Arena Dicró é uma beleza de espaço, limpa, colorida e bem cuidada, um teatro com todos os equipamentos funcionando à perfeição, camarins, arquibancadas, ar condicionado, sistema de som, varas de luz. Do lado de fora, no pátio, há um lugar para crianças brincarem, espreguiçadeiras, jardins. E um restaurante de mesinhas cobertas de chita, com bancos de madeira tosca e luminárias feitas com ralos de cozinha, onde também funciona uma pequena biblioteca. Dali a pouco, o público começou a chegar, mais de cinquenta pessoas. Um público atento, que se emocionou em silêncio, muito diferente das mais de 400 pessoas – das quais 300 eram jovens estudantes – que na semana passada se amontoaram na Lona Elza Osborne, em Campo Grande, outro lugar fantástico.

    “O lugar escuro” está há algumas semanas fazendo o roteiro das arenas e lonas culturais do Rio e tem sido, para todos nós da equipe da peça, uma experiência e tanto, que inclui coisas boas e ruins. Há as falhas de gestão, os espaços mal cuidados, mal aproveitados, muitas vezes quase vazios. Há as lonas mal localizadas, cercadas por ruas barulhentas, onde carros de som anunciando produtos obrigam os atores a interromper o texto. Há a visão desanimadora dos subúrbios favelizados, quilômetros e quilômetros de comunidades enchendo o horizonte de um lado a outro, até perder de vista. Há os valões imundos e as carcaças de carros abandonadas que vemos pelo caminho. E há o trânsito. O trânsito que para nós era uma noite, duas noites, mas que para milhões de pessoas é uma realidade diária, na ida e na volta do trabalho. Numa noite de temporal, a van com nossa equipe levou duas horas e meia para chegar à Pavuna; três horas e quinze para chegar a Campo Grande. Como falar em mobilidade urbana numa cidade assim?

    Mas, apesar de todas as dificuldades, a simples existência dessas arenas e lonas nos deixa repletos de uma esperança feliz. Não só pelos espaços, mas também pela beleza que é a participação do público. As crianças de menos de dez anos que assistiram à peça em silêncio e entenderam tudo (a peça é para maiores de 12 anos); as pessoas que me abraçaram chorando depois da peça, contando que tinham visto suas vidas no palco; o jovem que me apertou a mão e disse que estava indo ao teatro pela primeira vez. Tudo isso é um começo, e um começo imenso. São pontos de luz.

    Texto meu publicado na página de Opinião do jornal “O Globo”, em 16/04/2014 

  • A casa de Lady Dark

    Há muito tempo que aquela casa de telhado normando, cercada de vegetação e muros de pedra, me chamava atenção. Parecia uma casa particular, reminiscente dos tempos em que o entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas tinha mais casarões do que prédios, mas eu sabia muito bem que não, que ali na verdade funcionava um museu, um centro de cultura: a Fundação Eva Klabin. Só que, por um motivo ou por outro, ainda não tinha ido lá. Até que a hora chegou.

    Foi em grande estilo. Era noite de lua cheia e haveria um sarau nos jardins. Sob um friozinho outonal (nunca é inverno no Rio) e um céu limpo de julho, percorri o caminho de pedras que beira o lago de carpas. Em volta, uma vegetação densa, exuberante, exótica, na qual se percebe de imediato as mãos de um mestre: o jardim da casa, embora não tenha sido originalmente concebido por ele, recebeu muitas plantas por sugestão de Burle Marx, que era grande amigo de Eva Klabin. É um jardim pequeno, mas tem um efeito surpreendente, que é o de nos transportar de imediato para um ambiente de silêncio e calma. Alguma coisa na disposição daquelas plantas faz o barulho do trânsito, ali do lado, desaparecer como por encanto.

    Sob um toldo retrátil, mesinhas tinham sido espalhadas para receber os convidados, que assistiriam à apresentação do conjunto vocal Os Cariocas, cantando, com sua afinação impecável, os clássicos da bossa nova. Tudo perfeito. Mas da casa em si, que àquela hora da noite não estava aberta à visitação, pude apenas vislumbrar alguns ambientes através das vidraças. E decidi voltar durante o dia para conhecer o museu.

    É uma surpresa. Dentro daquela casa comparativamente modesta, desconhecida de muitos cariocas, há um acervo extraordinário, cobrindo mais de três mil anos de história da arte. É bastante variado, incluindo arte oriental, ocidental, greco-romana, egípcia. Dentro desta última há peças impressionantes, como um rosto de esquife da Oitava Dinastia. Em madeira incrustada de marfim e ébano, o rosto de olhos negros e expressivos parece querer nos comunicar alguma coisa, pensamento que emana do fundo dos tempos: a peça tem três mil e quinhentos anos.

    Um retrato feito por Tintoretto, a Madona atribuída inicialmente a Boticelli (mas que estudos posteriores mostraram pertencer a um de seus colaboradores, provavelmente Filippino Lippi), o cartão para tapeçaria de Giovanni Romanelli (de 1639) que cobre toda uma parede, quadros de Lasar Segall (inclusive um retrato de Eva Klabin quando criança) e de Camille Pissarro (único impressionista exposto) são alguns dos destaques do acervo. Há também belas esculturas, como as tânagras gregas, a Madona de marfim (França, século Quatorze) e a dramática Santa Teresa de Ávila em madeira (Áustria, século Dezoito). Em meio a um acervo tão clássico, o visitante se depara de repente com uma instalação de ampolas emanando luz, enquanto o ambiente é envolvido por vozes, que não se sabe bem de onde vêm. É o projeto Respiração, de Daniela Thomas e Lilian Zaremba, uma intervenção de arte contemporânea que certamente agradaria a Eva Klabin.

    Eva Klabin (1903-1991) era mulher sem preconceitos, que gostava de tudo em matéria de arte. A personalidade dela é um dos destaques do lugar, pois todos os cômodos da casa estão como eram quando ela vivia lá. Na introdução do livro “A coleção Eva Klabin”, o curador Marcio Doctors faz uma observação interessante: diz que, apesar de estar à beira da Lagoa, lugar tão luminoso, dentro da casa parece ser sempre noite. Perfeito para uma mulher que sempre foi notívaga (seus jantares às 3h da manhã ficaram famosos) e era apaixonada por literatura policial. Verdadeira Lady Dark.

     

    Matéria feita para a revista Serafina, da Folha de S. Paulo, em agosto de 2010.

  • O Baixo Bandeira

    “Baixo: área de intensa vida noturna, com grande concentração de bares e restaurantes, frequentada especialmente por jovens.”

    É o que está escrito no dicionário Houaiss, na vigésima sétima acepção da palavra, caracterizada como informal e oriunda do Rio. Por causa dos cariocas, “baixo” virou sinônimo de aglomeração festeira. Tudo começou com o Baixo Leblon (em contraposição à região acima da Ataulfo de Paiva, que é chamada de Alto Leblon), depois vieram os quiosques Baixo Bebê, Baixo Vovô e aí não parou mais. Agora, temos o Baixo Bandeira.

    Na melhor tradição do antigo Triângulo das Bermudas – a esquina do Baixo Leblon que juntava os restaurantes Real Astória (extinto), Diagonal e Pizzaria Guanabara (ainda firmes) –, três bares movimentam um recanto da rua Barão de Iguatemi, na Praça da Bandeira, região da Grande Tijuca geralmente só associada a calor e enchentes. Aconchego Carioca, Bar da Frente e Petit Paulette ficam no mesmo trecho da Iguatemi, ruazinha arborizada, cheia de casarões centenários e vilas com portões de ferro que parecem saídos das memórias de Nelson Rodrigues.

    Pode ser uma surpresa para quem acha que o Rio é só Zona Sul, mas a Praça da Bandeira sempre foi uma região aprazível, de casas de classe média. Ali junto à Barão de Iguatemi, na rua do Matoso, moraram nos anos 1950 três rapazes que um dia seriam muito conhecidos: Erasmo Carlos, Tim Maia e Jorge Benjor. A calma das ruazinhas permanece, mas no trecho dos três bares o burburinho é total. Estive lá num fim de tarde tranquilo, no meio da semana, mas tenho amigos que já ficaram mais de duas horas à espera de mesa nos dias de mais movimento.

    As três casas têm personalidades diferentes. Com paredes coloridas e redes penduradas no teto (sempre foi sua marca), o Aconchego Carioca é a mais sofisticada das três e funciona agora num belo casarão cor de salmão com toldos verdes, depois de ter ocupado o espaço menor, do outro lado da rua, que foi herdado pelo Bar da Frente (daí o nome). Aqui e ali, detalhes como os bonecos de Lampião e Maria Bonita na porta dos banheiros (limpíssimos) ou as bolachas de chope feitas de chita florida fazem a alegria de quem reconhece os méritos do chamado botequim pé-limpo. Dos três, o Petit Paulette é o que tem a decoração mais simples, mas é simpático e espaçoso. E os três restaurantes têm algo em comum: neles, a chamada baixa gastronomia carioca alcança níveis de altíssimo refinamento. O Baixo Bandeira é um lugar para quem gosta de comer e beber. Mas, como disse um amigo meu, “não é para um bebum qualquer, é para o bebum gourmet”.

    No Aconchego Carioca, só a carta de cervejas tem quase duzentas marcas (mais de cinquenta brasileiras), incluindo produtos da Inglaterra, Holanda, Alemanha, Austrália, Espanha, República Tcheca, Argentina e do Canadá. No Bar da Frente, a carta é menor, mas também respeitável. E no Petit Paulette, o forte são as cachaças mineiras (mais de vinte marcas diferentes).

    Mas é na comida que os três restaurantes se destacam. Só os nomes dos pratos já dão uma ideia do colorido gastronômico local. Além do fabuloso bolinho de feijoada – inventado pela proprietária Kátia Barbosa –, o Aconchego Carioca tem, por exemplo, o bolinho de feijão branco com rabada e a costela de porco com molho de goiabada; o Bar da Frente tem a lingüiça pinguça (flambada na cachaça), o arroz de puta rica (com carne seca, palmito, frango e ovos) e o risoto de rabada; o Petit Paulette tem a costelinha a passarinho com farofa de jiló e o croquelete, que são rolinhos de queijo e carne seca empanados em torresmo macerado. Mas são mesmo só exemplos. Tem muito mais. Só não dá para pensar na dieta.

     

    Matéria feita para a revista Serafina, da Folha de S. Paulo, em outubro de 2010.

     

     

  • Saudades, Moa…

    Faz tempo que não vou ao Samba do Trabalhador, no Andaraí, liderado por meu querido Moacyr Luz. Tenho lido nos jornais que a roda está fazendo oito anos e comemorando com o lançamento de um DVD. Coisa boa. Estive lá no Renascença em uma das primeiríssimas edições (talvez a primeira, não tenho certeza), em 2005, e uma hora dessas vou aparecer de novo. Por conta da saudade dessa que é uma das rodas mais animadas e originais do Rio, remexi no meu baú de textos e descobri esse que reproduzo aqui embaixo. Ele foi escrito em 2009 para a revista “Serafina”, da Folha de S. Paulo, com o título de “Carioca trabalhador”. E continua valendo. Salve, Moa!

    CARIOCA TRABALHADOR

    “O Paulista não veio. Disseram que anda sumido, que está doente. Uma pena, pois sua aparição sempre foi um acontecimento: roupa branca engomada, chapéu de palhinha, sapato bicolor, o passo miúdo apoiado na bengala com castão de prata, à qual está sempre atada uma pequena garrafa de cachaça. Mas outras figuras tradicionais vão chegando. Dona Pipoca, Rubem Confete, Tia Jô, Zila do Saco. As duas últimas vêm a caráter, de torso, rendas e colares, porque é dia de Iemanjá e elas acabaram de desfilar no Afoxé Filhos de Ghandi (mais democrático do que o baiano, o bloco carioca aceita mulheres). Sentam-se sob a caramboleira, que, ao lado da lona azul e branca, dá sua sombra para poucos. Vai começar mais um Samba do Trabalhador.

    Não é um programa para principiantes. Segunda-feira à tarde, no quentíssimo verão carioca, a quadra de cimento do Clube Renascença, no bairro do Andaraí, ferve. A impressão é de que faz 50 graus aqui. Mas ninguém se importa. Há uma alegria danada na cara das pessoas, inclusive dos músicos que estão em torno da mesa, na roda de samba liderada por Moacyr Luz.

    É uma roda diferente de todas as outras, até pelo dia e hora em que acontece, em pleno dia de semana e às quatro da tarde. No início, em 2005, começava às duas, mas os organizadores fizeram uma concessão e empurraram o horário mais para frente. Não fez muita diferença. Todo mundo aqui aguenta bem o calor.

    Esse nome que Moacyr Luz deu à roda, Samba do Trabalhador, parece ironia, mas é uma homenagem aos músicos, que trabalham a semana inteira e só têm a segunda para folgar e se divertir. E eles não são os únicos: alguém me conta que a quadra também recebe muitos atores, cabeleireiros, manicures – todo o pessoal que folga na segunda. Tudo muito natural, porque essa história de que carioca não trabalha já foi desmoralizada até pelo IBGE.

    Logo, o vozeirão de Gabriel Cavalcante enche a quadra, enquanto se espalha no ar um delicioso cheiro de alho, dos quitutes que começam a ser preparados na cozinha: pastel, linguiça, frango a passarinho e os famosos caldinhos, de feijão, de ervilha, às vezes também de rabada e sururu. Lindos sambas de quadra ou partido alto vão sendo desfiados sob a lona, até que alguém puxa um pot-pourri de bossa nova, que soa bonito demais com aquela percussão pesada.

    O Samba do Trabalhador é uma das melhores rodas de samba da cidade e que bom que aconteça (o ano inteiro) num lugar tão tradicional, o Renascença, reduto do movimento negro carioca. A negritude do clube está presente nas paredes, em coloridas pinturas naïves que retratam Zumbi, a Escrava Anastácia e Nossa Senhora Aparecida, além dos santos de fé, São Jorge e Cosme e Damião. Fico apreciando esses detalhes, sentada na varanda, ao lado do presidente do clube, Jorge Ferraz. Este, com sua elegância de príncipe, me conta que ano que vem o Renascença vai fazer 60 anos. Grande cozinheiro, Jorge é famoso pela feijoada que faz, com rabada dentro. Feijoada com rabada num calor de 50 graus?, pergunto. Ele ri do meu espanto e me explica que, com bom humor, nada faz mal. Olhando em volta e vendo aquele pessoal todo nas mesas, cantando e dando risada, eu me convenço. Alegria faz bem à saúde. E me vem uma vontade de ir lá fora e fincar na porta uma tabuleta, em reverência: Silêncio. Cariocas trabalhando.”

     

     

  • Aula de história no morro

    Aula de história no morro

    Conheço cariocas da gema que jamais foram ao Pão de Açúcar e ao Corcovado. Não chego a tanto, mas trazia no meu currículo uma falha: nunca ter subido o morro da Conceição. Essa lacuna foi preenchida outro dia com a ajuda de dois amigos, Manoel Mattos Filho, da Livraria Elizart (simpaticíssimo sebo da avenida Marechal Floriano), e Belmiro Fernandes, professor e pesquisador que conhece a história de cada uma das pedras seculares da Conceição. Foi uma aula de Rio Antigo.

    A chuvinha fina que caía na hora do passeio não nos intimidou. Nem mesmo quando, olhando as ladeiras íngremes, cujo calçamento de pedra brilhava de umidade, ouvimos Belmiro contar, rindo, que a Rua do Escorrega não tinha esse nome em vão e que antes se chamava Ladeira do Quebra-bunda. Mas ele garantiu: era só pisar com cuidado que ninguém ia escorregar. Segundo Belmiro, antigamente era muito pior, porque as lavadeiras botavam as roupas para quarar nas pedras do calçamento e isso as tornava um verdadeiro sabão. E assim, sem medo de quebrar o que quer que fosse, lá fomos nós, ladeira acima, na companhia dos nossos mestres.

    O morro da Conceição fica no bairro da Saúde, na região portuária que vai ser revitalizada. Dos quatro morros ocupados durante a fundação da cidade, restam apenas dois, o da Conceição e o de São Bento, onde fica o Mosteiro (os outros dois, do Castelo e de Santo Antônio, foram arrasados). Daí a importância de conhecer esse local histórico. Passear por ele, um emaranhado de vielas e escadarias (inclusive aquela escavada na rocha, que vai dar lá embaixo, a Pedra do Sal), é uma viagem não só no tempo, mas também no espaço. Temos a sensação de recuar séculos, só que não no Rio, mas em uma cidadezinha portuguesa. Os nomes pitorescos das ruas contribuem para reforçar a sensação: Beco das Escadinhas da Conceição, Rua do Escorrega, Rua do Jogo da Bola (não se refere a futebol, mas a uma espécie de bocha que se jogava no Rio no século 17), Ladeira do João Homem, Travessa do Sereno. Sem falar na paisagem, cheia de casinhas com portais de pedra, fachadas de azulejos e beirais de louça (embora muitas estejam precisando de restauração urgente).

    No morro da Conceição, todo mundo se conhece e o nível de violência é zero, até porque a região é ocupada pelo Exército (no alto do morro ficam a Fortaleza da Conceição, o Museu Cartográfico e o Observatório do Valongo). Tivemos a sorte de entrar no forte e no museu (em geral, é preciso agendar), além de visitar vários ateliês do bairro, porque naquele dia se realizava o Projeto Mauá, semelhante ao Santa Teresa de Portas Abertas. O Museu Cartográfico fica no antigo Palácio Episcopal, construção belíssima inaugurada em 1674, no lugar da ainda mais velha capelinha de Nossa Senhora da Conceição, que deu nome ao morro (erguida em 1590 por um casal de portugueses devotos). O forte, que é de 1743, também está cheio de recantos pitorescos: caminhos de pedra, casamatas com vista espetacular para a baía e a masmorra onde ficaram presos três inconfidentes, inclusive Tomás Antônio Gonzaga. Há ainda, dentro do forte, o que se acredita ser um resquício da muralha original que protegeu a cidade em sua fundação, em 1565, mas o local ainda não está aberto a visitação.

    Tudo isso meus amigos me contaram. Enfim, um grande passeio e, como eu disse, uma aula de história. Que acabou num cafezinho passado na hora, na própria casa do Belmiro (ele mora no morro da Conceição desde criança). Que tal?

     

     

    Matéria feita em 2010 para a revista Serafina, da Folha de S. Paulo. Hoje, dedico o texto ao querido Manel, que morreu no início do ano.

     

  • Janela carioca

    Janela carioca

    A noite já quase caía e eu ia passando pela praia de Ipanema em direção a Copacabana quando o motorista de táxi que me levava soltou uma exclamação. Inclinei-me para frente, sem entender bem o que ele dizia, só tendo percebido que a frase acabara com a expressão “tudo dourado”. Já ia pedir que ele repetisse o comentário quando meus olhos viram, através do vidro da frente do carro, a imagem à qual sem dúvida o rapaz se referia. Na altura do Castelinho e indo até a ponta do Arpoador, os prédios, a areia, a pedra, tudo estava cor de ouro – e brilhava, brilhava como um enfeite de Natal.

    O motorista diminuiu a marcha, ou talvez tenha sido um sinal de trânsito que, num ajuste perfeito e providencial, acabava de fechar. O fato é que ficamos os dois ali, em silêncio, olhando, observando o cenário tão conhecido, mas que naquele instante ganhava uma tonalidade incomum.

    Quando o carro recomeçou a andar, olhei para trás. O sol, que já quase se punha atrás do morro do Vidigal, surgira de repente – depois de tantos dias de chuva – e ao vencer as nuvens se mostrava como uma bola de fogo, cujos raios se despejavam diretamente sobre a ponta do Arpoador, formando à nossa frente aquela pequena cidade de ouro, como se saída de um conto das mil e uma noites.

    Mas não foi só isso. Havia naquele fim de tarde algo mais.

    Mal me recuperara da surpresa e olhei na direção do mar. E ali, muito além das ilhas, emergindo das brumas que suavizavam o horizonte, estava o pé de um arco-íris, de um colorido perfeito, subindo e desaparecendo no céu lilás do começo de noite, antes de completar o arco. Há muito tempo não via um arco-íris tão nítido, de cores tão bonitas. Mostrei-o ao motorista de táxi que, como eu, parecia não saber mais o que dizer.

    Entramos pela Rua Francisco Otaviano, com pena de deixar aquela paisagem para trás. Mas quando desembocamos no Posto Seis, o arco-íris, fugidio e mágico como qualquer arco-íris, estava lá, só que agora inteiro, surgindo de trás do Marimbás, cobrindo com seu arco toda a curva do mar de Copacabana e indo desaparecer além do Morro do Leme, lá pelas bandas do Pão de Açúcar. Suas cores eram menos nítidas, talvez porque a noite caía depressa, ou porque em Copacabana anoitece primeiro. Mas, de toda forma, era lindo.

    E eu me deixei recostar no banco do carro, pensando no fascínio desta cidade, capaz às vezes de nos agredir tanto, com violência, sujeira, miséria, e ao mesmo tempo nos dar tanta beleza. E guardei nas retinas aquelas visões – todas as cores do arco-íris, o pôr-do-sol mais dourado – como se fossem presentes dela para mim.

     

     

    A imagem da Lagoa que ilustra o site é um quadro a óleo de Leonel Brayner, que está no nosso livro Rio, pena e pincel. O texto acima também está no livro.