Categoria: Notícias

  • Silêncio cúmplice

    Recebi o telefonema de um amigo da TV Bandeirantes, muito abalado com a morte do cinegrafista Santiago Andrade, atingido por um morteiro disparado pelos black-blocs na manifestação do dia 6 de fevereiro. Claro que todos nós – a sociedade civil e especialmente nós, jornalistas – estamos chocados com a história. Mas uma frase de meu amigo me chamou a atenção:

    “Fico me perguntando se não devíamos ter sido mais duros desde o início, se não devíamos ter denunciado com mais vigor esses vândalos”, disse ele.

    Aí está: talvez haja, nessa morte, mais do que a sensação de perplexidade e revolta que sentimos quando ficamos sabendo, por exemplo, da morte de alguém vítima de bala perdida. Os comentários que tenho ouvido me passam a impressão de que, de alguma maneira, nos sentimos culpados.

    Desde que começaram os movimentos de junho do ano passado, temos assistido à crescente violência nas manifestações. Essa escalada de violência tem sido atribuída quase sempre à maneira truculenta de agir por parte dos policiais. Mas, por maior que seja o despreparo do aparato policial, há vândalos agindo livremente nas ruas durante esses atos, saindo com o objetivo puro e simples de destruir, sem qualquer reivindicação a movê-los. Não vejo muita diferença entre esses manifestantes violentos e os integrantes de torcidas organizadas que vão aos estádios, nitidamente, não para assistir aos jogos, mas para brigar pelo prazer da briga.

    Jovens advogados, políticos progressistas, instituições que sempre defenderam os direitos humanos, todos têm saído em defesa dos manifestantes, na presunção de que, entre perseguidos e policiais, os primeiros têm sempre razão. Mas os black-blocs, ou seja lá que nome tenham, vinham dando sinais nos quais devíamos ter prestado mais atenção: havia tintas neonazistas no comportamento deles, inclusive na hostilidade à imprensa. Há poucos dias, em uma tentativa de “rolezinho” no Leblon, um repórter de televisão foi xingado e por pouco não chegou a ser agredido pelos manifestantes. Isso tem acontecido o tempo todo, desde as manifestações de junho. Por que nós, jornalistas, não denunciamos isso com mais energia?

    Talvez porque parecesse retrógrado, uma coisa velha, de direita (como se dizia antigamente), ser contra os manifestantes. Poucos de nós, na imprensa, tivemos coragem de escrever contra eles com a força necessária. Afinal, como defender policiais e governos suspeitos, logo nós, que já trabalhamos sob censura e combatemos a ditadura? Melhor ficarmos quietos, em nome da democracia. Em nome do direito à livre manifestação – mesmo com bombas e pedras.

    E agora estamos assim, como o meu amigo da Bandeirantes. Com esse nó na garganta, essa pergunta presa no peito: será que nosso silêncio constrangido nos faz cúmplices na morte de Santiago?

     

    Artigo de Heloisa Seixas publicado no jornal ‘O Globo’ em 12/02/2014

     

  • Somos um povo fútil?

    “No Brasil, tudo vira moda. Até manifestação de rua”.

    Ouvi essa frase de um motorista de táxi durante os acontecimentos de junho, e achei um exagero. Rebati, dizendo que o povo nas ruas tinha um significado imenso e ia propiciar a mudança de várias leis. Ele me olhou pelo retrovisor e respondeu que era verdade, mas que via muitos jovens, a caminho das manifestações, agindo como se estivessem indo para um bloco de Carnaval. “É a onda do momento”, insistiu. “Daqui a pouco passa”.

    Em poucas semanas, as manifestações começaram a esvaziar. Os motivos eram muitos: a ação dos “black blocks”, as depredações, a violência da polícia, as denúncias de interesses escusos por parte de políticos, milicianos, traficantes. Mas não pude deixar de pensar nas palavras do motorista de táxi.

    Tornei a pensar nelas há algumas semanas, ao voltar de uma viagem de quase um mês à Alemanha. Ao desembarcar no Brasil, fui tomada pela sensação de que somos mesmo um país de modismos. Um povo fútil. Sei que é um clichê essa história de ir à Europa e voltar falando de “um banho de civilização”. Sempre fui contra isso. Mas, dessa vez – depois de visitar onze museus, duas exposições, de ir a um concerto de música clássica e de visitar uma gigantesca feira de livros – alguma coisa aconteceu comigo.

    Acho que uma das razões dessa sensação foi a leitura, durante a viagem, do livro de Mario Vargas Llosa, “A civilização do espetáculo”. Embora em alguns pontos eu discorde do escritor, o livro me chamou a atenção para a destruição da cultura no mundo moderno, em favor do entretenimento. Esse conceito me deixou pensando no Brasil — nesse país que não lê livros, mas onde quase todo mundo tem celular. Onde se veem, nos bairros pobres, antenas parabólicas sobre casas miseráveis, onde há mais televisores do que geladeiras, e onde, em vez de bibliotecas, temos lan-houses. País que parece ter passado, em massa, do analfabetismo funcional para o facebook – sem escalas.

    Outro fator que contribuiu para a minha sensação, ao voltar, foi essa lamentável discussão sobre as biografias. Muito me entristeceu ver biógrafos e historiadores serem tratados como se fossem caçadores de fofocas, quando o que está em jogo, com essa distorção no Código Civil, é a memória – e a História – de nosso país. Lamentei ver artistas que sempre lutaram pela liberdade defendendo posições indefensáveis. Não pude deixar de comparar o que estava acontecendo aqui com a atitude dos alemães em relação ao seu próprio passado (e que passado!). Eles não escondem nada. Não são um país sem memória. Tinham todos os motivos para ser, mas não são.

    Nós somos. Descuidamos de nossos museus, nosso patrimônio, nossos arquivos. Deixamos cair aos pedaços a Biblioteca Nacional. Mas adoramos automóveis. E televisores gigantes, com telas de LED. Não podemos ficar um segundo sem falar ao celular, nem mesmo quando almoçamos (na Alemanha, os trens têm vagões em que é proibido ligar celulares e computadores, porque os bips incomodam). Quando viajamos – refiro-me à nossa classe média –, o que mais gostamos é de fazer compras. Já somos até conhecidos nas lojas de Nova York e Miami, onde os lojistas contratam vendedores que saibam falar português. E somos vaidosos. Queremos espetar botox no rosto e botar silicone nos seios. Já há meninas de 14, 15 anos, pedindo às mães que as deixem fazer isto. Nas ruas da Europa, não se vê essa quantidade de seios artificiais que temos por aqui. Estamos entre os campeões mundiais em número de cirurgias plásticas. Em cidades como Rio e São Paulo, há quase uma academia de ginástica em cada quarteirão. Precisamos malhar. E emagrecer. E não envelhecer nunca. E comprar tênis novos. Mas podemos passar um ano inteiro sem ler um único livro. Temos péssimos resultados em matéria de educação – em todos os sentidos.

    Voltei da viagem com essa sensação de que somos mesmo fúteis, superficiais, e me lembrei do motorista do táxi.

    Texto de Heloisa Seixas publicado no jornal O Globo em 14/12/2013

  • Prêmio culinário internacional

    Prêmio culinário internacional

    Meu livro “Uns cheios, outros em vão – Receitas que contam histórias” (Casa da Palavra) foi escolhido o melhor livro de culinária do Brasil pela Gourmand World Cookbook Awards, que premia livros de culinária do mundo todo. Foi uma surpresa enorme, porque, como eu própria anuncio no começo do livro, sempre fui uma negação como cozinheira!

    A Gourmand Awards partiu de uma lista de 10 mil livros sobre culinária publicados em 83 países em 2013. O prêmio é promovido pela Feira de Culinária de Paris, que se realiza anualmente, mas a finalíssima do concurso desta vez será em Beijing, na China, em maio de 2014.

     “Uns cheios, outros em vão” reúne as receitas culinárias da minha mãe, Maria Angélica, e também várias receitas de família, assim como muitas histórias que me vieram à lembrança quando eu estava organizando o livro. Eu considero esse livro uma espécie de contraponto de “O lugar escuro”, o livro sobre a doença de Alzheimer da minha mãe, porque traz apenas histórias luminosas, engraçadas.

     

  • Reestreia de ‘O lugar escuro’

    Reestreia de ‘O lugar escuro’

    Depois de uma curta, mas bem sucedida, temporada no início do ano, no Espaço Sesc, em Copacabana, a peça “O lugar escuro”, sobre a doença de Alzheimer, vai reestrear em breve. A peça, uma adaptação do livro homônimo que eu escrevi em 2007 (editora Objetiva), foi selecionada em dois editais de cultura. Pelo Programa de Fomento à Cultura, da Prefeitura do Rio, e pelo programa Caixa Cultural, um dos mais disputados do Brasil.

    Graças ao apoio da Prefeitura, “O lugar escuro” fará 12 apresentações em seis lonas e arenas culturais do Rio, em datas ainda a serem estabelecidas. Ainda não sabemos em que arenas ou lonas exatamente serão as apresentações, mas isso será divulgado em breve. Já o edital da Caixa Cultural prevê duas temporadas curtas nas cidades de Fortaleza (em novembro do ano que vem) e Curitiba (em fevereiro de 2015).

    “O lugar escuro”, com direção de André Paes Leme, conta com o talento de três grandes atrizes — Camilla Amado, Clarice Niskier e Laila Zaid –, que já estão acertando suas agendas para as novas temporadas. Por seu trabalho na peça, Camilla Amado foi indicada para o Prêmio Shell de Melhor Atriz em 2013.

  • Mais uma indicação

    Nossa querida Camilla Amado foi indicada para mais um prêmio de Melhor Atriz por seu papel na peça “O lugar escuro”, encenada no início do ano no Espaço Sesc, em Copacabana. Depois da indicação do Prêmio Shell, de enorme importância, agora foi a vez do Prêmio Cesgranrio, criado este ano, mas já considerado um prêmio de grande prestígio. Aqui vão mais alguns detalhes sobre o Prêmio Cesgranrio, assim como a lista de indicados em outras categorias.

    PRÊMIO CESGRANRIO DE TEATRO:

    O Centro Cultural Fundação Cesgranrio, criado pela Fundação Cesgranrio e que tem como objetivo promover e difundir a cultura brasileira, lançou no final de 2012 o mais novo Prêmio de Teatro do Rio de Janeiro – o Prêmio Cesgranrio de Teatro. O corpo de jurados é formado por Barbara Heliodora, Tânia Brandão, Macksen Luiz, Lionel Fischer, Daniel Shenker, Mirna Rubim e Carolina Virguez.  O Prêmio traz ainda uma inovação: entre as 12 categorias a ser premiadas, três delas serão dedicadas ao teatro musical (Melhor Ator em Teatro Musical, Melhor Atriz em Teatro Musical, Melhor Direção Musical).

    As demais categorias são: Melhor Direção, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Espetáculo, Melhor Cenografia, Melhor Iluminação, Melhor Figurino, Melhor Texto Nacional Inédito, Categoria Especial.

     Cada categoria contará com uma premiação de R$ 25.000,00. Para a primeira edição do prêmio, serão contempladas produções que estrearam entre outubro de 2012 e dezembro de 2013. A cerimônia de entrega dos prêmios está prevista para o início de 2014.

    Indicados:

     

    Melhor direção

    Sérgio Modena – A arte da comédia

    Walter Lima Junior – Repetition

    Charles Moeller – Como vencer na vida sem fazer força

     

    Melhor ator

    Ricardo Blat – A arte da comédia

    Thelmo Fernandes – A arte da comédia

     

    Melhor atriz

    Camilla Amado – O lugar escuro

    Ana Kfouri – Moi lui

    Clarice Derziê Luz – À beira do abismo me cresceram asas

     

    Melhor espetáculo

    A arte da comédia

    Como vencer na vida sem fazer força

    Moi Lui

     

    Melhor cenografia

    Bia Junqueira – As mulheres de Grey Gardens

    Rui Cortez – Moi Lui

    Rogério Falcão – Como vencer na vida sem fazer força

     

    Melhor iluminação

    Thomas Ribas – Moi Lui

    Renato Machado – Vestido de noiva

    Luiz Paulo Nenen – As mulheres de Grey Gardens

     

    Melhor figurino

    Tanara Schornardie – Rock in Rio

    Marcelo Pies – Como vencer na vida sem fazer força

    Rita Murtinho – Emily

     

    Melhor texto nacional inédito

    Julia Spadaccini – Aos domingos

    Rodrigo Nogueira – O teatro é uma mulher

     

    Categoria especial

    José Dias – lançamento do livro “Os teatros do Rio”

    Lídia Kosovski – curadoria da exposição em homenagem de Luiz Carlos “A mão livre”

     

    Melhor direção musical

    Délia Fischer – Rock in Rio

    João Bittencourt – Na bagunça do seu coração

    Paulo Nogueira – Como vencer na vida sem fazer força

     

    Melhor ator em musical

    Ícaro Silva – Rock in Rio

    Gregório Duvivier – Como vencer na vida sem fazer força

    Andre Loddi – Como vencer na vida sem fazer força

     

    Melhor atriz em musical

    Adriana Garambone – Como vencer na vida sem fazer força

    Suely Franco – As mulheres de Grey Gardens

    Lucinha Lins – Rock in Rio

     

  • Saiu!

    Saiu!

    A editora Objetiva acaba de lançar o livro “Heloisa Seixas — Crônicas para ler na escola“, reunindo  textos escritos por mim nos últimos anos. São 64 textos, em sua maioria “contos mínimos” publicados na revista Domingo do Jornal do Brasil (entre 1999 e 2006) e também crônicas feitas para a revista Seleções. Uma pré-seleção foi feita por mim e pela Daniela Duarte e passada à organizadora, Regina Zilberman, que os agrupou por assunto, fazendo um trabalho muito bom. Muita gente está elogiando a minha foto na capa do livro, mas a explicação é uma só: ela foi feita por um fotógrafo competentíssimo, meu querido Bruno Veiga. A foto foi feita em novembro do ano passado.

    Aqui, reproduzo uma das crônicas do livro. Chama-se “Ausência” e é um texto que fiz para a Domingo quando da morte brutal do jornalista Tim Lopes, assassinado por traficantes há dez anos. Foi publicada em junho de 2002, mês que era para ser só de festa, mês em que o Brasil acabaria ganhando a Copa do Mundo. Mas aconteceu aquela tragédia com Tim. Na década de 80, tínhamos trabalhado juntos no jornal O Globo.

    Esse texto tem uma peculiaridade: com a exceção do último parágrafo, ele foi feito inteiro sem o uso de adjetivos.

    Eis a crônica:

     

    Ausência

     

    Ela queria fazer uma história de festa, uma história de céus e flores, de verões sem fim, uma história de areias, onde houvesse sempre luz e brisa e cheiros. Queria uma história de amor, de recordações, uma história, quem sabe, de criança ou velho, que alegrasse a manhã. Ou queria talvez uma história de noites, de passos e arrepios, de inquietações, mas desde que fossem sobressaltos sem sangue, onde até nos fantasmas dormisse alguma beleza, um fascínio qualquer.

    Mas ali, diante da tela, sentia um vazio, uma paralisia, cuja razão não podia alcançar. Era um impasse. Alguma coisa faltava, alguma coisa se fora. Não sabia o que era. E não tinha idéia de por onde enveredar para descobrir.

    Cismou e cismou, sem sair do lugar. Afinal, baixou os olhos das telas para as mãos que repousavam no teclado. Sentiu a perplexidade daqueles dedos, cuja inércia a surpreendia. Levantou-se, foi até a janela. Olhou a paisagem, buscando a resposta. Fechou os olhos, sentiu o sol, mas não encontrava em lugar algum aquilo que – sabia, sabia sem vacilar – dela se perdera.

    Voltou. Caminhou até a cozinha, sempre buscando, sempre sentindo falta, mas ainda acreditando. Olhou em torno, observou a casa. Não havia nada fora do lugar, nada que significasse uma pista, que lhe desse as respostas. E, com um gesto de ombros, acabou por desistir.

    Mas de repente, quando já nem esperava, descobriu.

    Descobriu o que faltava e por que suas mãos se tinham partido. Descobriu o que era aquela ausência, que enchera com sua presença a sala, a vida, tudo ao redor.

    Ela estava escrevendo de uma forma como jamais fizera em sua vida: sem adjetivos. Eles tinham desaparecido.

    Não estavam mais com ela, para onde teriam ido? Ela os perdera, isso era um fato. Ficou olhando as letras, palavras e frases, vendo nelas apenas uma pergunta. Por que a tinham deixado assim, como se cruzasse agora um leito de rio sem água, só feito de pedras? E de repente lhe vieram à mente as palavras do poeta João Cabral, sua secura, seu quase rancor, falando do sertão. “Lá não se aprende a pedra: lá a pedra, uma pedra de nascença, entranha a alma”. A beleza de uma poesia que guarda em cada verso um deserto. Sem adjetivos – porque a alma do sertão, de tanto sofrer, há muito se enrijeceu.

    E ela compreendeu afinal o que acontecera: os adjetivos se tinham endurecido. Pois que era hora, sim, de usá-los, mas não aqueles a que ela se acostumara. Nada de azul , marinho, sensual, suave. Nada de vaporoso, anelado, gentil, completo. Era hora de outros. E ela abriu a porta para que corressem, conspurcando o papel como se fora terra, plantando seu horror nos campos onde não mais crescia a relva: cruel, hediondo, pavoroso, assassino, traficante, sanguinário, revoltante, corrupto, intolerável, torpe. Era a ferida que latejava – por trás da festa.

     

     

     

  • Prêmio Shell

    Prêmio Shell

    Camilla Amado foi indicada para o Prêmio Shell de Melhor Atriz por seu papel na peça “O lugar escuro”, encenada no início do ano no Espaço Sesc, em Copacabana. Eu, que como autora da peça tive a oportunidade de acompanhar todo o processo de desenvolvimento dos personagens durante os ensaios, sempre me impressionei com a profundidade e a erudição dessa grande atriz que é Camilla. A indicação não foi surpresa para nós, da equipe de “O lugar escuro”. A peça contou com um elenco fantástico, muito bem entrosado, e as outras duas atrizes, Clarice Niskier e Laila Zaid, também tiveram grandes interpretações (para não falar na sensibilidade do diretor André Paes Leme). Mas Camilla se destacou, não só por suas falas e expressões, mas pelos momentos de silêncio, os momentos em que estava a um canto do palco, quase na penumbra, e que eram de uma força raramente vista.

    “O lugar escuro” teve uma temporada curta, mas a produção da peça, a Tema Eventos, está se esforçando para conseguirmos reestrear ainda este ano, o que espero aconteça em breve. Aqui abaixo, reproduzo o texto que escrevi para o programa da peça, e que resume bem o que me levou a transpor meu livro para os palcos:

    Por trás do lugar escuro, fiapos de luz
    “Queria te agradecer, Heloisa. Eu também sentia raiva, mas não conseguia confessar.”

    Ouvi essa frase de uma mulher desconhecida, ao final de uma palestra dada por mim, poucos dias depois do lançamento do meu livro “O lugar escuro”, em 2007. Desde então, não parei mais de ouvir frases semelhantes, de pessoas que se emocionaram com o livro e se identificaram com seu tema: a experiência de conviver com alguém que tivesse a doença de Alzheimer. A raiva mencionada era a revolta diante da doença, que às vezes se dirige contra o próprio doente.

    Outra coisa que me chamou atenção foi que as pessoas pareciam se identificar com o livro mesmo que não tivessem alguém com Alzheimer na família. “Eu tinha ciúmes do meu irmão, mas nunca admiti”, me disse outro leitor. Foi quando percebi que “O lugar escuro” não era exatamente sobre a senilidade. Era também sobre relações familiares, ciúmes entre irmãos, rancores secretos, medo de enlouquecer, medo de morrer, essas coisas que fazem parte da nossa vida. Por isso, as pessoas se viam no livro.

    Foi essa identificação que me motivou a transportar “O lugar escuro” para o teatro. Espero que as palavras, quando materializadas no palco e transformadas em carne e osso, possam tocar ainda mais fundo nessas questões tão delicadas, que são as relações familiares. Esses lugares escuros que, felizmente, de uma forma ou de outra, sempre escondem algum fiapo de luz.

     

    * A foto que ilustra este post, mostrando Camilla Amado e Clarice Niskier em um dos momentos mais emocionantes da peça, é de Leonardo Aversa.

     

     

     

  • Morrer de prazer

    Morrer de prazer

    Este é o título do novo livro de Ruy Castro, que será lançado esta semana (11 de junho): “Morrer de Prazer – Crônicas da vida por um fio”. O livro sai pela editora Foz. São textos em que Ruy nos traz a sua visão original de mundo – a juventude nos anos 60 e o jogar-se à vida, a paixão pelas mulheres, pelo cinema, pelo sorvete, a bebida e a coragem para se livrar dela, sua fome de viver. O lançamento de “Morrer de prazer” em São Paulo vai ser no dia 11 de junho, terça-feira, a partir das 18:30, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista 2073). No Rio, o lançamento acontece na quinta-feira, dia 13, na Cultura do Cine Vitória (Senador Dantas 45), de dia (12:30), como eram os lançamentos antigamente. Também como acontecia antigamente, o lançamento vai ter uma “madrinha” e a escolhida foi uma grande leitora de Ruy Castro: Quitéria Chagas. E o livro terá ainda uma noite de autógrafos em Porto Alegre, no dia 28 de junho, quinta, a partir das 18:30, na Cultura do Bourbon Shopping (Av. Túlio de Rose, 80). A foto da contracapa, tirada por Jorge Bispo, mostra Ruy fingindo comer um cacto espinhoso, uma das muitas plantas dessa espécie que ele coleciona em seu terraço, no Leblon.

  • Gourmand Awards

    Gourmand Awards

    O meu livro “Uns cheios, outros em vão — Receitas que contam histórias” (Casa da Palavra), está entre os 250 selecionados pela Gourmand Awards para concorrer ao prêmio da Feira de Culinária de Paris, que se realiza anualmente. A Goumand Awards partiu de uma lista de 10 mil livros sobre culinária publicados em 83 países nos últimos seis meses, o que me deixou muito orgulhosa — considerando-se que, como eu própria confesso na abertura do livro, não sei fazer nem ovo frito.

    “Uns cheios, outros em vão” reúne as receitas culinárias da minha mãe, Maria Angélica, e também várias receitas de família, assim como muitas histórias que me vieram à lembrança quando eu estava organizando o livro.

    Dos 250 livros selecionados no mundo todo pela Gourmand Awards, 200 são livros de culinária e 50 são livros sobre vinho. Além de “Uns cheios, outros em vão”, os outros livros brasileiros selecionados foram: “As Minhas Receitas de Bacalhau”, de Vitor Sobral; “Cozinha de Estar”, de Rita Lobo (ambos de culinária); e “Pequena Biblioteca do Vinho”, de Clara Colotto (sobre vinho, como mostra o título).

    Em dezembro, serão anunciados os vencedores por país e em janeiro de 2014 sai uma lista final, de cinco livros (de cinco países diferentes), para concorrer ao título de “Melhor Livro de Culinária do Mundo”. O vencedor é convidado a participar da Feira de Culinária de Paris.

  • Godard para sempre

    Já começou na Oi Futuro Flamengo (rua Dois de Dezembro, 63) e na Oi Futuro Ipanema (rua Visconde de Pirajá, 54) o ciclo de filmes do cineasta Jean-Luc Godard, que inclui também palestras, performances e uma exposição (até 7 de julho). A programação é espetacular e uma chance para conhecer melhor esse cineasta que contribuiu para transformar a linguagem cinematográfica.

    Como alguns bobocas ainda insistem em chamar Godard de “chato” e seus filmes de “incompreensíveis”, reproduzo aqui um artigo escrito pelo muito jovem Ruy Castro (tinha 21 anos), feito para a revista Fairplay de setembro de 1969. É um bom aprendizado.

     

    GODARD OU ENGODAR, EIS A QUESTÃO

     

    Se há uma constante motivação na obra de Godard, essa motivação é o próprio cinema. Vivre sa vie não é um filme sobre a prostituição, assim como Les carabiniers não é um filme sobre a política. No fundo e na superfície, todos os filmes de Godard são sobre o cinema, ou, num sentido mais largo, são filmes sobre a linguagem. Não só porque Godard esteja operando em permanente estado de graça diante da linguagem, no sentido da experimentação, mas também porque, a cada filmes, ele procura descobrir o sentido deste sentido.

    “Os filmes de Godard não nos deixam esq1uecer que estamos num cinema”, uma observação interessante de Pauline Kael, que vem confirmar o nosso ponto de vista. Cinéfilo inveterado, Godard, enquanto crítico, contribuiu para a justa valorização de homens como Hitchcock, Nicholas Ray, Frank Tashlin, Antony Mann — e, para ele, escrever sobre filmes já era o mesmo que fazer cinema. Seus primeiros filmes foram “Filmes de cinéfilo”, e, enquanto A bout de souffle era dedicado à Monogram Pictures, Vivre sa vie era dedicado às produções B do cinema americano. Une femme est une femme, em espírito e nas intenções, era como se fosse um musical da Metro. De uma forma ou de outra, o cinema está presente em todos os seus filmes. Em Les carabiniers, um dos personagens “descobre” o cinematógrafo, irrompendo pela tela para supreender a mulher que toma o seu banho, pensando que fosse real. Em Pierrot le fou, Belmondo assiste, entre um e outro news-reel sobre o Vietnam, a um filme do próprio Gordard, Le grand escroc, um curta-metragem. Já em Vivre sa vie, é Anna Karina que vai ao cinema e chora as mesmas lágrimas da Falconetti em La passion de Jeanne d’Arc, de Dreyer, cujos planos são intercalados com os de seu rosto. La chinoise, um filme en train de faire, mostra a câmara de Raoul Coutard (seu fotógrafo habitual) em plena atividade, filmando Jean-Pierre Léaud. E Made in USA foi concebido como se fosse um filme estrelado por Haumphrey Bogart, mas interpretado por Anna Karina. Enfim: diante da tela, o espectador não tem como safar-se da ratoeira engendrada por Godard — pode-se enveredar pelo labirinto, mas a saída será sempre o cinema.

    Isso, no entanto, não é o mais importante. A maior contribuição de Godard não está ao nível da microestrutura (ou seja: citações, colagens, alusões), mas ao nível mesmo da macroestrutura — de como ele constrói seus filmes. No cinema, de modo geral, cada filme de cada cineasta se propõe a ser uma “interpretação” da realidade, via linguagem. A realidade, então, passa a ser qualquer coisa além do filme — como se o filme fosse o veículo ou cano de descarga daquilo que o cineasta pretende “dizer” ao espectador. Troca-se o filme em miúdos para que dele brote a mensagem, segundo a grande tradição do cinema americano. Mesmo na obra de artistas maiores, como Chaplin, Welles, Lang, Murnau, Buñuel ou Hitchcock, o filme remete a um significado redutível, a um esquema conceitual. Com Godard, ao contrário, temos o filme em liberdade – auto-referente. Um filme é um filme, e é especulação sobre a linguagem, no sentido de que está sempre refletindo sobre a sua própria razão de ser. Talvez isso tenha levado Godard a declarar, certa vez, que o “cinema não é uma arte que reproduz a vida, e sim alguma coisa entre a arte e a vida”. Tour-de-force ou não, é uma prova de coerência: o meio já era a mensagem, desde A bout de souffle.

    Imputa-se geralmente a Godard que ele “não tem nada a dizer”. Pelo contrário, ele diz tudo, e cada conceito emitido em seus filmes é o mais polivalente possível. Pode-ser dizer que sua obra (que seria uma obra em progresso, sem começo nem fim, sem tempo ou espaço) é um raio-X da civilização industrial, onde se processa a mais frenética das batalhas: a batalha da informação. Os veículos, como o cinema, o rádio, a TV, o livro, o cartaz, os luminosos, as histórias-em-quadrinhos, o telex, os satélites artificiais e os jornais, estão empenhados num fogo cruzado de informação, em que, mais importante que o “conteúdo” expresso por eles, o que funciona como elemento de pressão é o volume & alcance dessa informação. O cinema de Godard, a par de uma exemplar compreensão deste problema, é uma espécie de colagem com alto grau de informação original dos elementos que compõem o mundo industrial. Por isso, tanto faz que as frases que brotam da boca de seus personagens sejam altamente ambíguas: nunca se sabe se Godard está falando a sério ou não, mas, de resto, isso pouco importa.

    Umberto Eco, em sua importante Obra aberta, escreveu que “a obra de arte é uma mensagem fundamentalmente ambígua, uma pluralidade de significados que coexistem num só significante” e que, modernamente, “esta ambiguidade é proposital, torna-se um fim explícito da obra”. Não é que Godard não consiga “se definir”, como o pretendem alguns, ingenuamente, mas é porque parece claro a ele que o torvelinho informacional é por demais complexo para ser solucionado por fórmulas infantis como esquerda vs. direita, ou veio vs. bonito. Não há mais significados, e sim funções & relações — signifunções. A obra aberta, no entender de Eco, é aquela que “projeta diversas possibilidades interpretativas”, e não se pode “compreender” Godard fora dessa faixa de total relatividade. Acaso, arbitrário, ambiguidade, desordem: são palavras que podemos usar a respeito de Jean-Luc. Como extrair a mensagem? Seria como tentar ordenar o caos, onde reina o acaso, a imprevisibilidade total. É também uma espécie de abertura para o infinito, especialmente em Deux ou trois choses que je sais d’elle. Não há uma chave para se abrir obras como essa: há várias, e cada espectador dispõe de uma, ou de várias, de acordo com o ajuste de sua sensibilidade. Se os seus filmes tornam-se cada vez mais abstratos, é porque ele não se contenta mais em por “coisas ao lado de coisas”, como costumava dizer, e sim pretende agora “por tudo num filme”.

    Vale a pena, no entanto, ouvir o que tem a dizer o crítico americano Andrew Saris: “É possível admirar Godard e, ao mesmo tempo, temer sua influência em outros diretores. Seria detestável ver todo o cinema tornar-se conscientemente godardiano”. A realidade prova que Saris tem razão. Godard inventou um processo cuja importância já não pode ser hoje posta em dúvida: retomou possivelmente o sentido original do uso da câmara, justapondo ficção & realidade, e tornando o cinema o turning-point, onde se encontram e se entroncam a arte e a vida, o acaso e a razão. Deu um novo sentido ao comportamento do ator diante da máquina, não mais como um simples boneco do faz-de-conta, mas como alguém que está, formulando na prática um dado comportamento. Godard faz isso, e o faz bem, mesmo porque sabe o que faz. Alguns de seus admiradores mais frenéticos afirmam maravilhados que ele pretende destruir a linguagem. Infantil, essa afirmação. Pelo contrário, é o cinema tradicional que vem lucrando com o acúmulo de contribuições deixadas por Godard, o qual, por sua vez, só as extraiu de sua intensa convivência com o tradicionalíssimo cinema de Nicholas Ray, Anthony Mann e outros. A invenção se alimenta continuamente da tradição, como se sabe, e Godard só faz tornar concreta a colocação poundiana do make it new. Se os seus diluidores & epígonos apressados, depois de lhe bicarem dois ou três macetes superficiais, pretendem “destruir” a linguagem, pouco importa: todo mundo tem o direito de ser quixotesco, se quiser.

    De fato, o cinema está sendo impregnado desse sofisma. Mas o próprio Godard já declarou uma vez que nunca pretendeu destruir nada: “Ou talvez só tenha destruído uma certa noção da imagem, uma certa maneira de conceber como ela deva ser. Mas nunca pensei nisso em termos de destruição. O que eu queria era passar ao interior da imagem, já que a maior parte dos filmes são feitos em seu exterior”. A porta aberta por Godard não deixa de ser um tanto perigosa: é até meio suicida, especialmente se todos os cinemas-novos do mundo tentarem enveredar por ela. É verdade que filmes como A bout de souffle ou Pierrot le fou conseguiram criar uma determinada faixa de público, em disponibilidade agora para aceitar qualquer arrojo, e prepararam o terreno para o espectador comum não se espantar tanto diante de filmes que normalmente, não “compreenderia”. Daí, no entanto, a querer negar a outra grande vertente do cinema, que é o espetáculo (e da qual talvez 2001 seja a expressão máxima) já vai uma grande distância. As duas grandes incógnitas (x & y) da equação cinematográfica, que são a invenção e a administração, podem perfeitamente coexistir, e já estão até permutando suas conquistas. Pois, se o cinema é mais um trabalho de equipe que de um gênio isolado, é mais que sadia essa permutação. O cinema de autor, como já o declarou o próprio Godard, não passou de um cavalo-de-batalha com o fito de converter o espectador comum num indivíduo interessado em ver o cinema como algo mais que um simples divertissement. É natural que se impute a Buñuel ou Bergman a “autoria” de um filme, por se tratarem de artistas extremamente pessoais, com uma “visão do mundo” peculiar etc., mas é imperioso não desprezar como menor o trabalho de grandes administradores de equipes como o são ou foram George Sidney, Michael Curtiz ou Robert Z. Leonard. Pode-se ainda falar em cinema de autor diante de 2001?

    Godard descobriu que se podia fazer cinema com pouco dinheiro e a curto prazo, e passou a fazê-lo efetivamente, no sentido do antiespetáculo. Não há exemplo mais radical que o recente One plus one, rodado na Inglaterra com os Rolling Stones (e de tal forma que houve quem insinuasse que o filme era contra eles…) Les carabiniers, por exemplo, configura com perfeição o antiespetáculo da guerra, mas à moda godardiana, que não deixa de ser das mais ricas: a fotografia em alto contraste à maneira dos news-reels, o desfile de cartões-postais em big-close. Pierrot le fou era um grande espetáculo de cores & formas, assim como Une femme est une femme era um grande espetáculo de formas & sons. Mas nem mesmo o trabalho altamente pessoal de Godard pode prescindir de espírito de equipe: o rendimento desses filmes seria o mesmo sem a presença altamente estimulante de Raoul Coutard? O que pode traduzir um descaminho é o cinema que se faz algures, cacete e estropiado, paupérrimo tecnicamente e filmado com a indefectível câmara epiléptica, em cuja defesa geralmente se invoca o nome de Godard. Dizer que este e só este deve ser o cinema do terceiro mundo, isto sim, é render preito ao subdesenvolvimento, numa tentativa tola de nivelar por baixo. E, afinal, o que tem Godard a ver com isso?

    Ao invés de investir quixotescamente contra a linguagem, Godard a enriquece. Pode-se discernir esquematicamente essa sua contribuição em três pontos:

    a) o tratamento da fala: Godard valorizou a dialogação, ou por outra, compreendeu o seu sentido. Quando o cinema era silencioso, os cineastas não tinham esse problema. Com o advento do som, eles ganharam um recurso a mais, mas, durante muito tempo, ficaram sem saber como usá-lo: a dialogação, de modo geral, só vinha reiterar alguma constatação que a imagem já deixava patente. A fala era, não raro, redundante: vide um clássico, O delator, de Ford, de 1935, mas em que a herança do silencioso ainda era pesada. Godard dissociou a fala da imagem, de tal forma que é esta que reforça aquela, ao contrario do que se fazia. O preconceito de que o cinema é apenas imagem é, por sua vez, apenas um preconceito.

    b) o (anti) tratamento da (anti) narrativa: Godard nunca contou uma história em seus filmes, nem mesmo em A bout de souffle. Fazendo explodir o encadeamento lógico de começo/meio/fim, procedeu a um deslocamento da narrativa de tal forma que esta acabou por sair completamente dos eixos, como em Deux ou trois choses. Deve-se, é verdade, dar a palma a Antonioni, por ter sido o primeiro a atentar deliberadamente para esse problema: L’aventura, anterior ao primeiro Godard, já abria a trilha para o encontro entre ficção & documentário, que é hoje o leit-motiv da obra de Jean-Luc.

    c) o (anti) tratamento do (anti) ator: Godard libertou o ator das estrias do faz-de-conta, despindo- até do contexto anedótico no qual se situava rotineiramente. O que faz Anna Karina em seus filmes? Nada. Ou seja, não representa, no sentido teatral do termo. Apenas presentifica um dado comportamento, sem fazer uso das bolações dramatúrgicas, empostações de voz, gesticulações grotescas. Karina talvez seja até a antiatriz por excelência. Ou, quem sabe, seja a única atriz do cinema, porque, diante da câmara, ela não interpreta um personagem fictício, mas, sim, uma mulher em carne & osso, que está num filme, como se tivesse sido apanhada de propósito pela câmara. Na grande tradição do cinema americano, os atores maiores como Humphrey Bogart ou Frederic March ou Charles Laughton procuravam engendrar um dado realismo interpretativo, que tornasse o personagem mais convincente. No cinema de Godard, é o contrário: ele não interpreta — simplesmente está, como na realidade.

    E esta seria talvez uma das chaves para a obra de Godard: ele elidiu e aboliu todas as tentativas de realismo para mergulhar na realidade pura e simples, a partir da própria realidade do filme, da película. Paralelamente a Resnais, que também experimenta neste sentido, o impulso dado ao cinema por este processo é inestimável. É neste cruzamento que desemboca a dialética ficção & documentário, que, bem ou mal, serve de pretexto a que grande parte dos filmes de hoje insiram tomadas reais no contexto anedótico, num macete que já vem se tornando irritante pela repetição.

    Poder-se-ia falar, ainda, do exaustivo aproveitamento de materiais ou detritos informacionais, colhidos por Godard e encaixados nos filmes; takes de capas de livros, histórias-em-quadrinhos, anúncios luminosos, cartazes, intertítulos etc. etc. Pierrot le fou & Alphaville são exemplares neste sentido, resultando numa espécie de ideograma da sociedade industrial. A primeira impressão é a de um caos, onde se desrespeitam todas as regras — desordem absoluta. Mas, até para a desordem é necessária uma certa ordem estrutural, que os filmes de Godard não deixam de evidenciar. E a ordem de todos eles é essencialmente cinematográfica: Godard constrói os seus filmes a partir do cinema, e o ponto de chegada é também no cinema.

    Em termos de linguagem, sua obra está longe de ser considerada acabada: a linguagem se renova, e Godard com ela. Pode estar enveredando por um beco sem saída (e One plus one é um sintoma alarmante de possível esgotamento), mas, afinal, o homem tem sete fôlegos e é surpreendente. Não é um cineasta extremamente meticuloso, como Resnais, que, nesses dez anos, rodou apenas cinco filmes, um dos quais (Marienbad) pode ser colocado isoladamente como um dos maiores do cinema. Por isso, é de se temer essa obcecante admiração que todos os jovens cineastas do mundo lhe dedicam: está-se chegando a um ponto que qualquer filme que “conte uma história” já nos parece maravilhoso, pelo simples fato de que não compactua com essa “genialidade” alucinada que produz tantos filmes pretensiosos e chatos. E, afinal, o cinema não é uma arte para masoquistas.